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Jovens estrangeiros passam férias a trabalhar em Constância

Jovens estrangeiros passam férias a trabalhar em Constância

Campo de trabalho internacional promove cooperação com a população do concelho

Asiáticos, europeus, sul-americanos e portugueses juntaram-se no campo internacional de voluntários de todo o mundo, para colaborar no desenvolvimento comunitário e social do concelho. Entre os dias 18 e 31 de Agosto, 25 jovens prepararam diversas iniciativas de sensibilização para a luta contra a pobreza e exclusão social e até ajudaram a preparar a festa do pequeno lugar da Pereira.

Edição de 01.09.2010 | Sociedade
Entre 18 e 31 de Agosto ouviu-se falar coreano, turco e outras línguas estranhas em Constância. As ruas da vila encheram-se de jovens provenientes de diversos países, que participaram no campo de trabalho internacional que se realizou no concelho. A iniciativa foi promovida pela associação Quatro Cantos do Cisne, uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) sedeada no lugar de Pereira, na freguesia de Santa Margarida da Coutada, cujas valências se centram no desenvolvimento social e comunitário. Ivan Savchenko, de 20 anos, refere que o cativou para se juntar a esta experiência foi “a oportunidade de conhecer outra cultura, mas não como alguém que olha do lado de fora”. O russo sublinha que o que marcou a diferença foi o facto de não ser um turista em Portugal, mas ter a oportunidade de trabalhar em conjunto com a comunidade. “Cativou-me especialmente o facto desta experiência não ser nas principais cidades e ser feita no campo, numa pequena aldeia. Acho que isso é que torna esta experiência riquíssima. Constância é lindíssima, ainda com imensos espaços verdes, sem prédios, com ruas empedradas. É óptimo que ainda haja sítios assim”, diz animado.Vinte e cinco jovens voluntários de todo o mundo empenharam-se na recuperação de infra-estruturas do concelho e na preparação de uma campanha de sensibilização sob o lema da luta contra a pobreza e exclusão social. Ao todo cinco portugueses e 20 estrangeiros, provenientes dos quatro cantos do mundo, como Coreia do Sul, Uruguai, Eslováquia, Rússia, Turquia, República Checa, Itália, Espanha e Polónia.Apesar das diferenças culturais, há quem quase se sinta em casa. “É uma cultura diferente mas as pessoas na rua parecem-se muito com as turcas por isso sinto-me em casa”, diz Didem Yapici, de 22 anos. “Mesmo as casas e a aldeia fazem-me lembrar a Turquia em muitos aspectos”, sublinha.Na loja social, em Constância, a azáfama é grande e ninguém fica parado. Todos têm uma função atribuída e desempenham-na com afinco e dedicação. A tarefa desse dia (24 de Agosto) é preparar o espaço pertencente à Santa Casa da Misericórdia para servir de centro social na ajuda às famílias mais carenciadas da região. “A loja social é um espaço que irá servir essas famílias, que poderão vir até aqui e recolher gratuitamente todo o tipo de roupas, calçado e até alguns alimentos”, explica Teresa Flor, directora de serviços da Santa Casa da Misericórdia de Constância, acrescentando que o trabalho destes jovens é “uma mais-valia”.Apesar dos obstáculos linguísticos a coordenação é grande e em poucos minutos o grupo distribui-se. Uns varrem o espaço, retirando o lixo e os materiais degradados, enquanto outros separam as roupas que vão chegando à Santa Casa em enormes pilhas, de acordo com as características: roupas de criança, de Inverno, Verão, calçado. Há depois os que lavam a roupa e os que a passam a ferro.Cooperação com a populaçãoOs jovens que participaram neste projecto são angariados através de um serviço de voluntariado europeu, que funciona na base do intercâmbio e que é co-financiado pelo IPJ (Instituto Português da Juventude). Constância recebeu um grupo de voluntários que participa nas actividades da comunidade e, em contrapartida, um grupo de jovens voluntários do concelho tem a oportunidade de executar trabalho voluntário num outro país europeu.“O objectivo é provocar uma certa dinâmica social com outras culturas e formas de ver e de estar no mundo. Este evento tem tido um impacto enorme na população de Constância e a receptividade tem sido extraordinária. Este grupo coopera com os habitantes em várias actividades e acaba por se inserir na comunidade. Essa é que é a riqueza. Essa partilha de experiências” sublinha Daniel Martins.Os jovens que participam neste projecto são angariados através de um serviço de voluntariado europeu, que funciona na base do intercâmbio e que é co-financiado pelo IPJ (Instituto Português da Juventude). Constância recebe um grupo de voluntários que participa nas actividades da comunidade e, em contrapartida, um grupo de jovens voluntários do concelho tem a oportunidade de executar trabalho voluntário num outro país europeu.A experiência do campo internacional prolongou-se até final de Agosto, com a participação dos jovens estrangeiros na Festa Rural 2010, a festa anual da aldeia da Pereira, entre os dias 27 e 29 de Agosto, com destaque para a música e as tradições da região. As diferenças que os unemNum grupo com uma grande diversidade cultural e que engloba asiáticos, europeus e sul-americanos surgem por vezes grandes diferenças no modo de encarar as tarefas e no modo de ver o mundo. “Há muitos choques culturais. Coisas que para nós são óbvias e que para certas culturas não são, como a questão dos horários. Muitos deles acham completamente absurdo o português chegar atrasado aos compromissos, o que todos os latinos acham uma coisa normalíssima. Há culturas que não compreendem essa postura e por vezes até se cria algum atrito”, lembra Daniel Martins, presidente da Associação Quatro Cantos do Mundo.A associação promove a ideia da educação não formal, ou seja, do “aprender fazendo” e da partilha dos valores. “Para nós não nos interessa eles chegarem aqui e construírem a loja social. O que nos interessa é que eles saibam porque é que a loja existe, qual a função e o papel que desempenha nesta comunidade e interagirem com os locais. E falamos não só dos estrangeiros mas também dos portugueses”, aponta Daniel Martins.O primeiro campo de trabalho internacional foi em 2009, e tinha como missão a total recuperação da localidade da Pereira, uma aldeia com uma população de cerca de trinta habitantes. A iniciativa pretendia combater a desertificação e o isolamento da localidade e a preservação das tradições e da ruralidade. “Foi uma experiência formidável porque o grupo de trabalho participou activamente com a população na recuperação de várias estruturas rurais como as noras, a fonte, os lavadouros, e até criámos um forno comunitário”, diz o responsável da associação com orgulho. As ideologias e conceitos sobre exclusão social, discriminação e pobreza também variam de país para país e geram opiniões diferentes e estratégias diferentes. “Todos temos ideias diferentes sobre esses conceitos. Estamos de momento a preparar uma peça de teatro sobre esses temas e reparei que apesar de pensarmos nestes conceitos como óbvios, a verdade é que variam muito de cultura para cultura e têm gerado discussões muito interessantes no grupo e que nos obrigam a repensar nos conceitos e a respeitar outros pontos de vista”, sublinha a espanhola Maria José Gómez, de Huelva.A comida típica da região também tem gerado comentários e episódios engraçados como sucedeu no jantar em que a ementa foi arroz de pato com chouriço. “A comida às vezes é um problema porque como somos muçulmanas não comemos porco. Quando estávamos a jantar não sabíamos que aqueles pedaços de chouriço eram de porco e íamos comê-los, mas felizmente um colega chamou-nos à atenção”, lembra com um sorriso, agradecendo o facto de a associação agora se preocupar em cozinhar refeições diferentes para os turcos, tendo em conta as suas crenças religiosas.Os jovens estrangeiros apreciam bastante a gastronomia portuguesa e na sua maioria estavam dispostos a experimentar de peito aberto todas as iguarias que Constância lhes oferece, muito embora haja quem torça um pouco o nariz. “A comida aqui é muito diferente. A comida coreana é por norma muito mais picante e acho que a comida portuguesa é um bocadinho oleosa. Mas estou aberto a novas experiências e a experimentar tudo”, diz sorridente Dong Jin Choi, da Coreia do Sul, enquanto vai perguntando aos responsáveis o que era o almoço.
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