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Transferência inevitável de farmácias acentua ainda mais o abandono das aldeias

Transferência inevitável de farmácias acentua ainda mais o abandono das aldeias

Farmacêuticos apontam o exemplo do Estado que encerra cada vez mais extensões de saúde

As populações das aldeias estão cada vez mais isoladas. Fecham extensões de saúde e escolas, deixa de haver transportes públicos e as farmácias também procuram os grandes centros aproveitando a alteração à lei que agora permite a sua transferência. É a agonia total atenuada apenas por serviços criados por algumas juntas de freguesia.

Edição de 01.09.2010 | Sociedade
Noémia Alcobia tem 52 anos e é doente crónica. Todas as semanas a habitante da freguesia da Raposa, concelho de Almeirim, necessita aviar uma ou duas receitas médicas. A farmácia mais próxima está a 14 quilómetros, na sede do concelho, e a doente não tem transporte próprio. O que lhe vale é a Junta de Freguesia que presta apoio a pessoas com problemas de mobilidade como ela.O serviço da autarquia foi implementado há cerca de doze anos para colmatar o isolamento da povoação. “Temos o posto clínico aqui perto. A funcionária do posto vem até à junta trazer o receituário, nós tomamos nota de tudo, e depois o estafeta leva à farmácia em Almeirim. Avia a receita, põe tudo num saco fechado e à tarde os utentes já podem vir buscar os medicamentos”, explica Andreia Cruz, funcionária da junta de freguesia da Raposa.Para quem não tem carro, os problemas de mobilidade são evidentes. “Os transportes públicos são raros. Em tempo de aulas há um autocarro às 7h30 e outro às 11h00. E para o regresso há um às 15h00 e outro às 18h00. Mas em tempo de férias só há um autocarro de manhã e um à tarde”, sublinha a mesma fonte. Para Noémia Alcobia e para muitas outras pessoas como ela o serviço é imprescindível. “Utilizo este serviço desde que começou. Muitas das receitas se não fosse este serviço não as poderia aviar. São, sem dúvida, os meus anjos da guarda”, refere.Como a Junta da Raposa há outras, principalmente em meios rurais que prestam apoio idêntico. Infelizmente nem todas o podem fazer e o isolamento dos cidadãos chega a ser dramático. Também há algumas farmácias que têm serviços de entrega, mas são raras e isso encarece os medicamentos. Tal como na Raposa, os transportes públicos na região são praticamente inexistentes e completamente inexistentes durante os fins-de-semana. “Se numa terra deixa de haver médico o que fica lá a farmácia a fazer?” Em 2007 foi aprovada uma portaria que veio liberalizar a abertura e a transferência de farmácias. Anteriormente a esta data, para se efectuar uma mudança de farmácia para outra localidade era necessária uma autorização, que só era dada depois de um parecer de uma comissão de avaliação, constituída por três membros: dois nomeados pelo Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde) e um pela Ordem dos Farmacêuticos. Hoje em dia, a única exigência é que a transferência só ocorra dois anos após a abertura. A situação fez com que muitas farmácias se transferissem de pequenas aldeias para vilas ou cidades onde há mais clientes. Foi o que sucedeu com a farmácia Correia de Oliveira em Ulme, concelho da Chamusca. A 13 de Abril de 2009 transferiu-se para a cidade de Almeirim. Os habitantes de Ulme passaram a recorrer às farmácias de Semideiro e Chouto. Felizmente para eles as mesmas têm serviço de entrega de medicamentos ao domicílio. Pedro Correia de Oliveira, proprietário das três farmácias, afirma que tenta minimizar a situação dos utentes das zonas rurais com aquele sistema de entrega mas chama a atenção para o facto de não ser responsável pelo abandono das aldeias. “A deslocação de serviços para os grandes centros urbanos não começou com as farmácias. Serviços de saúde, correios, postos de pagamento de água e electricidade, escolas…qual é a lógica de ter uma farmácia no Chouto ou no Semideiro se não houver lá médico? Se as pessoas têm que se deslocar para ir ao médico é normal que prefiram aviar as receitas no local da consulta.”, afirma, numa alusão ao facto de as extensões de saúde daqueles locais estarem a funcionar sem médicos. A Ordem dos Farmacêuticos considera a lei da transferência das farmácias desajustada dos interesses das populações e defende que a mudança de local deve passar pela autorização das autarquias. A Associação Nacional de Municípios Portugueses recusa essa responsabilidade. Alguns autarcas das freguesias rurais dizem que gostariam de ter uma palavra a dizer nesta matéria, como é o caso de José Ferreira, presidente da junta de freguesia da Concavada, concelho de Abrantes, mas reconhecem que pouco podem fazer quando é o próprio Estado que começa por fechar extensões de saúde e outros serviços essenciais.“Nós devíamos ter sempre uma palavra a dizer mas como as farmácias são propriedade privada como é que as autarquias as podem obrigar a ficar num determinado local? Os proprietários querem ter lucro e eu compreendo. Se o Estado, que deveria ter em atenção os interesses das populações, as abandona por questões económicas porque é que as farmácias não podem fazer o mesmo?”, interroga o autarca.A farmácia mais próxima da Concavada fica a três quilómetros, em Alvega, mas os proprietários já pediram a transferência do estabelecimento para Abrantes que fica a trinta. “O Estado devia pôr os olhos nestas situações porque isto são bens que se tiram às pessoas e que contribuem para isolamento desta povoação. Com o encerramento de farmácias, centros de saúde e escolas, as pessoas não sentem atractivos para ficar aqui a residir. Se a pessoa tem os serviços todos em Abrantes e trabalha lá, não vai estar a fazer trinta quilómetros todos os dias só para viver na Concavada”, aponta com tristeza José Ferreira, acrescentando que muitas vezes é a própria junta a providenciar formas que permitam à população deslocar-se até à farmácia mais próxima e adquirir os respectivos medicamentos ou outros serviços.
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