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Filipa de Jesus

Filipa de Jesus

33 anos, Empresária, Santarém

Uma filha especial só podia ter uma mãe especial. Filipa de Jesus, 33 anos, deixou o ramo da contabilidade para se dedicar ao negócio da pastelaria e padaria. “Pão da Bia”, o estabelecimento que tem a funcionar desde Outubro em Santarém, é uma homenagem à Beatriz, de sete anos, com necessidades especiais. O marido, advogado, é um verdadeiro cúmplice. A mãe da empresária uma ajuda preciosa. Tempos livres não existem por enquanto, mas Filipa de Jesus já está habituada a lidar com os percalços da vida. É por isso que costuma dizer que vive “ao minuto”.

Edição de 22.09.2010 | Três Dimensões
Criei o meu próprio negócio porque fiquei desempregada. Já tinha esta ideia há algum tempo. Não era para surgir neste local, mas uma amiga disse-me que o espaço estava desocupado e surgiu a oportunidade. Sempre trabalhei em contabilidade. Não tenho o curso de gestão de empresas terminado. Frequentei o ISLA, mas desisti. Quando se começa a trabalhar e se tem um dia absorvente os estudos ficam para trás. Não tive força de vontade suficiente. Fiquei no terceiro ano. Faltavam dois anos. Entretanto casei-me e tive a minha filha. Tenho uma filha com necessidades especiais. Chama-se Bia. O meu estabelecimento chama-se “Pão da Bia” e é de certa forma uma homenagem. É uma coisa que não escondo. Já aprendi a ser mãe de uma criança diferente e amo-a tal qual é. Ao início ocorria-me a pergunta: ‘porquê eu?’ Agora a minha preocupação natural é com o futuro. É isso que não me sai da cabeça. De resto a minha filha é uma criança feliz. Muito sociável. Não sabemos a causa do problema. Andamos a fazer estudos de genética. Tenho muitas saudades de estar grávida. Gostei muito da maternidade e do parto. Acho que era bom para a Beatriz ter um irmão (apesar de ter um meio-irmão com 22 anos) mas por outro lado acho que isso iria tirar atenção à Beatriz. Mesmo em termos financeiros gostamos de canalizar tudo para ela. Deixei de ter tempo para mim. Hoje levantei-me às 06h15. Por volta das 07h00 já estava a trabalhar. Abro o café às 07h30. Ponho tudo a jeito para receber os clientes. Vem o senhor do pão e dos bolos. Depois começam a chegar pessoas. É assim dia sim, dia não. Um dia abro eu. No outro dia abre a minha mãe. Nos dias em que entro mais cedo é o meu marido que vai pôr a Bia à escola. Fica com ela muitas vezes, sobretudo ao sábado. Também teve que abdicar um bocado do tempo dele. Nos dias em que entro mais tarde levanto-me às 07h30. Despacho a minha filha e vou pô-la à escola.Descurei um pouco a minha casa. Hoje em dia não está tão cuidada como estava antigamente. Não tenho ninguém lá em casa para me ajudar. Por enquanto será assim. Às vezes saímos ao domingo e esquece-se um pouco a casa. Faço exercício todos os dias. Emagreci 12 quilos desde que aqui estou a trabalhar. Antes passava muito tempo sentada. A verdade é que também como menos porque tenho menos tempo. O tempo para mim não existe. É pouco mesmo para a família. Tirei uma semana de férias em Agosto. Eu precisava de descansar, mas foi sobretudo porque o marido e a filha também têm esse direito. Fomos para Tavira. Também gostamos de passear no Alentejo. Temos muitos casais amigos que também gostam. Vamos almoçar, ver adegas, ver paisagens. Estou a lembrar-me de Monsaraz. Gostamos muito de Borba e Estremoz. No Verão aproveitamos para ir à praia. Na Páscoa damos um salto às termas de Montemuro. Estava cheia de saudades dos estudantes. São meus clientes. Gosto muito do contacto com eles. Dão alegria à casa. Gosto de conviver com as pessoas. Gosto das conversas de casualidade. Agora abrimos à noite. Havia muita gente a pedir. Às vezes as pessoas queriam comer uma tosta ou ficar na esplanada e já andava eu a recolher as cadeiras. Quando trabalhava em contabilidade não usava calças de ganga. Optava pelas calças de vinco e camiseiros. No café adoptei um estilo mais jovem. Gosto muito de acessórios. O problema é que às vezes não tenho tempo para os escolher. Ainda há pouco resolvi pintar-me. Trago tudo na minha malinha. Brincos, acessórios e pinturas…Vivo ao minuto. Posso estar a pensar fazer uma coisa agora e a seguir sair-me tudo furado. Pela vivência que tenho, não há frases que possam preencher o que se passa na vida que está cheia de percalços. Ana Santiago
Filipa de Jesus

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