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O energético pianista do Teatro São Carlos que salta como uma pipoca

O energético pianista do Teatro São Carlos que salta como uma pipoca

Nuno Margarido Lopes é vilafranquense e sonha um dia ser maestro de orquestra

O gosto pela música clássica surgiu quando ainda era criança, mas foi o piano que conquistou o seu dom. Aos 14 anos Nuno Margarido Lopes iniciou uma escalada artística e é hoje pianista do Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Tem 35 anos e uma carreira multifacetada, entre a música e o teatro. Orgulha-se de ter trabalhado com os mais conceituados maestros, cantores, encenadores e actores. Gostava de chegar a maestro de orquestra e lamenta ainda não ter recebido um convite para actuar na sua terra.

Edição de 29.09.2010 | Entrevista
Como é que nasceu o gosto pela música, em particular pela ópera?Nunca tive ninguém na família ligado à música. Com sete anos é que comecei a gostar de ouvir música clássica em programas de televisão. Aos poucos fui ganhando esse gosto e senti a necessidade de o transmitir. Mas lembro-me que ficava muito envergonhado quando os meus pais ou os colegas dos primeiros anos de escola me pediam para cantar. Só quando estava toda a gente distraída é que me entretinha a cantar. Sabia a música e inventava um texto. Cantarolava num “italianês” estranho.Mas não era vulgar uma criança ter esses gostos musicais.Não. Nem todas as crianças passam a gostar de ópera e de música clássica assim de repente. Mas há muitos miúdos no mundo que começam a aprender música muito cedo. Se tivesse começado a estudar com seis anos hoje podia ser um pianista de renome ou ter seguido outra carreira. Mas nunca fiz aulas de voz. Cantar era um entretém. E o interesse pelo piano?Sempre senti muita vontade em tocar piano. Havia um vizinho que costumava comprar instrumentos musicais e um dia, era eu ainda criança, mostrou-me um piano (sintetizador). Interessei-me logo. Como estava doido para ter uma coisa daquelas os meus pais ofereceram-me um daqueles brinquedos musicais que se compram na feira (sorrisos). Mas nunca pensei vir a ser músico na minha vida.Quando é que essa realidade começa a tomar forma?Aos 14 anos. É tarde para se começar a estudar música, principalmente piano. Com essa idade já devia saber muita coisa. Apesar disso ingressei na Escola de Música Sonata em Vila Franca de Xira, onde tive aulas de piano durante dois anos com a Filipa Taipina (musicóloga). No final desse tempo ela aconselhou-me a seguir um estudo mais sério e aprofundado do instrumento. Sugeriu que concorresse ao Instituto Gregoriano de Lisboa. Ajudou-me a preparar para as provas e entrei logo à primeira.Quanto tempo esteve no Instituto?Cerca de um ano, a aprender piano. Depois fui para a Escola Profissional de Arcos do Estoril, criada por russos, onde se aprendia vários instrumentos e técnicas de composição. Durante três anos – entre 1994 e 1997 – fiz o curso de composição e de piano simultaneamente. A escola acabaria por fechar, devido a problemas financeiros, mas foi uma óptima experiência! Contactei com pessoas de diferentes culturas, realidades e sensibilidades musicais. Além disso, em 1996, ganhei o prémio de improvisação instituído pela escola.Como assim?Gostava muito de me colocar em frente ao piano e improvisar. Fazíamos isso com frequência. Tínhamos duas horas marcadas para compor. Íamos para uma sala, sentávamo-nos ao piano e improvisávamos. Mas às vezes, o facto de ter a hora marcada para escrever qualquer coisa, chateava-me. É como um escritor quando lhe é dito: “agora escreve”. A inspiração não sai assim de repente. É preciso que ela surja ou então há que buscar alguma influência. Mas tinha que sair alguma coisa.A escola fechou e depois?Já desde 1995 que pequenas instituições me contratavam para acompanhar aulas de dança e de canto. Digamos que foi aí o início da minha carreira como pianista “acompanhador”. Em 1997, como era freelancer – a partir de uns cantores que tinha conhecido e que trabalhavam no São Carlos – comecei por fazer aqui alguns ensaios. O maestro titular, João Paulo Santos, foi conhecendo o meu trabalho e convidou-me para começar a acompanhar o coro. Fui ficando e hoje sou seu assistente como pianista no Coro do Teatro Nacional de São Carlos.Estava à espera dessa oportunidade?Não. O mestre João Paulo é uma pessoa conceituadíssima no mundo da música. Começou a apostar em mim e mais tarde convidou-me para ser maestro correpetidor do coro. Toco piano e faço o papel da orquestra quando esta não está presente. Trabalha-se directamente com os cantores e solistas. É um trabalho difícil, de grande responsabilidade mas também um desafio. Fez também parte da Companhia Teatral Inestética de Vila Franca de Xira como pianista e actor …Sim. Entre 1993 e 1995. Uma experiência muito interessante. O Alexandre Lyra Leite é um óptimo profissional e uma pessoa que tem ideias fantásticas. Admiro muito o trabalho deles. Fizemos várias peças em que eu tocava e fazia um personagem. Mas como o trabalho era muito tive de deixar. Em 1998, a convite do encenador João Lourenço, fiz a peça “O Mar é Azul” com Irene Cruz e José Jorge Duarte. Mais tarde trabalhei com o encenador Luís Miguel Sintra em “Um Homem é um Homem” onde era actor e pianista. Perdeu-se um bom actor mas ganhou-se um bom pianista?(Silêncio). Como pianista continuo a ser um actor e sou muito teatral naquilo que faço. As pessoas dizem-me que devia seguir, em particular, a carreira de actor cómico, pois dizem que é um papel que interpreto muito bem.E o Nuno, o que sente?Adorava ser actor cómico. Um dos grandes actores que muito admiro desde pequenino é o francês Louis de Funès. Tenho todos os filmes dele. Gostava de poder conciliar as duas carreiras?Sim. Se tivesse a oportunidade de trabalhar como actor, de certeza absoluta que conciliava as duas profissões. Mas deixar o piano, isso é que não. Gosto muito do que faço. Mas gosto de ambas, sem dúvida.Acha que se complementam?Perfeitamente. Teatralmente fiz sempre as duas coisas em simultâneo. Trabalho de actor e de pianista. Há coisas que se podem juntar com facilidade. Disse que é teatral quando toca piano…Quando estou a tocar, seja com um cantor, sozinho ou até mesmo num ensaio, sinto a força, a personagem e a musicalidade muito cá dentro. Isso transmite-se porque é algo muito físico, com uma força tal que não consigo estar parado. Normalmente há o pianista que mexe só os dedinhos. Mas tudo aquilo mexe comigo. Uma imagem parecida com aqueles maestros que gesticulam muito?Sim. Esses, muito loucos (sorrisos). É uma boa imagem. Uma marca pessoal?Todos sabem que eu sou muito vivaço quando estou a dirigir e a tocar. As pessoas também me reconhecem profissionalmente por causa disso. Por ser muito enérgico. Uma colega chama-lhe “fogo na pipoca”, quando está sempre a saltitar dentro do micro-ondas. E eu adoptei essa expressão para mim. É a energia que não pára. Uma tensão que se mantém até ao final. Estamos sempre em alerta.Continua a tocar com vários músicos mas também toca piano a solo…Nunca quis ser um pianista solista. Sempre achei que isso seria para os grandes pianistas. Não tinha coragem para tal. Nesse aspecto sempre fui muito tímido e preferia acompanhar um cantor. Mas nos últimos tempos começaram a desafiar-me para ir fazendo umas actuações a solo. Não desgostei e agora já não tenho vergonha de o fazer. Gosto e sinto prazer em fazê-lo.Quais são os seus objectivos para o futuro?Gostava de um dia ser maestro de orquestra. O segundo objectivo é o de continuar a desenvolver este trabalho com as crianças, de modo a alargá-lo ao país inteiro. No ensino da música, do canto, é importante fazer um trabalho diferente, motivador e novo para todos os miúdos.“Gostava de actuar em Vila Franca de Xira”O que sente quando vai a Vila Franca de Xira?Infelizmente vou poucas vezes à minha terra. Mas sinto saudade dos tempos que lá passei. Vivíamos junto à Praça de Toiros e tínhamos uma vista óptima sobre a Lezíria. Lembro-me que as festas do Colete Encarnado e da Feira de Outubro davam muito entusiasmo e alegria à cidade. Tenho saudades desse ambiente. Os toiros faziam parte da nossa cultura e recordo-me de ouvir a banda do Ateneu Artístico Vilafranquense durante as festas. Gostava muito de os ouvir.A cidade está diferente?Está mais arranjada, com alguns edifícios novos. Mas infelizmente foi descaracterizada por algumas construções que não funcionaram, caso do Vila Franca Centro. Nunca achei que aquele centro comercial se enquadrasse naquele local. Também tenho pena da destruição do nosso cine-teatro, onde víamos o cinema e se realizava a temporada de música de Vila Franca de Xira. Cheguei a cantar lá. Era uma sala óptima, do género do Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra. Ainda não tive a oportunidade de visitar o Museu do Neo-Realismo. Mas sei de colegas meus que até já lá foram fazer alguns recitais.Gostava de actuar um dia em Vila Franca de Xira?Sim, claro. Foi uma coisa de que sempre tive pena. A minha mãe até falava no facto de nunca me terem convidado para, dentro da minha área, actuar na minha terra. Às vezes toco com o Grupo “Notas Soltas”. Mas para levar um espectáculo como pianista nunca me convidaram. Mas até compreendo. Vivo em Lisboa há 10 anos, estou desenraizado. Acha que os responsáveis políticos sabem que o Nuno Margarido Lopes existe?Não. Claro que não. E é obvio que funcionam os lobbies. Amigo convida amigo. Mas lamento que ainda não tenha surgido um convite para actuar em Vila Franca de Xira e fazer um concerto. Sendo ribatejano e vilafranquense dar-me-ia um enorme prazer um dia poder levar um espectáculo meu à minha terra. Se surgir a oportunidade aceitarei com todo o gosto.Pensa um dia regressar às origens?Não. Mas não é por não gostar. Até porque gosto de viver no campo. A minha mãe vive na Abrigada (Alenquer) e quando posso vou lá aos fins-de-semana. Às vezes sinto necessidade de fugir de Lisboa porque gosto de estar no campo. Considero que estar em Vila Franca é estar no campo. Lembro-me que a Lezíria me dava muita paz interior. Mas acabo por ter aqui toda a minha vida. Já estou habituado ao estilo de vida de Lisboa. O dinamizador do coro das jovens vozes de LisboaComo surgiu o projecto do coro “Jovens Vozes de Lisboa”?Em 2007 a Helena Vieira acabou o musical “Música no Coração” e como tinha uma relação próxima com os miúdos que lá trabalhavam, combinou com eles criar um coro. Nessa altura eu também dirigia um coro na CMVM – que depois acabou – e surgiu a proposta do presidente da instituição, Carlos Tavares, de fazermos um concerto em conjunto. Ensaiei-os e o espectáculo correu lindamente. Eram miúdos extraordinários. Fiquei entusiasmado e a partir daí comecei a dirigir este coro.Tinha quantos elementos?Eram 17 miúdos. Mas como queremos sempre mais disse à Helena que gostava de ter um coro maior. Sugeri que contactássemos cerca de 50 crianças com quem fiz um trabalho na Culturgest. Aos poucos foram aparecendo. E o número foi aumentando…Sim. Todos eles fazem audição para entrarem para o coro. Temos dos cinco aos 25 anos. Neste momento já são 90 elementos. A grande maioria é da Grande Lisboa. Mas há duas miúdas que são do Carregado. É uma associação independente, mas como somos muitos o São Carlos cedeu-nos espaço para ensaiarmos ao domingo à tarde. Começámos a fazer concertos em 2008 e já actuámos em muitos locais e cerimónias. Sou o director artístico em conjunto com a Helena Vieira e também o maestro.Digamos que já está a fazer o estágio para maestro…Sim, é verdade (sorrisos). Aqui sou eu o presidente da Junta (sorrisos). É uma experiência óptima. É uma mais valia porque me permite e ajuda-me a perceber o que é ser maestro.Disse que gostava de alargar este projecto a todo o país.Sim. Primeiro dar a conhecer este coro e o seu trabalho. Apresentamos todo o tipo de repertório. Desde a música clássica até à musica pop. O querer alargar este projecto ao país inteiro tem como objectivo criar uma espécie de formação, com o carácter de dar a conhecer, acessível a todas as pessoas, sejam elas mais pobres ou mais ricas, pois nem toda a gente conhece a música clássica ou ópera…“Carregador” de piano sem carta de conduçãoNasceu em Vila Franca de Xira a 26 de Agosto de 1975. O pai era de Alverca e a mãe de Oliveira do Hospital. Estudou na Escola Primária João de Deus e na Secundária Alves Redol, da qual não guarda boas recordações. Desde tenra idade que Nuno Margarido Lopes demonstrou grande interesse pela música clássica, em particular ópera, que muito gostava de cantar, apesar da timidez. Cantou no coro do Ateneu Artístico Vilafranquense e no grupo “Notas Soltas”. No Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos, a poucos metros do seu piano, Nuno Margarido Lopes recorda a infância com saudade. As festas, os toiros e a Lezíria ainda estão bem guardados na sua memória.Aos 14 anos foi estudar piano com a professora Filipa Taipina para uma escola de música particular de Vila Franca de Xira. A musicóloga teve papel fundamental na sua carreira profissional. Após dois anos de aulas ingressou no Instituto Gregoriano de Lisboa, impulsionado pela professora. Mais tarde rumou à Escola Profissional de Arcos do Estoril onde completou o curso de composição e piano. Em 1996 venceu o Prémio de Improvisação. Desde 1995 que colabora com a Fundação Musical dos Amigos das Crianças, Juventude Musical Portuguesa, Academia de Amadores de Música, Teatro Aberto, Escola de Dança do Conservatório Nacional e Culturgest. Como actor e pianista fez parte da Companhia Teatral Inestética de Vila Franca de Xira, entre 1993 e 1995. Alguns anos mais tarde participou nas peças “O Mar é Azul” com Irene Cruz e José Jorge Duarte com encenação de João Lourenço e em “Um Homem é um Homem”, encenada por Luís Miguel Cintra. Em 1997 aceitou o convite do Maestro João Paulo Santos para ser seu assistente como pianista no Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Além disso exerce também as funções de maestro correpetidor e colabora com a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Mora em Lisboa desde 1999. Já trabalhou com os mais conceituados maestros, cantores, encenadores e actores. Tocou em Belgais, a convite da pianista Maria João Pires. Apresenta-se regularmente em concerto, a solo e com Ana Paulo Russo e Helena Vieira, com quem coordena e dirige o coro “Jovens Vozes de Lisboa”, um projecto com cerca de 90 membros, dos cinco aos 25 anos.Hoje, com 35 anos, Nuno Margarido Lopes é um artista multifacetado que conseguiu conquistar a pulso o seu espaço no meio artístico português. No futuro gostava de ser maestro de uma orquestra e…tirar a carta de condução. É cinéfilo assumido e apaixonado por livros de História. Gosta de assistir a uma boa missa e acredita na reencarnação.
O energético pianista do Teatro São Carlos que salta como uma pipoca

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