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Entrou na política porque se cansou de ficar apenas a ver

Hélder Esménio duplicou votos do PS em Salvaterra de Magos e critica gestão do Bloco de Esquerda

Funcionário da Câmara de Salvaterra de Magos há 27 anos, Hélder Esménio foi convidado pelo PS para ser o candidato à presidência daquele município. Duplicou o número de votos e os socialistas tornaram-se a segunda força política no concelho. Foi filiado no PSD desde a juventude, suspendendo a militância para dar a cara pelo projecto socialista. Não poupa críticas à gestão bloquista e à forma de fazer política da presidente do município.Ana Isabel Borrego/João Calhaz

Edição de 01.09.2010 | Entrevista
Como é que um funcionário da câmara se candidata à presidência desse órgão autárquico por um partido da oposição?Quando concorri à presidência da Câmara de Salvaterra de Magos já era funcionário há 27 anos. Todos estes anos deram-me uma perspectiva muito rigorosa do concelho, em termos económicos, geográficos e humanos. Nesse sentido, senti-me à vontade porque com os conhecimentos adquiridos achei que podia contribuir para ajudar a melhorar a qualidade de vida das populações. Quando me candidatei já sabia muita coisa do concelho, das suas necessidades e das pessoas que estão envolvidas. Sentia-me confortável.Foi convidado?Sim. Ninguém vai a festas sem ser convidado. Fui convidado pelo Partido Socialista (PS) para liderar uma candidatura à Câmara de Salvaterra de Magos.Foi fácil quando anunciou aos seus colegas de profissão que ia ser o candidato socialista?Não é fácil para um colega estabelecer a relação adequada com quem vai ser candidato. Existem inibições próprias das pessoas, porque têm receio de serem vistas a conversar com o seu colega. Esses receios são próprios da condição humana.Nessa altura como ficou a sua relação com a presidente da câmara?Não tínhamos grande relação mesmo antes de anunciar a minha candidatura. Eu integrava a divisão de obras municipais e a minha hierarquia era com o meu chefe de divisão e não com a senhora presidente. Não havia relação, não tivemos que nos incomodar um ao outro directamente e pessoalmente.O facto de ter alguma informação privilegiada enquanto funcionário da autarquia deu-lhe trunfos para a campanha?Os funcionários da câmara não têm informação privilegiada. Tudo o que se passa numa autarquia é do domínio público ou, pelo menos, deve ser assim. Gerimos procedimentos públicos, procedimentos concursais, a concretização de obras, emitimos pareceres que são públicos. Admito, no entanto, a hipótese que a senhora presidente da câmara tenha no seu grupo mais restrito alguma informação privilegiada. Os técnicos que estão na hierarquia mais abaixo não têm acesso a essa informação.Duplicou o número de votos no PS em relação às autárquicas de 2005 passando a ser a segunda força política no concelho. A que se deveu esse aumento?Não devemos ser advogados em causa própria porque podemos parecer imodestos. Acredito que o programa eleitoral que apresentamos teve muito mérito. Tivemos o cuidado de produzir os dois jornais de campanha com as informações mais apelativas. Queríamos que as pessoas votassem em nós pelo mérito das nossas ideias e das nossas equipas e não tanto porque estamos contra as coisas. A conjunção de todos estes factores resultou.Porque é que aceitou entrar na política?Acho que me cansei de ficar apenas a ver. De ver coisas de que não gostava?Obviamente, se gostasse não entrava. Se não concordamos com determinadas situações e o dizemos aos nossos colegas e amigos, se discordamos por não haver uma estratégia em relação à cultura ou ao desporto, por exemplo, temos que fazer algo. Há momentos na vida em que todos temos que tirar consequências e depois chega a altura de dizermos ‘se és capaz de fazer melhor vai à luta’.Não se quis ficar pela conversa de café?Se calhar também foi isso. Aos 50 anos ainda temos um caminho produtivo de 20 anos, mas também já temos um caminho produtivo de 20 ou 30. Estou naquela idade em que já tenho alguma experiência profissional, com muito pouca experiência política desde que sou cidadão activo. Acha que faltou experiência profissional ao seu antecessor como candidato do PS em 2005, Nuno Antão?O partido hesitou entre dois modelos de candidatura e não entre duas pessoas. Hesitou entre um modelo de candidatura com um político já experimentado, com muitos anos de traquejo político, com diferentes experiências ao nível da acção política e entre um cidadão essencialmente com formação técnica que pudesse apresentar uma nova roupagem à candidatura do PS. A sua candidatura afectou a relação com Nuno Antão?Não. Conheço o Nuno Antão desde que estou em Salvaterra de Magos e sempre tivemos uma relação civilizada e madura. O Nuno é autarca, líder do partido na assembleia municipal. Temos reuniões periódicas de preparação das reuniões da assembleia e articulação de posições. Até temos oportunidade de conversar mais vezes.Do PSD para candidato do PSFoi eleito como independente. Nunca foi filiado em nenhum partido?Aos 16 anos filiei-me na Juventude Social Democrata e aos 18 transitei para o PSD e a minha filiação permaneceu ad-eternum. Quando percebi que podia ser convidado pelo PS pedi a suspensão da minha filiação.O PS de Salvaterra encarou bem a situação?Como nunca tive actividade política no concelho era irrelevante se estava ou não inscrito no PSD. Penso que até pode ter sido uma mais-valia do ponto de vista eleitoral uma vez que foi possível construir uma lista com pessoas de todos os quadrantes políticos. Dou-lhe o exemplo da presidente da Junta de Marinhais, Fátima Gregório, que já pertenceu às listas do BE. É a demonstração de que as pessoas não foram escolhidas pela cor política.Também foi convidado pelo PSD?Essa é uma questão irrelevante na medida em que aceitei ser candidato pelo PS.Sentiu-se condicionado durante a campanha?Senti-me condicionado sobretudo por falta de tempo. Os funcionários da câmara estão obrigados a um conjunto de deveres de sigilo e zelo que não devem infringir. Senti-me auto-limitado.De que forma?É complicado fazer campanha só a partir das 17h30 quando os meus adversários estão em campanha há meses e a qualquer hora.O que mudou na sua vida depois de se ter tornado vereador?Acho que mudou muito pouco, tirando alguns nomes que me chamaram mas também alguns elogios que me fizeram pela coragem e determinação de ter avançado com a candidatura. Do ponto de vista pessoal não mudou nada. Recebo o mesmo ordenado, tenho a mesma família e os mesmos amigos.A presidente por vezes é dura com a oposição, e particularmente consigo.A actual presidente da câmara cresceu na política na altura do 25 de Abril e do PREC (Processo Revolucionário em Curso), sempre em confronto, onde a máxima existente era de que não nos afirmamos pelo mérito, mas sim pelo demérito dos outros. A dureza é uma estratégia, um marketing político.Porque é que a presidente é particularmente dura consigo?Os adversários de estimação da senhora presidente da câmara são sempre aqueles que estão em melhor posição para disputar o lugar que ela ocupa. Não vou cair na ratoeira de ser deselegante, não especificamente com a senhora que ocupa o lugar, mas com o próprio lugar. Se destratamos o órgão câmara municipal e se destratamos a função presidente do município como é que os cidadãos hão-de ter respeito por nós. É essa elegância que quero ver sempre assumida no debate.“Não era sensato ser vereador da oposição e funcionário da autarquia”Em Dezembro de 2009 transferiu-se para o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Quem lidera a câmara achava que era importante que não permanecesse na autarquia. Na reflexão que fiz ponderei que não era sensato ser vereador da oposição e funcionário do mesmo organismo.Eram cargos incompatíveis?Quinzenalmente, às quartas-feiras, pelas 14h00, saía do meu gabinete de trabalho para, meia hora mais tarde, criticar ou sugerir situações nas reuniões de câmara. E tinha que ouvir, como aconteceu diversas vezes, ‘o senhor esteve aqui na hora de serviço a preparar as reuniões’, como argumento político da senhora presidente.Mas tinha direito a fazê-lo.A lei é bem clara. Diz que os vereadores têm 32 horas mensais para desenvolver a sua actividade política. E eu nem utilizava esse número de horas. Era bem mais restritivo. Só usava os minutos em que saía à terça-feira à tarde para ver os documentos e à quarta-feira à tarde para participar na reunião. Mesmo assim era atacado.Como reagiu a essas acusações?Preferi não responder porque não quero entrar nessa linha. Se o fizer estou a entrar no jogo do BE, que é o do confronto e da agressividade. Por aí vai ser muito difícil apanharem-me. O pedido de mobilidade para o IEFP foi sua iniciativa?Fui eu que pedi ao IEFP se aceitavam este período de mobilidade por um ano. Para poder entrar tinha que existir um acordo tripartido entre câmara, entidade empregadora e eu próprio. Como todos estavam de acordo avançou-se com o processo que vai cessar no final de Novembro.Foi a melhor solução?Quando coloquei a possibilidade de ir para a administração central percebi que, sendo o Governo do PS e conhecendo o tipo de acção política praticada por determinados agentes que integram o BE, isso ia ser imediatamente utilizado para o combate político. Apesar de as pessoas acharem que era ético e correcto sair da câmara, isso ia ser aproveitado politicamente. Por isso optei - mesmo com danos pessoais e também para a candidatura - por me manter na câmara, ter um mês de férias e os dias que a lei permite de campanha eleitoral. Pelas declarações já proferidas pela presidente da câmara, ela não vai querer que volte.Ela não pode não querer porque é de lei. A mobilidade é por um ano e o regresso é automático. Vai voltar a uma situação de desconforto.Houve uma determinada altura em que, durante as reuniões do executivo, e também na blogosfera, eu era criticado por estar a trabalhar no Instituto de Emprego. A blogosfera ‘probloquista’ tratou de inventar situações, ser desagradável. Primeiro criticam porque sou vereador e funcionário da autarquia e depois criticam-me por estar no IEFP. Seguindo esta linha de raciocínio regresso, uma vez que assim deixa de haver razão para criticas. Se nada mudar até ao dia da decisão estou disponível e tenho vontade de regressar à câmara municipal.A presidente vai ter que dizer claramente que não o quer a trabalhar na autarquia.Ou as entidades que se entenderam da primeira vez chegam a um consenso e renovam a mobilidade por um ano ou o funcionário Hélder Esménio volta à câmara.Que funções desempenha no IEFP?Estou ligado aos programas de estágios profissionais e ao programa Inov.Como se sente a exercer um cargo diferente?Estou sempre disponível para novos desafios, como se vê pela actividade política, e não me custa nada desenvolver actividade profissional diversa. Não queria ir para um tacho. Saí com o mesmo vencimento. Um alfacinha com raízes em OurémNasceu em Lisboa mas é filho de pessoas oriundas do concelho de Ourém. Os meus pais são de Ourém, a minha mulher e a família dela também e nós acabámos por vir parar também ao Ribatejo.Ourém ainda é Ribatejo?Não sei se Ourém sente que é Ribatejo mas é um concelho pelo qual tenho imensa estima e consideração. Aprecio imenso as pessoas de Ourém e do concelho. Aprecio o modo simples de viver de não sei quantas aldeias e vilas, como Freixianda, que é a zona que conheço melhor, Mata do Fárrio, Fárrio. É uma zona um bocado envelhecida, mas Ourém teve um grande desenvolvimento.Acompanha o que lá vai acontecendo?Em termos políticos não. Mas congratulo-me com a entrada do novo presidente. Até porque o Paulo Fonseca foi uma das pessoas que esteve na apresentação da minha candidatura aqui em Salvaterra. Vou a Ourém muitas vezes. Em média uma vez por mês.Que diferenças encontra entre essa zona mais a norte e o sul do distrito?Todos se têm desenvolvido, mas uns desenvolvem-se mais rapidamente que outros. E Ourém tem-se desenvolvido mais rapidamente, tal como Benavente ou Cartaxo, do que Salvaterra de Magos ou Coruche. Coruche está agora numa fase de maior desenvolvimento.Costuma ir a Fátima?Muito raramente. Fui lá duas ou três vezes.É crente?Não. Qual é o seu lema de vida?Não tenho lema de vida mas tenho alguns padrões de comportamento. Como não fazer aos outros aquilo que não gosto que me façam. Prefiro fazer com as pessoas, trabalhar em equipa. Prefiro a liderança à chefia. Tenho aí algumas distâncias em relação ao modelo de gestão que a câmara tem. O que não critico. É uma opção.Um livro que o tenha marcado?Quando era jovem, um dos livros que me marcou foi “Os Maias”, de Eça de Queiroz. Aborda tudo, desde a sociedade à igreja e à política. É um livro extraordinário. Agora, com o pouco tempo que vou tendo, vou lendo. Actualmente estou a ler um livro de Miguel Sousa Tavares, o “Rio das Flores”.E um filme?Quando era jovem via muito Woody Allen, Bergman. Agora, como tenho muito menos tempo e procuro também no cinema alguma diversão, gosto muito de filmes de humor ou de acção. Gostei do “Kramer contra Kramer”, do “Era uma Vez na América”, entre outros. Mas gosto essencialmente de actores e de realizadores. Como Roberto de Niro, Bruce Willis ou Al Pacino.Liga ao futebol?Ligo ao desporto. Sou benfiquista mas raramente vou ao estádio. Vou uma vez por ano. Acho que o desporto é importante para os jovens. Os meus filhos praticaram todos desporto e um ainda pratica. Aprendem-se regras, tem de se trabalhar em equipa.Que faz nos tempos livres?Essencialmente cinema, leitura, convívio com os amigos. E a actividade política é também um hobby, porque temos de preparar reuniões, alimentar blogues e isso não cabe nas tais 30 horas mensais que são dadas para actividade autárquica. “Populismo exacerbado do BE limita estratégia de desenvolvimento”Salvaterra de Magos tem evoluído?Sim, o problema é o ritmo a que evoluiu. Não há uma estratégia de desenvolvimento, não existe um rumo. Existe uma espécie de governação à vista e um populismo exacerbado do BE que acaba por limitar tudo o que pode ser estratégia de desenvolvimento.Qual é o seu modo de estar na política?Tentar sempre estar disponível para fazer mais somando ao que existe e sem esquecer que outros antes de mim já fizeram algo. Eu não vivo de mal com o passado, ao contrário da senhora presidente da câmara que procura sempre destruir tudo o que está antes da sua entrada para a gestão da câmara. Há uma ditadura da maioria?Há uma ditadura da maioria mas, acima de tudo, assumida por um determinado estilo de liderança.Vai voltar a candidatar-se à presidência da câmara em 2013?Ninguém consegue projectar a política a três anos de distância. Neste momento, assumi o compromisso, perante a população que me elegeu, de desempenhar o melhor possível a função para a qual fui eleito. Quero ser avaliado pelo conjunto de intervenções que faço na câmara. Tenho um outro compromisso que é o da informação que desenvolvo através do blog Fazer por Salvaterra, onde mantemos a população informada sobre os acontecimentos no concelho.Diz que o concelho não é atractivo para os empresários investirem. Porquê?O concelho não tem áreas industriais para as empresas se poderem instalar. Além disso, o IMI, Derrama e a aplicação de taxas são mais penalizantes que nos concelhos à nossa volta. Num concelho onde não existe um serviço municipal de apoio à actividade económica nem infra-estruturas, não temos forma de captar empresários porque não conseguimos concorrer com os concelhos vizinhos.Quais são as consequências dessa situação?As consequências estão à vista. Somos dos 20 piores concelhos do país em taxa de desemprego. Salvaterra de Magos tem um poder de compra muito baixo, cerca de dois terços do poder de compra de Benavente, por exemplo. Isto acontece porque não existe o tal pensamento estratégico para o desenvolvimento do concelho.

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