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Fanáticos dos jogos virtuais enfrentaram-se em Abrantes

Fanáticos dos jogos virtuais enfrentaram-se em Abrantes

Alguns dos participantes reconhecem que perdem a noção do tempo quando estão ao computador

São na maioria adolescentes que passam grande parte dos dias agarrados ao computador, a jogar em rede na Internet com adversários que muitas vezes só conhecem virtualmente. Uma realidade emergente que O MIRANTE foi tentar perceber.Cláudia Gameiro

Edição de 08.09.2010 | Sociedade
Reconhecem-se “viciados” e não têm vergonha de admiti-lo. Muitos já perderam anos na escola e confessam que passam a maior parte do dia em frente ao computador, jogando em rede. Solidão? Nem por isso. “Fazem-se muito amigos através dos jogos em rede”, afirmam. Porém, notam, fora do ambiente do quarto e longe dos colegas virtuais não têm grande tema de conversa. Entre quinta-feira e domingo, Abrançalha de Baixo, Abrantes, recebeu a quarta edição do LANfestival, que contou com a participação de alguns dos melhores clãs nacionais dos jogos em rede.Ricardo Jesus, 20 anos, a viver em Abrantes, anda no 12º ano no curso profissional de Programação. É dos mais velhos entre os que o rodeiam, numa LANparty que contou com jovens de idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos. Longe vão os tempos, afirma, em que jogava 20 horas por dia e dormia as quatro horas restantes. “Uma pessoa vai crescendo e ganha mais cabeça”, comenta.Natural da África do Sul, mudou-se há nove anos para Portugal. Desde sempre interessado por computadores, há cerca de cinco anos os pais compraram-lhe o primeiro e foi investigando pela internet os jogos em rede. “Fui jogando, fui evoluindo e comprei outros jogos”.Actualmente joga cerca de oito horas por dia, mas há cerca de dois anos a sua rotina era totalmente dedicada ao jogo. “Cheguei a faltar a aulas, perdi um ano por causa disso”. Hoje lamenta o exagero e o ter deixado de lado outras actividades, como o atletismo. “O director da escola foi falar com a minha mãe. Arrependi-me, perdi amigos e decidi ir para um curso profissional para ao menos ter um emprego”.Ricardo Jesus lembra ainda que há cerca de três anos chegou a ter uma oferta para se tornar jogador profissional. O salário seria entre 300 a 400 euros mensais, incluindo despesas de deslocação e inscrição nos torneios. Não aceitou e hoje refere que tornaria a recusar. “Isto não é vida para ninguém. Só se conhecer a pessoa que o quer patrocinar, se tiver talento para o jogo e não tem mais nada para fazer”.Por outro lado, Ricardo Jesus nota que fez muitos amigos através dos jogos em rede. E, ao contrário de muitos dos seus colegas, o objectivo no fim-de-semana era deixar o recinto do LANfestival e sair nas horas em que não estivesse a jogar. Não estava interessado em assistir aos concertos ou aos torneios desportivos que também compunham o certame. “Fora do tempo de jogo vou para longe daqui. Já ganhei auto-controlo”. O discurso é bem diferente do de João Lento, 15 anos, natural de Abrantes, a frequentar o 7º ano. “Comecei a ver um amigo a jogar e fiquei viciado”, comenta sem preocupação. “Estive um mês em Portimão e só fui três vezes à praia”. O tempo em jogo é constante, todos os dias, quase 24 sob 24 horas. “Tenho cerca de 3 mil horas de jogo”, calcula.Gosta de jogar futebol, mas reconhece que se perde a noção do tempo frente ao computador. “Os pais agora já não ligam”, comenta. Quando as aulas recomeçarem, a ideia é levar o computador para a escola e jogar nos intervalos. “É um ciclo vicioso”, refere. “Não é uma coisa que se explique”A história é semelhante à de Francisco Agostinho, 19 anos, também de Abrantes, estudante do 12º ano. “Uma pessoa fica fascinada com aquilo”, procura explicar, reconhecendo o vício provocado pelos grafismos, os mapas, os pormenores… “Não é uma coisa que se explique. Há os que gostam de jogar futebol, nós gostamos de computadores”.As férias acabam por ser o período fatal para quem gosta de jogos em rede. “Ver filmes é sempre a mesma coisa, ao menos assim mexemos os dedos”, refere rindo. No LANfestival ponderava passar também pelos concertos. Quando iniciarem as aulas, não levará o computador para a escola e vai procurar dividir o tempo para poder jogar.“As pessoas deste lado não têm nada a ver com os concertos, são públicos diferentes”, aponta Pedro Tomé, da organização do LANfestival. “O público que vai aos concertos é mais generalista, as pessoas que vêm para a LANparty são mais novos e vivem mesmo para isto”, indicando que não saem do espaço dos computadores. Dos cerca de 100 participantes (número limite) da LANparty, a maioria veio de Lisboa. Os vencedores dos torneios receberam, no seu conjunto, 10 mil euros de prémios em hardware.
Fanáticos dos jogos virtuais enfrentaram-se em Abrantes

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