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Faleceu o antigo futebolista e seleccionador nacional de futebol José Torres

Faleceu o antigo futebolista e seleccionador nacional de futebol José Torres

O MIRANTE recupera parte da entrevista ao “Bom Gigante” de Torres Novas publicada na edição de 16 de Julho de 1999

Nasceu em Torres Novas em 8 de Setembro de 1938, e faleceu no dia 3 de Setembro de 2010. Filho e sobrinho de jogador de futebol, acabou ele próprio por seguir esse caminho. Chamava-se José Torres e jogou no Torres Novas, no Benfica, no Vitória de Setúbal e no Estoril Praia. Foi treinador do Estrela da Amadora, do Varzim, do Boavista, do Portimonense, do Beja, do Vila Real, do Vitória de Setúbal e do Estoril Praia. Foi seleccionador nacional entre 1984 e 1986. Vencedor de 3 Taças de Portugal e de 9 Campeonatos Nacionais, actuou em 33 jogos da selecção nacional e em 57 jogos das provas da UEFA. Foi 3 vezes finalista da Taça dos Campeões mas não venceu nenhuma delas.

Edição de 08.09.2010 | Desporto
Como é que o futebol surgiu na sua vida?O meu tio, Carlos Torres, foi jogador do Torres Novas e do Benfica tendo sido campeão em 1936. O meu pai, Francisco Torres, jogou no Carcavelinhos e só não foi para o Benfica com o meu tio porque tinha já um pequeno negócio de peixe em Torres Novas. Quer dizer que tudo foi fácil para si?Não, pelo contrário. O meu pai não queria que eu jogasse porque me achava muito fraquinho e tinha medo que eu ficasse tuberculoso. Foi preciso o senhor Henrique, encarregado da Oficina dos Claras, vir falar com o meu pai mas só fui com uma condição que era fazer um completo exame médico.Antes de ser futebolista foi serralheiro...Fui aprendiz de serralheiro mecânico entre 1953 e 1959. Curiosamente para a Segurança Social eu não existo como jogador de futebol: só lá aparecem os descontos da Oficina dos Claras. Soube isso agora quando quis meter os papéis para a reforma. De todos os descontos que fiz no Benfica, no Setúbal e no Estoril nada entrou na Segurança Social. A MAIOR MÁGOA FOI NÃO TER SIDO CAMPEÃO EUROPEU Quantos campeonatos ganhou no Benfica?Nove campeonatos nacionais: 1960, 1961, 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969 e 1971. Taças de Portugal foram três: 1964, 1969 e 1970. Ganhei a Bola de Prata em 1963. Foi difícil a sua afirmação no Benfica quando veio do Torres Novas?Não se esqueça que havia o Águas. Precisei de marcar muitos golos nos jogos das Reservas. Marquei 280 golos em 7 anos de actividade, uma média de 40 golos por época. Tornei-me titular depois de um Benfica-Alhandra, disputado em Alhandra: ganhámos por 12-0 e eu marquei 10 golos. Fernando Riera falou comigo e passei à primeira categoria. Em termos internacionais qual foi o ponto alto?Foi o terceiro lugar no Mundial de 1966. Ao todo fiz 33 jogos na selecção nacional e marquei 14 golos. Fiz o primeiro jogo em 1963 contra a Bulgária e o último em 1973 também contra a Bulgária. Nas provas da UEFA fiz ao todo 57 jogos e 29 golos.E qual foi a maior mágoa?Não ter sido campeão europeu. Tudo por causa de regulamentos sem pés nem cabeça. Por exemplo na final da Taça dos Campeões entre o Benfica e o Real Madrid o Cavém lesionou-se e eu não pude entrar porque era proibido. Depois perdi as outras três finais...Como treinador qual foi o seu percurso?Comecei no Vitória de Setúbal, passei pelo Estoril Praia, Estrela da Amadora, Varzim, Boavista, Portimonense, Beja e Vila Real. Sem esquecer dois anos na Federação como seleccionador. “O MEU MAIOR ERRO FOI NÃO TER EXIGIDO QUE TUDO FICASSE ESCRITO”O caso Saltillo poderia ter sido evitado?O meu maior erro foi não ter exigido que tudo ficasse escrito. Acreditei no que me disseram mas não ficou preto no branco. Confiei nas pessoas. Depois no México o presidente não estava presente e o Amândio de Carvalho dizia que não tinha autonomia. A verdade é que nunca mais estivemos num Mundial. Parece uma maldição.Como é que foi a sua saída do Futebol?Quando deixei o futebol desempenhava as funções de presidente-adjunto do Imortal de Albufeira. Ficava num hotel, representava o presidente Fernando Barata em tudo o que fosse preciso e vinha a casa nos fins-de-semana mas tenho o joelho esquerdo numa desgraça e não posso abusar dele. Fui operado cinco vezes, tenho que usar uma joelheira, ando a fazer fisioterapia no Benfica. Saí do Imortal por causa das longas viagens ao Algarve.A classe dos treinadores é unida?Penso que está um bocado dividida até porque hoje em dia há muito desemprego. Nunca mais houve os célebres almoços de confraternização em Vila do Conde como no tempo do Pedroto. A vida de treinador está cada vez mais difícil. Quais foram os treinadores que mais o marcaram?Tive muitos e bons treinadores. Bela Guttmann, Fernando Riera, Lajos Czeizler, Elek Schwartz, Otto Glória, Jimmy Hagan e Pedroto. Fernando Riera foi um homem de grande cultura, falava de olhos nos olhos, dizia sempre a verdade. Bela Guttmann era muito astuto. Aprendi com todos. Fez muitas viagens graças ao Futebol?Pode dizer-se que fiz a volta ao Mundo. O país que para sempre ficou gravado no meu coração foi o Japão. Pela simpatia das pessoas e pelas coisas espantosas que lá vi. Nunca apanhou um grande susto?Uma vez em Luanda de regresso a Lisboa reparei que um dos motores não estava bem. O meu ouvido de serralheiro a funcionar... Andámos duas horas a sobrevoar Luanda até gastar o combustível. O Ângelo apanhou um susto tal que veio de cadeira de rodas. Mas também viajei com o Torres Novas...BATATAS COZIDAS COM FEIJÃO VERDEEram viagens diferentes das do Benfica...Mas também tinham a sua piada. Uma vez fomos a Badajoz para disputar uma Taça monumental e deram-nos como pensão um quartel abandonado com sacos de palha em vez de colchões. Mudámos para um asilo onde os velhos só tossiam e depois, no jogo, foi o bom e o bonito. Ganhámos por 4-1 mas o árbitro prolongou o jogo à espera do empate. Mas, perante o escândalo, o alcaide da terra entrou no campo e mandou parar aquilo. A Taça era pequena e em Torres Novas só nos davam quinze escudos por ela. A organização apenas nos deu batatas cozidas com feijão verde; o atum comprámos nós mas mesmo assim foi divertido. A Banda de Riachos tocou durante a nossa viagem.Vai com frequência a Torres Novas?Vou menos do que gostaria mas estou um bocado preso aos pombos e à fisioterapia. A minha irmã vive fora do centro da cidade, na Ilha Seca. Ia mais vezes quando tinha os meus pais vivos. Mas tenho muitas saudades da rapaziada da Oficina dos Claras.Ganhou muito dinheiro no Futebol?Joguei no Benfica durante doze épocas e nunca tive um ordenado maior que 4 mil escudos. Recebia luvas mas nunca nada de especial. Por exemplo nos primeiros cinco anos de Benfica recebi 75 contos de luvas enquanto jogadores como Serafim e Yaúca faziam contratos milionários. Mesmo em 1966 combinei com o Eusébio ajudá-lo a marcar golos para receber o prémio do melhor marcador do Mundial e só recebi 5 contos.
Faleceu o antigo futebolista e seleccionador nacional de futebol José Torres

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