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O presépio ocupava a sala todo o ano porque não havia dinheiro para mobílias

O presépio ocupava a sala todo o ano porque não havia dinheiro para mobílias

José Nalha Cruz, azambujense de coração, recorda as vivências de uma vila rural

Foi um menino rebelde. Afrontou o chefe da estação de comboios de Azambuja e zangou-se com o comandante de bombeiros da época. Foi Maria Luísa quem fez assentar José Nalha Cruz, filho de negociantes de vassouras de piaçaba, que aos 21 anos foi trabalhar como motorista das OGMA, em Alverca, e falhou uma carreira no futebol profissional. Começou em Azambuja o seu projecto de vida numa casa pequena de 200 escudos de renda. Com o presépio a ocupar o espaço da sala de jantar durante todo o ano porque não havia dinheiro para mobílias.

Edição de 26.05.2010 | Especial Feira de Maio
É manhã de sexta-feira na vila de Azambuja. Nas ruas já se sente a intensidade dos últimos preparativos da Feira de Maio. José Nalha Cruz entra num dos cafés centrais. Tem 73 anos e conserva o porte atlético de jogador de bola auspicioso a quem o destino não deu a oportunidade merecida. Não é homem de sentar-se no café. Avisa a empregada de que a conta está por sua conta. Olha o relógio, gesto que repetirá mais vezes. Os quatro hectares de pomar e horta já foram tratados pela manhã, mas há ainda o almoço do neto para preparar.Quem diria que é este o menino rebelde, filho de negociantes de vassouras de piaçaba, que em tempos brigou com o chefe da estação de comboios e fez cair involuntariamente um antigo comandante dos bombeiros depois de um desacato com um soldado da paz por causa de um bilhete de cinema porque ele era “bombeiro e não porteiro”? “Quando o comandante veio falar comigo desviei-me, ele bateu na parede e partiu os óculos”, recorda. As memórias deixam um sorriso malandro no rosto de José Nalha. “Eu era do piorio”, reconhece. Com o chefe da estação aconteceu tudo porque o edifício estava pintado de fresco e os miúdos entretinham-se a moldar letras na cal. “Lá fui eu para a cadeia”. O comandante do posto da Guarda Nacional Republicana, o senhor Barata, dizia-lhe: «Ó Nalha, não há casamento ou baptizado em que não apareças». “Eles pegam comigo”, respondia-lhes. Se lhe lançavam rastilho o jovem explodia no esplendor da juventude.A vida mudou por volta dos 21 anos quando Maria Luísa engravidou e José Nalha começou a trabalhar nas OGMA, em Alverca, onde esteve como motorista durante mais de trinta anos. “Depois do 25 de Abril deram a possibilidade aos trabalhadores de estudarem. Ia levá-los de autocarro a Lisboa às 17h00 e às 19h00. E depois ia à cozinha económica de Alcântara à espera dos estudante que saíam à meia noite. Apanhava o comboio da 1h30 da manhã para Azambuja e o das 5h30 para Lisboa”, descreve. A esposa, quatro anos mais nova, era filha de pescadores. A sogra não aceitou de início o namoro. “Eu andava na tropa e a minha sogra dizia: «ele não é nada. Ainda se fosse um sargento!»”. Foram viver com os pais de José Nalha, mas o casal acabou por alugar casa. Maria Luísa deixou de trabalhar quando se tornou mãe. Era a esposa que orientava as finanças da casa. Tiveram quatro filhos. Dois morreram ainda pequenos. O marido fazia questão de assegurar o rendimento da família. Na primeira casa pagavam 200 escudos de renda de casa. Depois apareceu uma outra vaga por 400 escudos com mais comodidades. Na altura o casal já tinha dois filhos. Para encher a nova residência tinham a cama, uma cómoda, uma mesa e pouco mais. “No Natal fazíamos um presépio. Estava lá todo o ano. Não tínhamos mobília nem queríamos nada fiado”, diz entre sorrisos à distância de muitas décadas.Um dia uma vizinha amiga da mulher ganhou o totobola. Vinte e tal contos. A sorte grande. Compraram finalmente a mobília e o presépio passou a cumprir a tradição sazonal. A primeira televisão e frigorífico - comprados em segunda mão a uma taberna do centro da vila - só chegaram depois da venda de uma bezerra que o pai lhe ofereceu.Maria Luísa partiu há cerca de cinco anos. Desde aí que se esbateu a alegria de viver de José Nalha. Foram companheiros de uma vida, mas só casaram há 12 anos. Remate de uma união que deu até agora muitos frutos: dois filhos, cinco netos e três bisnetos.Para preencher o tempo ocupa-se entre laranjeiras, nespereiras e morangueiros. Às refeições come sobretudo peixe. Por ano cria 500 frangos, mas a carne vai toda para a família. “Compro todos os anos metade de uma vaca, mas eles a pouco e pouco é que a vão levando”. Gosta de apanhar melancias e saboreá-las ao calor. O sossego do campo é o seu lugar preferido.Quando as cheias roubavam o sustento dos homensQuando a cheia vinha ao campo, nos tempos de uma Azambuja rural, faltava o pão em casa de quem tirava o sustento da terra. José Nalha Cruz, filho de negociantes de vassouras, nunca andou descalço nem passou privações, mas tomava as dores de quem trabalhava de sol a dar e tinha que pedir para comer. “Lá iam os filhos, coitadinhos, com seis ou sete anos, bater à porta de alguém de quem não trabalhava no campo. Davam-lhe um bocadinho de pão e dão-lhe uns tostões”, conta.A alimentação não era a melhor e alguns patrões ofereciam vinho a quem cavava. “Sabe o que era o vinho? O vinho era droga. A pessoa apanhava-se com aquela bebida e trabalhava estupidamente”. A cadência esgotante nunca lhe saiu da memória.Se acontecia um trabalhador adoecer a esposa todos os fins-de-semana percorria a vila a bater às portas com um saquinho. Fazia-o para sustentar os filhos. “A minha mãe dava porque tinha possibilidades. Não sei quantos afilhados ela teve”. Às vezes organizavam-se bailes e o que se arranjava das entradas era para dar ao colega que doente há muito tempo.Entrar na política nunca lhe passou pela cabeça depois da revolução dos cravos. Tem a quarta classe que só tirou já em adulto para ter acesso à carta de condução “Se fosse mais novo e andasse a estudar talvez me submetesse. Mas eu só os vejo a matar porcos e distribuir garrafões de vinho para apanhar essa malta. A mim não me apanham”.O filho dos negociantes de vassouras de piaçabaJosé Nalha Cruz, filho único, nasceu na Chamusca a 25 de Novembro de 1936, mas saiu da terra aos dois anos de idade. Na Castanheira do Ribatejo, para onde seguiram os pais, ganhou a paixão pela bola. “Jogávamos numa lixeira que havia quase ao pé da Vala do Carregado. Havia ali um bocado de terreno e ali é que era o nosso campo de futebol”. Quando o menino tinha dez anos os pais escolheram Azambuja para viver pela proximidade dos caminhos-de-ferro. Havia muitas remessas para despachar para o Porto e para outros locais do país. Produziam e vendiam vassouras de piaçaba e bracejo para quartéis e fábricas. O pai perdeu o braço em pequeno num acidente numa linha de caminho de ferro, mas ajudava no trabalho. Era a mãe quem dirigia o negócio. Não sabia ler nem escrever, mas desenrascava-se. “Uma dúzia custa tanto. Duas dúzias custam tanto e lá fazia as contas”. Percorria o país com amostras para tentar vender o produto e “apanhar as encomendas”. Chegava a estar aos oito dias no Norte. Balneários de madeira e água para o chuveiro fornecida pelos bombeirosJosé Nalha Cruz, foi capitão de equipa do Grupo Desportivo de Azambuja durante 20 anos, nas décadas de 60 e 70. O antigo jogador, homenageado na última gala de aniversário do GDA, ainda é do tempo do antigo campo da bola, para lá da linha de caminho de ferro, perto do restaurante “Gaibéu”.Quando chegou a Azambuja, acabado de sair da Castanheira do Ribatejo, juntou-se a um grupo de miúdos que gostava de bola. “Aqui na vila fazia-se uma grande distinção. O trabalhador do campo não alinhava com o caixeiro”, explica. Alguns rapazes iam para a grade. Fazer o trabalho que faz hoje o tractor. “Eram rapazes pequenos que gradavam a terra com a ajuda de éguas. Corriam descalços por cima dos torrões”, recorda. Quando o Grupo Desportivo de Azambuja cortou o cordão umbilical com o grupo columbófilo, onde nasceu, foi ocupar um primeiro andar da rua principal de Azambuja. “Vínhamos vestidos de lá pela estrada fora até ao campo”, recorda.Só mais tarde se fizeram os marcos no campo. O engenheiro Ortigão Costa cedeu barracas de madeira, semelhantes às que se usam no campo, para improvisar balneários. Os bombeiros asseguravam a água. “A água fria, de Inverno, que às vezes ficava lá oito dias”.Quando os juniores acabaram em Azambuja foi para jogar para o Operário, em Vila Franca de Xira, onde esteve na época 1955/56. “Os jogos acabavam às 10h00 e eu vinha no comboio. Comia uma sandes e bebia uma cerveja. Quando chegava à estação abalava-me a correr para o campo de Azambuja. Para me equipar a malta fazia uma roda”.Ganhava 80 escudos por vitória, mas acabou por saiu. Jogou andebol em Alhandra e em Alverca. “Até à Póvoa não havia ninguém que não conhecesse o Nalha”. Uma vez, num jogo contra o Sporting em Alverca, um desacato afastou-o da modalidade. “Ainda há Apesar da irreverência do capitão de equipa o GDA ganhou, naquela época, a medalha de correcção. “Durante um ano não foi ninguém castigado”.
O presépio ocupava a sala todo o ano porque não havia dinheiro para mobílias

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