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Alexandrina tem apenas 44 anos de idade e não sabe ler nem escrever

Alexandrina tem apenas 44 anos de idade e não sabe ler nem escrever

O drama do analfabetismo no país dos computadores Magalhães

Quando se pensa em analfabetismo pensa-se em pessoas idosas. Pessoas que nasceram e cresceram antes da revolução de Abril. Não é o caso de Alexandrina Pereira. Tem 44 anos de idade e vive em Tomar. Abandonou a escola aos seis anos para tomar conta dos irmãos. Apesar de ser saudável e bem-disposta, não esconde a mágoa de não saber ler. Uma história da vida real num país em que as crianças já aprendem inglês e vão para a escola com computadores. Elsa Ribeiro Gonçalves

Edição de 08.09.2010 | Suplemento Regresso às Aulas
Quando estacionámos o carro de O MIRANTE em frente a casa de Alexandrina Pereira, moradora no Bairro 1.º de Maio em Tomar, mesmo sem anunciarmos presença, a porta abriu-se de imediato. A mulher esboça um sorriso e convida-nos a entrar. Após dizermos ao que vamos mostra-se desapontada: “Ah! Pensava que me vinha oferecer emprego”. Não identificou a repórter, apesar de esta se fazer transportar num carro identificado com letras garrafais. Primeiro sinal do fardo que Alexandrina Pereira carrega aos 44 anos, fruto de nunca ter aprendido a ler nem escrever. Natural de Tomar, Alexandrina chegou a frequentar a 1.ª classe mas a mãe, que trabalhava sozinha no campo de sol a sol, precisava de alguém para tomar conta dos irmãos mais novos. Aos seis anos fazia a lida da casa, cozinhava, apanhava azeitona e ia ao mato buscar feixes de lenha à cabeça, conta quem só em adulta aprendeu a assinar o nome e a copiar palavras às quais não atribui significado. Os tempos eram outros, as prioridades também e os dias foram passando sem que regressasse aos bancos da escola. Melhor destino tiveram os seus irmãos que aprenderam a ler e a escrever. Quando recebe uma carta pede às filhas que a leiam e vai sempre ao supermercado acompanhada pelo marido para não se enganar nas compras e, especialmente, nas contas. “Com o dinheiro já sei lidar melhor. Memorizei as cores das notas, o problema são as moedas pretas que não consigo ainda distinguir”, exemplifica. Atento à conversa, o marido, José Pereira, interrompe para contar um episódio. “Uma vez deu uma nota de cinco contos para pagar mil escudos e vinha-se embora sem o troco”, recorda de dedo em riste. “Foi uma tia que estava por perto que deu conta do engano”. Mãe de quatro raparigas, avó de uma neta, Alexandrina casou cedo e como apenas conhecia a vida do campo teve dificuldade em arranjar emprego fora de casa. “Sabia que não podia esperar muito pois quem não lê é como quem não vê, pelo que tudo o que viesse era bom”. Foi o marido que tratou de lhe arranjar trabalho na Citaves, uma unidade de produção industrial de aves na Zona Industrial de Tomar e era ali que se sentia bem. Acabou por ficar dez anos até o desemprego lhe voltar a bater à porta.“Um dia deram-me um papel para assinar e perguntei para que era porque pensava que me estavam a mandar embora”, recorda. Afinal era o contrato para ficar por tempo indeterminado. Um tempo indeterminado que já teve o seu termo. Agora procura trabalho. Qualquer trabalho que não implique saber ler ou escrever. Uma coisa mais difícil de encontrar do que agulha num palheiro. Antigamente os empregadores pediam a 4ª classe. Agora o mínimo é o 9º ano. O analfabetismo é um estigma. Uma limitação. Uma prisão. Consultar os preços nas montras. Ver o horário do autocarro. Identificar as ruas pelos nomes. Ler um aviso. Saber o nome de um café ou de uma loja através do letreiro na fachada. Levantar dinheiro ou fazer pagamentos no Multibanco. Perceber as instruções de um novo equipamento. Ler uma mensagem num telemóvel ou identificar quem está a ligar.… Alexandrina não assina nada sem perguntar para que é, um conselho que lhe deram e que faz questão de seguir. Quando tem que aviar uma receita pede sempre ao farmacêutico para escrever na caixa como deve tomar a medicação. Em casa o marido ajuda-a a decifrar a dosagem. Nunca lhe aconteceu nenhuma situação porque está sempre acompanhada. Um amparo, como alguém precisa a quem falta um membro do corpo, para entender melhor o mundo que a rodeia. E para que o mundo a entenda melhor também porque é difícil explicar que não sabe ler, lacuna atribuída normalmente a quem já tem cãs na cabeça ou mora em lugarejos mais recônditos. “Quero muito aprender a ler”, reforça quem vai sabendo das notícias pela boca de quem a rodeia ou prefere ficar informada pela televisão, já que a ouvir também se aprende. Ignora o que dizem as legendas mas quando sente curiosidade pergunta o que está lá. Quando olha para alguma revista cor-de-rosa apenas se pode limitar a apreciar o corte de cabelo ou a indumentária de quem aparece na capa. A memória vai sendo a sua melhor aliada no dia-a-dia. Os seus dias, agora, são passados a cuidar das flores. Actualmente a frequentar a escola D. Nuno Álvares Pereira à noite no âmbito do programa “Novas Oportunidades”, Alexandrina Pereira está a fazer uma segunda tentativa para aprender a ler e a escrever. O ano passado já tinha tentado mas não lhe passaram o diploma por acharem que ainda tinha poucos conhecimentos adquiridos. Não conhece mais ninguém na sua situação mas não tem vergonha e sente que pode ser útil na sociedade se lhe derem uma oportunidade ou, seja, um emprego. “Seja nas limpezas ou a cozinhar”afirma.
Alexandrina tem apenas 44 anos de idade e não sabe ler nem escrever

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