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Igreja de Azambuja foi pequena para acolher multidão no último adeus a Ortigão Costa

Igreja de Azambuja foi pequena para acolher multidão no último adeus a Ortigão Costa

Médido veterinário, ganadero e empresário conceituado na região faleceu aos 83 anos

Azambuja não tem memória de um funeral assim. Populares, cavaleiros, ex-ministros e homens de negócios compareceram a 1 de Dezembro à última homenagem ao médico veterinário, ganadero e empresário Ortigão Costa.

Edição de 07.12.2010 | Sociedade
“Tantas flores para o doutor. Palmas de glória. Tanta fome matou a mim e aos meus sete filhos”, chora enquanto vai acenando ao passar do carro funerário, Maria Vitorino, 69 anos. O funeral do médico veterinário, ganadero e empresário Ortigão Costa, que faleceu aos 83 anos em Azambuja, onde residia, na terça-feira, 30 de Novembro, vítima de doença prolongada, reuniu uma multidão. A igreja matriz da vila foi pequena para acolher todos os que lhe quiseram prestar a última homenagem na tarde de 1 de Dezembro. Ao último adeus compareceu o povo, mas também cavaleiros tauromáquicos (Manuel Jorge de Oliveira e António Ribeiro Telles), ex-ministros (Sevinate Pinto e Gomes da Silva), autarcas, campinos e empresários.“Não deve haver instituição de solidariedade no nosso concelho ou colectividade que não tenha tido o beneplácido e a ajuda por parte de Ortigão Costa”, disse a O MIRANTE o presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Joaquim Ramos, que garante que o concelho perdeu uma grande figura. “Em primeiro lugar porque é o símbolo do empreendedorismo aqui no concelho e depois porque era também muito preocupado com questões sociais”. O ex-ministro da agricultura, Sevinate Pinto, descreveu-o como uma pessoa humilde e agricultor excelente. “Era uma pessoa honrada, característica que vai sendo menos generalizada hoje em dia”.Luís Jorge Roldaen Ortigão Blanck Costa nasceu em Alcantarilha, Silves, Algarve, mas há mais de meio século que vivia na vila de Azambuja, na quinta da Fonte do Pinheiro, a descer sobre a lezíria. Em frente ergue-se a fábrica de transformação de tomate que na década de 50 acabou com o desemprego na Azambuja.A fábrica Sugal foi construída nos terrenos do sogro, engenheiro Moniz da Maia, figura ilustre de Azambuja e um dos grandes promotores imobiliários da época, que em 1957 aceitou o desafio de participar na sociedade da empresa.O médico veterinário, então funcionário do Direcção Geral dos Serviços Veterinários, deixou Lisboa e partiu à aventura por terras do Ribatejo, de onde é originária a esposa, Maria Berta Moniz da Maia Ortigão Costa.É na “Herdade de Alcobaça”, naquela cidade alentejana, que pastam os toiros bravos marcados a fogo com o ferro de uma das mais reputadas marcas a nível internacional – OC - Ortigão Costa.Na vila de Azambuja está concentrada a coudelaria da família, a produção de leite, fábrica de transformação de tomate, culturas agrícolas e suinicultura.O patriarca da família de sete filhos – quatro rapazes e três raparigas - fez gradualmente a sucessão. Construiu um império em anos difíceis para os empresários portugueses. O rigor e o perfeccionismo eram características da sua personalidade.No dia da entrevista, como em muitas ocasiões, vestia fato escuro e gravata ao estilo clássico. Relógio de bolso pendurado com cordão prateado. Pontualidade rígida. Era um observador treinado. Não lhe escapava nem o pormenor do desnivelamento dos quadros pendurados na sala de convívio entre a coudelaria e o picadeiro.A disciplina exasperada era temperada com bom humor e cavalheirismo. Diz quem o conhece que dava a mão a quem precisava. Recusava qualquer rótulo político. A sua ideologia era a Igreja Católica. Ortigão Costa, com origem espanhola e alemã por via das avós materna e paterna, descrevia-se à boa maneira dos ganadeiros. “Sou um híbrido”, confessou em entrevista a O MIRANTE em 2006 entre duas gargalhadas.“Os toiros deviam morrer nas praças” Excerto de uma entrevista de Ortigão Costa a O MIRANTE em 2006 A ganadaria que criou há 50 anos tem prestígio internacional. Costumava acompanhar as corridas em que participavam os seus toiros?Fiz sempre questão de ir, mas nem sempre fui (risos). Em Barcelona era ir e vir quase no mesmo dia. Gostava de acompanhar as corridas para saber orientar a ganadaria e observar o comportamento do toiro. Para tentar melhorar…A criação de toiros é muito complexa…Para mim é dos animais mais complexos de criar.Porquê?É um animal que não se pode ver de perto. É difícil de observar. As fêmeas apreciam-se conforme a tenta, mas os toiros só se podem apreciar aos quatro anos quando vão para as corridas. Fica-se quatro anos com os olhos um bocado fechados. Um bom toiro e uma boa vaca podem dar um filho que não presta. E no ano seguinte dar um filho muito bom. São todos diferentes. Os resultados de uma cobrição levam muito tempo a ver-se. É uma genética muito complicada. Mesmo juntando todos os elementos o toiro pode não sair como nós queremos. Ou sai manso ou sai bravo.O que são bons toiros?Toiros que investem bem. Que aguentam a corrida, que não caem, que transmitem a sua força. O toiro que não investe, que não corre, não transmite nada. E a corrida de toiros é um espectáculo de emoção.O espectáculo em Portugal está a perder força?O toureio a cavalo está em boa forma. O que não percebo é porque não se faz como em Espanha. Com a morte do toiro. À espanhola. Só vai ver quem quer. Também nunca vi um espectáculo de boxe...É defensor dos toiros de morte…Não faz sentido que aqui não exista. Em França, Espanha e na América Latina isso acontece. É muito mais cruel para um toiro ser corrido a uma quinta-feira, por exemplo, levar os ferros e ficar a sofrer com febres até ao dia de ir para o matadouro, geralmente à segunda-feira, com as feridas já infectadas. E há outra coisa. Tanto o toiro como o homem quando está em luta leva uma pancada e quase que nem sente. No ardor da luta toda a sua sensibilidade fica muito embotada. Não sofre aquilo que se pensa e que se diz. Sofre sim se ficar ali a noite toda à espera de ir para o matadouro.Renovada Praça de Toiros de Azambuja vai ter nome de ganaderoA Praça de Toiros de Azambuja, que vai ser alvo de uma intervenção já aprovada em sessão de câmara e que custará 600 mil euros, vai receber o nome do ganadero Ortigão Costa, falecido a 30 de Novembro último. A garantia foi dada pelo presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Joaquim Ramos. O médico veterinário e empresário ajudou a erguer a actual praça.Joaquim Ramos fez o anúncio durante a cerimónia de entrega dos troféus da temporada 2010, que decorreu no sábado à noite, 4 de Dezembro, nas instalações da Associação Cultural Poisada do Campino, promotora do evento, em Azambuja.
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