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Presidente da Companhia das Lezírias lembra responsabilidade social e ambiental para afastar qualquer ideia de privatização

Presidente da Companhia das Lezírias lembra responsabilidade social e ambiental para afastar qualquer ideia de privatização

António João de Sousa já tem plano para recuperar Fundação Alter Real cujos problemas levaram ao afastamento do seu antecessor

Assume-se como um gestor prudente que avalia bem os riscos. Após quatro meses no cargo diz-se em condições de tomar decisões. Um dos investimentos que, para já, vai ficar adiado é o da central de biomassa. Sobre o turismo agro-ambiental que vinha sendo anunciado como uma das apostas, avisa que ainda não é rentável embora o possa vir a ser no futuro. A quem insinua que está onde está por ser amigo do Ministro da Agricultura lembra que tem currículo e que a amizade não deve ser factor de penalização.

Edição de 07.12.2010 | Entrevista
De professor do Departamento de Gestão da Universidade de Évora a gestor da maior empresa agrícola pública portuguesa. Como está a viver esta nova responsabilidade? O mundo das empresas não me é estranho. Já fazia consultadoria e assessoria a algumas. Estou tranquilo. Eu não sou apologista de mudanças radicais. Há quem defenda que o seu antecessor, Vítor Barros, foi o pior gestor da Companhia das Lezírias (CL) desde o 25 de Abril. Isso torna o seu trabalho mais fácil?Eu não emito juízos de valor sobre qualquer ex-director desta empresa. Os meus antecessores tiveram os seus méritos e os seus pontos fracos mas não me compete a mim falar disso. Quanto a mim, penso que com trabalho as coisas vão correr bem.O que diria aos que o acusaram de ter sido colocado neste cargo apenas por ser amigo do actual ministro da Agricultura, António Serrano ?Acho que isso não é factor limitativo de eu não poder aceitar um cargo destes, acho que seria injusto. O facto de ser conhecido, amigo ou seja o que for, não deve ser factor de penalização. Eu tenho um currículo que é público, não está escondido. Por agora está afastada a possibilidade de privatização da Companhia das Lezírias, mas a situação pode mudar de um momento para o outro dada a situação actual do país. Como encara essa possibilidade?Seria um desperdício uma empresa destas passar a ser privada. Até porque há aqui uma vertente de responsabilidade social e ambiental a preservar. É evidente que a companhia é uma empresa apetecível, quer o contexto seja de recessão ou de prosperidade económica, mas não concordo com a sua privatização.Quais são as suas prioridades para a Companhia das Lezírias?Um bom gestor deve adequar a sua postura e as suas decisões aos contextos. Um bom gestor é aquele que é “camaleão”, no bom sentido do termo. O contexto de futuro a curto prazo vai ser de crise económica. Com base nisso, qualquer empresa deve ser rigorosa na gestão, cortar custos, aumentar proveitos. E haverá também contenção de alguns investimentos. Cortar custos implica despedir trabalhadores?Não, não está nada previsto em relação a despedimento de pessoal. Tomámos a decisão de aumentar a área de produção de arroz a partir de 2011 e temos tido um bom escoamento dos produtos, tanto a nível nacional como internacional. Estamos a exportar cada vez mais vinhos, por exemplo. Eu tenho quase a certeza que este ano vamos ter o vinho branco com melhor relação qualidade/preço do mercado.O que espera do tão falado mercado chinês, por exemplo, a nível dos vinhos? No último ano integrámos a comitiva que foi a Xangai. Também estivemos em Hong Kong. Estamos a fazer algumas exportações mas temos de ser realistas. Se cada chinês beber um copo de vinho à refeição não há vinho em Portugal inteiro para a procura. Tudo tem de ser relativizado. É bom estar nesse mercado mas a nossa produção é limitada.Se a agricultura falhar o turismo pode ser uma solução?O ano passado foi um ano mau em termos agrícolas mas apesar disso a Companhia teve lucro. A agricultura não vai falhar. Quanto ao agro-turismo é um nicho que, por enquanto, ainda não é rentável mas que tem potencial suficiente para o ser no futuro. Qual a sua visão da agricultura portuguesa em geral?Penso que tem havido recentemente um esforço enorme na área agrícola para nos tornarmos mais auto-suficientes, o que é fundamental. Em anos anteriores Portugal descurou um pouco esse aspecto, com os subsídios à não produção. Agora chegámos a uma situação complicada em termos de auto-suficiência.Estava previsto para 2010 a entrada em funcionamento de uma central de biomassa que daria emprego a 12 pessoas. Por que é que não arrancou?Esse é um dos projectos que está a ser reavaliado. Tinha algumas variáveis que ainda não estavam completamente analisadas e verificámos que poderia haver problemas no abastecimento de matéria-prima. Não avançaremos para um projecto dessa natureza se a matéria-prima não estiver suficientemente salvaguardada. É uma área atractiva mas neste contexto tem os seus riscos. Qualquer investimento implica riscos. É um gestor que não arrisca?No contexto actual tenho de ser mais rigoroso e prudente. Devo ter cuidados acrescidos com os investimentos. Num contexto de prosperidade é possível arriscar mais. Não sou irresponsável para usar o risco a 100% num contexto de crise. Isso poderia colocar as instituições de que sou responsável em perigo e não o farei. A central de biomassa iria custar à volta de 6 milhões de euros.O que falta para aproximar mais a população da Companhia?A Companhia das Lezírias teve sempre uma interacção muito grande com a comunidade. O facto da sua sede ser em Samora Correia é o sinal mais claro dessa proximidade. É uma relação para continuar e porventura para aprofundar. Cada vez que somos solicitados respondemos e vamos continuar a colaborar na cedência dos nossos espaços e em tudo o que nos solicitam. Haverá sempre da minha parte um relacionamento saudável entre a comunidade e a companhia.A maior exploração agro-pecuária e florestal do paísA Companhia das Lezírias é a maior exploração agro-pecuária e florestal existente em Portugal, compreendendo a Lezíria de Vila Franca de Xira, a Charneca do Infantado e os Pauis (Belmonte, Lavouras e Magos), num total de quase 18.000 hectares.A Lezíria está compreendida entre os rios Tejo e Sorraia e é dividida pela Recta do Cabo (E.N. 10 - Vila Franca de Xira/Porto Alto) em Lezíria Norte e Lezíria Sul.A Lezíria Norte é constituída por cerca de 1.300 hectares explorados indirectamente (rendeiros). A Lezíria Sul tem cerca de 5.200 hectares, dos quais 3.000 ha são explorados indirectamente (rendeiros) e um pouco mais de 2.000 ha estão afectos a pastagens e/ou à produção de forragens. A Charneca do Infantado e os Pauis perfazem uma área de cerca de 11.500 hectares. A seguir à área de pastagens/forragens, a cultura predominante (Pauis) é a do arroz num total de 1.100 hectares, seguida de 140 hectares de milho (sob pivot). A Companhia das Lezírias passou por muitas vicissitudes ao longo da sua existência, sendo nacionalizada em 1975 e tendo passado, em 1989, a Sociedade Anónima de capitais exclusivamente públicos.O site da Companhia das Lezírias, de onde foi retirado este texto, está alojado no endereço electrónico http://www.cl.pt. Ali é possível obter informações detalhadas referentes à mesma.Quando jogou à bola era guarda-redesAntónio João Coelho de Sousa, 49 anos, nasceu em Évora mas viveu grande parte da sua vida em Viana do Alentejo, onde é presidente da assembleia municipal, eleito pelo Partido Socialista. Tomou posse do cargo de presidente da Companhia das Lezírias a 19 de Julho de 2010. É licenciado e mestre em gestão de empresas na área agrícola e agro-alimentar, estando como chefe do departamento de gestão da Universidade de Évora até aceitar o cargo de presidente da CL. A sua área de investigação era a gestão estratégica de vinhos. Reside na periferia de Évora demorando cerca de uma hora de viagem entre a sua casa e a Companhia. Não tem motorista. Durante as viagens está atento aos noticiários e aproveita para fazer alguns telefonemas relacionados com trabalho. Garante que é uma pessoa simples e do campo, onde foi criado. Quando chegou à Companhia das Lezírias quis dar um toque pessoal ao seu gabinete mas confessa que ainda não teve tempo. “Talvez nas férias”, diz com um sorriso. Diz que chega a trabalhar em média 12 horas por dia. Estar longe da família, nomeadamente da filha de 10 anos, é o que mais lhe custa. Os seus tempos livres são passados com a família e a ver futebol, modalidade que praticou quando era mais novo. Foi guarda-redes no Sporting Clube Viana do Alentejo. É sócio do Benfica. Também praticou ténis de mesa mas teve de abdicar por falta de tempo. Gosta de ler mas ultimamente as suas leituras estão confinadas a relatórios e documentos relacionados com as suas novas funções.Continua a ser professor na Universidade de Évora. Dá aulas aos fim-de-semana no âmbito de mestrados e doutoramentos. “Sou exigente comigo e com os outros”, garante. Ao abrigo das parcerias que a Universidade de Évora mantém já deu aulas em Santarém e em Luanda.“A Fundação Alter Real tal como está não é viável”O presidente da Companhia das Lezírias é por inerência presidente da Fundação Alter Real (FAR). Defende um gestor para cada uma das Instituições?A minha convicção é de que as duas instituições ficam a perder havendo um único gestor, porque são diferentes e exigem uma atenção a tempo inteiro. Eu sou apologista de que deve haver um gestor, chamemos-lhe um “presidente executivo” a tempo inteiro com presença física permanente na Fundação Alter Real e um gestor a tempo inteiro, presidente da Companhia das Lezírias, aqui em Samora Correia. Consegue-se muito mais rendimento do presidente se ele tratar apenas de uma das instituições. A Fundação Alter Real foi apontada como um dos motivos para a mudança de liderança da companhia. É uma fundação viável?É uma instituição que tem os seus problemas específicos que já estão diagnosticados. Foi uma tarefa árdua. Deitei-me muitas vezes de madrugada para fazer um diagnóstico apurado dos problemas da fundação. Tem problemas organizacionais, institucionais e, o principal, de ordem económico-financeira. Já apresentei um plano para a tornar viável, porque como está agora não é viável. Necessita de gestão e medidas rigorosas. Que medidas são?Digo-lhe que será viável sendo sustentada financeiramente, em parte, pelo serviço público e em parte pelo sector privado. Um dos pilares desse plano foi delimitar e definir o que é o serviço público dentro da fundação e valorizá-lo. Atribuir-lhe um valor, a que chamei Valor Económico do Serviço Público, em que o Estado será chamado a financiar a sua parte. O restante será gestão privada. Esse plano envolve despedimentos na fundação?Não vai envolver despedimentos, é um plano que mexe sobretudo nos ganhos de eficiência. Ver em que é que a Fundação Alter Real está a ser menos eficiente e introduzir uma gestão mais rigorosa que dê mais actividade a alguns sectores que estavam adormecidos.E a ideia de construir as novas instalações para a Escola Portuguesa de Arte Equestre no antigo regimento de cavalaria 7 em Lisboa?Esse projecto foi considerado não exequível pelo Ministério da Agricultura. É um assunto já passado. Desbloqueou recentemente um importante protocolo que se arrastava há vários anos…O protocolo entre a Associação Puro Sangue Lusitano, a Associação Brasileira de Puro Sangue Lusitano e a FAR, era um protocolo que já tinha passado por várias negociações, já se arrastava há quase 3 anos e foi assinado na sede da Companhia das Lezírias no dia 1 de Outubro. Avançava, recuava e não se conseguia chegar a bom porto. Em pouco tempo consegui reunir as condições para que isso tivesse acontecido. Recebi os representantes das associações e consegui reunir as condições para assinar esse protocolo, que é muito importante, porque estava eminente uma cisão entre as associações e isso seria dramático para a raça dos puro sangue. Foi uma grande vitória. Não tanto para mim mas para o sector equino e muito importante para Portugal.Quando se espera que a Fundação equilibre as suas contas?A fundação nasceu em 2007. Foram três anos de prejuízos. O de 2010 também foi e a Fundação há-de continuar a dar prejuízo até ao plano que apresentei ser implementado. A dívida deve andar à volta de 500 mil euros. O ano passado foi de quase 400 mil e no outro anterior rondou um milhão.
Presidente da Companhia das Lezírias lembra responsabilidade social e ambiental para afastar qualquer ideia de privatização

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