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Lavava o equipamento no hotel com sabão azul e no dia seguinte era mais uma medalha de ouro

Lavava o equipamento no hotel com sabão azul e no dia seguinte era mais uma medalha de ouro

Campeão José Canelo faz 86 anos de idade e diz que nunca se sentiu tão jovem em toda a sua vida

No dia em que sai esta edição, 16 de Setembro, José Canelo faz 86 anos. Morador no Entroncamento e um fenómeno das corridas, o aniversariante ganhou 4 medalhas de ouro no Campeonato da Europa de Atletismo para Veteranos realizado em Julho na Hungria. Diz que veio de lá rejuvenescido e conta as suas aventuras com entusiasmo. A do equipamento que tinha que lavar todos os dias à noite; a das massagens com sabão azul e branco e a sua estreia a andar de avião.

Edição de 15.09.2010 | Desporto
A vida de um atleta internacional português pode ser muito aventurosa. Pelo menos quando se trata de José Canelo, o tal das quatro medalhas de ouro ganhas este ano no Campeonato Europeu de Atletismo para Veteranos realizado na cidade de Nyiregyháza, na Hungria, entre 15 e 24 de Julho. Parafraseando os versos da Nau Catrineta, que tem muito que contar, “Ouvide agora senhores/Uma história de pasmar”. O relato desta realidade vivida não é feito em verso mas em prosa e começa em jeito de anedota antiga. Era uma vez um português, um irlandês e um alemão. A conclusão, já se sabe, é sempre a mesma. A vitória sorri, invariavelmente ao valente português. O alemão e o irlandês foram os atletas da classe M 85 (Idades entre 85 e 89 anos) que competiram com José Canelo nas provas em que ele estava inscrito. 800 metros; 1.500metros; 5.000 metros e 10.000 metros. O campeão português diz que os adversários eram muito simpáticos. E não é só por não conseguirem vencê-lo. Conta que o alemão, um dia, até lhe deu um abraço, depois de o saudar com os punhos fechados e os polegares apontados ao céu. “Uma vez até jantámos os três juntos. Eu não falava inglês nem alemão. O alemão não falava inglês nem português. E o irlandês não pescava nada de nenhuma língua, para além da sua”. Calculamos que tenha sido um jantar bem gesticulado. Para quem fale muitas línguas mas não perceba nada de atletismo para veteranos, diremos que a idade mínima são os 30 anos e que não há limite máximo de idade. Os atletas estão organizados por escalões. 30-34; 35-39 e por aí adiante, de cinco em cinco anos. A partir dos 100 anos só há um escalão…até à eternidade. Para os atletas não se sentirem desacompanhados, porque a partir de certas idades os competidores são raros, os organizadores das provas juntam vários escalões. “Saí daqui dia 14 de Julho. Fui com os outros atletas. Da minha família e do clube não foi ninguém. Não havia dinheiro. Fui às minhas custas. Chegámos à noite e no dia seguinte às 19h00 já estava no estádio para correr os 10 mil metros. Tínhamos que ir com uma hora de antecedência. Para levantar o dorsal, verificar o chip que tínhamos nas sapatilhas, a nossa identidade, enfim, essas coisas. Éramos 11. Dos 80, dos 85 e um cavalheiro com 90 anos. E era bom atleta”, conta José Canelo entusiasmado.A conversa decorre na casa dele, uma vivenda antiga na rua Mestre de Aviz, no Entroncamento. A televisão está sintonizada na Sport Tv. Ao lado uma estante repleta de DVD. “O irlandês arrancou logo como alguns que eu às vezes vejo aqui nas provas de estrada. Com muita ganância. Parece que lhe faltava terreno. Eu pensei com os meus botões, ‘não deves ser bom corredor’. Parece que estava a adivinhar. À quinta volta, nem alemão, nem irlandês. Só os do escalão dos 80 anos. Fui passando por todos. Só um único chegou à minha frente”. A primeira medalha de ouro estava ganha. Não havia bandeira portuguesa a subir no mastro durante a cerimónia protocolar de entrega de medalhas mas tocava o hino. “Tocava e eu cantei-o todo. Do princípio ao fim. E dei uma beijoca na rapariga das medalhas. Pedi primeiro mas como ela não percebeu, dei-lho à mesma. À directora dei um beijinho à chegada, mas foi na mão”, conta a sorrir. Um galanteador, para além de bom corredor. Para os mais apressados no julgamento dos méritos dos atletas veteranos, José Canelo resume uma regra de ouro. “Não podemos ir a passo. Quem for a passo vê um cartão amarelo. Se reincidir, vê o vermelho e é excluído”. Na Hungria, estiveram este ano cerca de 6 mil atletas de 41 países. Portugal levou 47 praticantes e conseguiu conquistar 24 medalhas, sendo 11 de ouro, 7 de prata, e 8 de bronze.Lavar o equipamento à noite para o usar no dia seguinte“Levei comigo um bocadinho de sabão azul para massajar os joelhos. Depois dos treinos e das provas, durante o banho, costumo massajar os joelhos com sabão azul e água fria. O sabão foi útil para as massagens e para a lavagem do equipamento”, conta José Canelo. Como a Federação Portuguesa de Atletismo, através da ANAV - Associação Nacional de Atletismo Veterano, entidade que tem por fim coordenar a prática de atletismo veterano em Portugal e no estrangeiro, apenas lhe deu um equipamento, uma das tarefas nocturnas do campeão era lavá-lo para estar pronto no dia seguinte. “O que me valeu foi o ar condicionado. De manhã estava completamente seco. Abençoado ar condicionado”.José Canelo diz que este ano foi o ano do seu rejuvenescimento. Aos 85 anos de idade (completa hoje, 16 de Setembro, os 86), correu pela primeira vez numa pista de tartan; andou pela primeira vez de avião; ganhou 4 medalhas de ouro numa competição internacional e a câmara municipal do Entroncamento vai dar o seu nome à pista de atletismo municipal, a inaugurar dia 25. “Sinto-me outro homem. Até já comecei a fazer um mealheiro para ver se para o ano vou a Sacramento, na Califórnia, ao Campeonato do Mundo”, confessa. O mealheiro de que fala justifica-se. Todas as despesas do atleta foram à sua conta. A câmara e as juntas de freguesia decidiram atribuir apoios monetários mas ainda não foram pagos. “Andámos a mendigar uns apoios mas tive que avançar com o dinheiro do meu bolso. Para os veteranos não há nada. Alguns conseguem patrocínios. Eu nem sabia que era assim”, conta. E lá foi ele para a Hungria com as sapatilhas na mala. “Fugi sempre a andar de avião. Durante o serviço militar, no regresso de Angola vim de barco quando podia ter vindo de avião. A minha mulher fartou-se de enjoar. Ainda por cima a viagem demorou trinta dias”. Desta vez o atleta decidiu arriscar. “Para lá fui sentado ao pé de uma atleta da comitiva portuguesa. Uma mulheraça bonita. Atleta da marcha. Quando viu que eu estava nervoso falou comigo e aquilo ajudou-me. A conversa, pois claro (riso). Para cá já parecia que tinha andado de avião toda a vida. Nem pensei no assunto”, confessa. Antes do regresso houve outros assuntos a tratar. A segunda prova foi a dos 1.500 metros. “Descansei nos dias 16, 17 e 18. No dia 19 lá fui fazer os 1.500. Já não foi no mesmo estádio. Foi no estádio principal. Às 3 horas da tarde. Ao longe ouvia gritarem o meu nome. Zé Canelo! Zé Canelo! E eu a pensar. Quem havia de dizer que eu vinha para a Hungria e estava num estádio destes a focarem o meu nome e o nome de Portugal”. Entusiasmou-se demasiado e desconcentrou-se, como acaba por confessar. “Fiz asneira. Como ia à frente descansado, com uma vantagem boa e lá da bancada onde estavam os portugueses, gritavam por mim, eu comecei a atirar beijos. Devia ter dado atenção ao tempo e não dei. Mas foi uma vitória em beleza. Lá isso foi”, recorda. Militar na situação da reserva, o super atleta começou tarde. “Tinha 38 anos e estava colocado aqui no Entroncamento. Nessa altura tínhamos no quartel um alferes que era maluco por atletismo e que nos levou a participar no corta-mato militar. E foi assim que comecei. Treinávamos a correr entre o Entroncamento e a Golegã. Toda a vida participei em provas mas sempre de estrada. Perdi-lhe o conto. Só este ano corri numa pista de tartan. Por insistência do Mário Abegão, (treinador e dinamizador de atletismo de Torres Novas). Uma estreia a matar. Foi Campeão Nacional de Veteranos (M85) em pista coberta dos 800 e 1500 metros.“Estava tão entusiasmado que até pensei que me devia ter inscrito em mais provas”José Canelo não é de falsas modéstias. Vibra com os seus próprios feitos. “Depois da prova dos 1.500 metros fui aos 5.000 metros. Foi no dia 21, de madrugada. Às 7 da manhã já estava no estádio. Estava confiante. Dizia comigo. Esta é mais uma que eu tenho no papo. E assim foi. Ao alemão dei-lhe duas voltas de avanço. E ao irlandês, foram três. Mas enfim...eles já têm 85 anos e eu sou um jovem”, diz por entre risadas. E acrescenta mais sério. “Eu pensava. Hei-de fazer ver ao Entroncamento e ao meu clube (CLAC) e hei-de honrar o nome de Portugal. Nem televisão, nem apoios, nada. Só porque somos veteranos. Isto é triste e uma revolta. O Carlos Gonçalves é que me tirou as fotografias a receber as medalhas e a correr”.A última prova foi a dos 800 metros. Foi no penúltimo dia. 800 metros. O atleta veterano tinha a certeza que iria ganhar e prometeu a si mesmo que não se distrairia a mandar beijinhos para as bancadas. “Ao fim da segunda volta tinha um bom tempo. 1,59 minutos. Pensei que poderia fazer menos de 4 minutos. Puxei, puxei mas fiz 4 e 18. A prova foi na hora do calor. No estádio principal. Acabou por ser a mais difícil para mim. Em vez dos adversários lutei contra o tempo. Ganhei a quarta medalha de ouro mas fui derrotado pelo cronómetro”. Resumindo a sua participação, José Canelo diz que se soubesse o que sabia no final, tinha-se inscrito em mais duas provas. Nos 400 e nos 200 metros. Estive a assistir e convenci-me que eram mais duas medalhas de ouro”, afirma com convicção.O homem da estrada que vai dar nome a uma pista No dia 25 a partir das 17horas, a câmara do Entroncamento baptiza a pista de atletismo municipal com o nome José Canelo. O atleta fica agradecido mas lamenta que não tenha sido possível fazer, no local, uma pista a sério. “Chegámos a falar com o presidente da câmara para ser feita uma pista à volta do campo. Nem era preciso ser de tartan. Bastava areão”. Não foi possível por não haver espaço. “Estou a utilizar a ciclovia que fica no exterior, para treinar. Tem um piso lisinho. Já estivemos a medir e sabemos o percurso a fazer para completar 400 metros. É melhor que nada”, diz. E acrescenta: “afinal toda a vida corri em estrada. Só este ano pisei uma pista a sério”O papa medalhas Há medalhas e troféus em várias divisões da casa. A vivenda foi feita com o dinheiro que José Canelo ganhou numa comissão militar em Angola. Em Luanda. Na tranquilidade do Depósito Geral de Armamento. O atleta é pequeno e enérgico. Nasceu alentejano e agora é património do Entroncamento, localidade para onde foi viver em 1957, depois de ter feito uma comissão na Índia, onde casou, por procuração, com a namorada que tinha deixado no continente. “Nasci na rua das Parreiras às Almas, nº 17 em Elvas, freguesia de Santo Ildefonso. Vivi lá até aos 21 anos. Entrei lá para a tropa. E saí de lá para ir tirar um curso de armamento à Fábrica de Material de Braço de Prata em Lisboa. Fiquei em primeiro lugar no curso e o prémio foi ser mobilizado para a Índia. Ao fim do primeiro ano lá fui ter com o capelão e disse-lhe que queria casar por procuração. Tratei dos papéis e assim foi”, conta. Maria de Lurdes Santos Candeias faleceu em 1988. José Canelo diz que foi a única mulher da sua vida e que por isso nunca mais pensou em voltar a casar. Sou viúvo desde 1988. “Vivo sozinho. Trato de tudo. Tenho uma filha, a Maria Amália, nascida, baptizada e criada no Entroncamento e dois netos que são uns amores. O António é de gestão e está a tirar um estágio na Hungria. O José Luís, o mais velho, é arquitecto em Constância. Foi criado por mim e pela minha mulher até aos 9 anos, quando ela faleceu. Depois também apoiei sempre o seu crescimento. A minha filha estava a estudar para Educadora de Infância e precisava de ajuda”. Corre três vezes por semana. Às terças, quintas e domingos. “Assim que começo o treino fico esquecido de todos os meus problemas, que até nem são muitos. Quando volto tomo uma banhoca, vou comprar o jornal, beber o meu café. Sinto-me muito bem”. Não tem qualquer doença. Come de tudo. Ao pequeno-almoço apenas pão torrado e café porque não gosta de leite. Não fuma. Bebe um copinho de vinho às refeições. Raramente vai para a cama depois da meia-noite. Levanta-se entre as seis e meia e as sete. Gosta de ver filmes e tem a televisão quase sempre sintonizada nos canais de desporto. Diz com humor que procura evitar locais com muitos idosos. “Com esta idade não posso estar a olhar para o meu futuro. E ainda sou muito novo”.
Lavava o equipamento no hotel com sabão azul e no dia seguinte era mais uma medalha de ouro

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