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Luís Costa

Luís Costa

Empresário, 63 anos, Santarém

Depois de 37 anos a trabalhar como bate-chapas, Luís Costa decidiu lançar-se no negócio da restauração. É casado, tem dois filhos e é o rosto do restaurante “Aromatejo”, em Santarém. Apesar de ser gestor da casa não hesita, quando é preciso, em efectuar tarefas tão simples como cortar a relva ou lavar a loiça. Nos tempos livres foge para o oeste. A zona das Caldas da Rainha é refúgio do escabalitano.

Edição de 01.09.2010 | Três Dimensões
Nasci em casa no local onde tenho hoje o restaurante. Santarém, freguesia de Marvila. O meu pai era bate-chapas. A minha mãe doméstica. Andei a estudar, mas fiquei pelo caminho como grande parte dos jovens. Mais tarde é que se reconhece o erro. Frequentei o curso industrial que era de três anos e quase concluí o primeiro. Não gostava muito de estudar. Plantei a laranjeira do pátio quando tinha 14 anos. A casa onde nasci era alugada. Aqui existiam cinco habitações. Comprei isto mais tarde. Estava tudo em ruínas. Havia uma lixeira. Eu transformei o espaço. Fui bate-chapas durante 37 anos. Em Santarém e fora da cidade. Como a minha mulher era cozinheira e bastante solicitada começámos a fazer serviços em part-time. Há trinta e tal anos que fazemos casamentos. Durante a semana trabalhava na oficina. No fim do dia de sexta-feira preparava-me para trabalhar fora. Cheguei a fazer directas de sexta para sábado. A minha mulher fazia a doçaria e eu cozinhava. Tinha muita aptidão para isso. Só que depois tornou-se insustentável conciliar as duas coisas. Tivemos que tomar uma decisão.Sempre gostei de cozinhar. Regra geral os homens têm melhor paladar. Há grandes profissionais, não desfazendo de algumas cozinheiras. Quando abri o restaurante tive que afastar-me da cozinha. Quando é preciso dou uma mãozinha, mas tenho outras coisas a fazer. Fomos atrás de um sonho. Aproveitámos uma oportunidade que aqui apareceu de repente. Andámos uma vida inteira a tentar amealhar para fazer uma vivenda e aqui enterrámos uma vida inteira de trabalho. Hoje talvez esteja um pouco arrependido. Santarém é melhor madrasta que mãe. Oiço isto desde pequeno. Não fui eu que inventei, já se dizia. As dificuldades são muitas e, como se não bastasse, estamos em Santarém. Levanto-me todos os dias cedo. Vou ao mercado escolher os produtos mais frescos. Depois vou fazer as compras mais diversas. Às 10h00 já aqui estou. Há dias mais longos que outros. O domingo passado saí daqui às três da manhã. Tivemos um casamento. Já temos feito directas. Presentemente além de mim e da minha mulher, agora um pouco afastada devido a problemas de saúde, somos três a trabalhar. Lavo a loiça quando é preciso. Sou gestor, mas ajudo noutras áreas. Corto a relva, preparo a contabilidade, faço as compras, planeamento, tomo conta das ementas e, quando há casamentos para fora, faço as listas para levar tudo para fora. E alguma limpeza também quando é necessário.Quando posso fujo. Dantes era para ir à pesca. Agora raramente. Quando temos uma casa como esta temos que abdicar de muitas coisas. Essa foi uma delas. Nas férias gosto de ver o mar. A praia para mim não é estar na areia. Damos uma volta aqui e ali. Descansar. É o que normalmente faço quando consigo fugir do trabalho. A casa fecha à segunda e à terça-feira. Há sempre coisas para fazer, mas ultimamente tenho conseguido ausentar-me de Santarém. Vou para a zona das Caldas da Rainha. Tenho lá uma casa fresquinha. Dormimos umas sestas. Temos lá umas árvores de fruto e oliveiras e entretemo-nos por lá. As férias fazem muita falta, mas nunca estamos descansados a 100 por cento. Há sempre preocupações. Com os fogos, por exemplo. Tudo na vida tem um preço. É uma frase que repito muitas vezes. Este talvez seja o preço que estou a pagar por isto. Esta actividade é uma prisão. Ninguém quer trabalhar nisto. Então aos fins-de-semana pior ainda. Coloquei agora um anúncio a pedir pessoal. As pessoas hoje em dia têm uma mentalidade diferente. Não se preocupam em escolher um trabalho e depois no fim de o conseguir ir à procura de outro melhor. Querem logo que apareça tudo. É um dos grandes problemas do povo português. E depois, para a grande maioria dos trabalhadores, quanto menos melhor. A nossa produtividade, relativamente aos outros países, é muito inferior. Isso diz tudo. Ana Santiago
Luís Costa

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