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No tempo em que se vivia da terra em Samora Correia

No tempo em que se vivia da terra em Samora Correia

Exposição sobre as tapadas pode ser vista no Palácio do Infantado até 29 de Janeiro

O auge das tapadas, fazendas onde famílias inteiras trabalhavam para retirar da terra o seu sustento, aconteceu nos anos 50 e 60 do século passado. A Companhia das Lezírias alugou terrenos a alguns particulares que passaram a ser autosuficientes. A memória de um passado recente serviu de ideia para a exposição “Terra de Tapadas”. O coordenador do trabalho, Joaquim Salvador, é filho de tapadeiros. A mostra pode ser vista no Palácio do Infantado, em Samora Correia, Benavente, até 29 de Janeiro de 2011.

Edição de 07.12.2010 | Sociedade
Uma fachada caiada ligeiramente ensombrada por parreiras. Em frente à porta uma bicicleta a pedal para ir à vila. A mulher a lavar a roupa no tanque com sabão e o homem a trabalhar a terra. Ali mesmo ao lado as galinhas, as coelheiras, as alfaias e a leiteira. É a casa do tapadeiro - um dos ambientes recriados na exposição “Terra de Tapadas”, que pode ser vista até 29 de Janeiro de 2011, na galeria 2 do Palácio do Infantado, em Samora Correia, concelho de Benavente.O fenómeno das tapadas (fazendas) não era isolado, mas em Samora Correia os fazendeiros eram também assim conhecidos. “Gosto das exposições em que as pessoas possam identificar os ambientes tal qual como eram”, descreve Joaquim Salvador, o coordenador da exposição, filho e neto de tapadeiros de Samora Correia, que colabora regularmente com a Câmara Municipal de Benavente e com pelouro da cultura na organização de exposições.O dicionário explica que tapada é “espaço limitado por um tapume” ou “mata cercada por um muro dentro do qual se cria caça”. Joaquim Salvador escolheu tapada para designar as courelas vedadas de onde as famílias retiravam o seu sustento. “As tapadas tinham cancelas porque os toiros também passavam ali perto. Samora Correia era terra de tapadeiros”, explica Joaquim Salvador. A ideia da exposição surge também na sequência das comemorações do centenário da República. “A ideia das tapadas começa na Companhia das Lezírias no século XX com o aluguer de terrenos a pessoas que conseguiam assim o seu auto-sustento. Na tapada tudo se produzia. Vendia-se e vivia-se da terra”. As terras foram alugadas. Mais tarde alguns fazendeiros chegaram a comprá-las. “A ideia da tapada é posta de pé com a República e morre nesses 100 anos. Hoje em dia há resquícios, mas não o conceito da tapada que existia: viver daquele pedaço de terra e de criar os filhos ali. As tapadas foram retalhadas entretanto”, explica Joaquim salvador enquanto faz uma visita guiada pela exposição.Frente à casa do tapadeiro está recriada a hora da bucha. O bacalhau seco, pão amassado em casa que se comia com mais de oito dias, duro, o café que se fazia na chaminé e a água pé ou o vinho produzido na tapada. A linguiça era acompanhada com salada de tomate e pepino. Tudo produzido na terra. A mesa que integra a exposição foi resgatada a um barracão velho de antigos tapadeiros. Outros dos objectos foram cedidos pelo Museu Municipal de Benavente.A exposição recorda também a carroça onde os fazendeiros levavam os produtos da terra e os filhos, acondicionados entre laranjas, abóboras, uvas e figos. A grande festa dos tapadeiros era também a tradicional matança do porco. “Não havia frigoríficos, a carne conservava-se nas salgadeiras. Era uma reunião porque se convidavam os amigos. Era um dia em que a família se juntava”.O dinheiro era pouco e no início os terrenos eram pouco férteis. A terra tinha que ser estrumada. “Passaram graves necessidades. Só quando os terrenos começam a ficar mais férteis a vida melhorou”. Os produtos que se retiravam da terra também eram vendidos pelas tapadeiras às pessoas da vila. A praça semanal era improvisada frente ao Palácio do Infantado com sacas de serapilheira no chão. O tapadeiro produzia todos os bens, inclusivamente carne. Criava porcos, galinhas, produzia frutas (figo, laranja, romã, pêssegos, maças, e uva), batata, legumes, vinho e a água pé. O peixe chegava às tapadas pelas varinas de Vila Franca. Os compradores reuniam a mercadoria e por isso há memória de ver sacas da batata nova à espera que passasse a camioneta.Os tapadeiros trabalhavam de sol a sol. “Há a ideia de que o tapadeiro vivia bem, mas trabalhava muito. Não tinha fins de semana e havia quem tivesse mais do que uma tapada para retirar daí mais algum dinheiro”. Muitas famílias eram alargadas e no campo trabalhava o rancho de filhos. Depois, na década de 80 do século passado, os fazendeiros começaram a ter o sonho de ver os filhos trabalhar na fábrica e, mais tarde, de os ter a estudar.Com o aumento da população e o nascimento nos anos oitenta de grandes urbanizações a agricultura começou a perder força e os fazendeiros abandonaram algumas terras. Grande parte das urbanizações de Samora Correia têm os nomes das tapadas que lá existiam, como é o caso de Oliveirinhas ou Cegonhas. O espírito das tapadas perdeu-se. “Hoje em dia quem é que trabalha a terra? Poucos têm essa paixão. Foi uma coisa que se perdeu e segundo a minha ideia vai ter que voltar”, diz um filho de tapadeiros.Conceição ou a história de uma tapadeiraConceição Serra Salvador tem 77 anos. É filha de tapadeiros de Samora Correia, concelho de Benavente, fazendeiros que subsistiam com o que a terra dava. Para comer e vender. Aos três anos os pais, que enfrentavam graves dificuldades para criar os 14 filhos, entregaram-na aos cuidados dos padrinhos. A mãe levou-a descalça e com um vestido singelo num momento que nunca mais esqueceu.O pai chegou a trabalhar à jorna para fazendeiros, mas certo dia um “patrão” que sabia da sua vida de tristeza e fome, já com filhos a seu cargo, propôs-lhe o aluguer de uma terra. Lá estiveram 19 anos. As terras que os pais cultivavam, como outros fazendeiros, eram pagas a trigo aos proprietários. “Houve um ano que correu mal e o trigo não encheu o bago. Deu poucas saquinhas. Mesmo assim o meu pai levou as sacas ao patrão. O senhor perguntou-lhe: «Henrique, com quantas sacas ficaste para dares aos teus filhos de comer?». O meu pai respondeu: «Nenhuma. Compro o pão que puder », recorda Conceição comovida. Mas o patrão pediu que o pai de Conceição Salvador não retirasse as sacas de trigo de cima do carro para que pudesse ir ao moinho e fazer pão para os 14 filhos. Um ano seco era sinónimo de fraca cultura. “Não havia furos. Antigamente era só a chuvinha de cima. Quando não chovia adeus. Nem havia batata nem havia milho”, explica Conceição Serra Salvador.Conceição Serra Salvador cresceu não muito longe, trabalhou com os padrinhos na terra, tapadeira se tornou. Aos 12 anos já amassava pão. Casou aos 23 anos. Vive na casa da quinta das pedras brancas desde que casou há 57 anos, propriedade do sogro. Começou na altura a ajudar o marido a cultivar a terra. Enquanto o rendimento não se retirava do solo que cultivava também foi trabalhar no campo. Trabalhou de sol a sol. A força de braços era quem mais ordenava para o trabalho da terra com enxadas, ancinhos, sacholas. Parava apenas para comer. Criou porcos, coelhos, galinhas e tinha ovos com fartura. Semeou cebola, cenoura e laranja. “Só ia comprar a mercearia”.Quando o único filho chegou, 12 anos depois, levou-o sempre consigo mesmo em dias de trabalho. No caixote pintado de verde o menino era transportado na carroça puxada por um macho. “Ia no caixote com um colchão, com os seus lençóis por baixo e por cima, com as suas fraldinhas e com o seu leitinho”, conta a mãe com carinho. “Nunca o entreguei a ninguém”, esclarece. Mesmo quando trabalhava na fazenda dos Arados e o caminho era longo no Inverno levava um plástico para o proteger da chuva. Trabalhou e comprou a mobília que queria para a sua casa de tapadeira que tinha de raiz apenas uma cozinha e dois quartos. Com o tempo e poupanças feitas foi acrescentando hoje divisões à casa que a acolhe. A lareira crepita na sala de estar. Há abóboras meninas no corredor, marquise de vistas largas para o campo onde sempre ganhou a vida. É viúva há 20 anos.Conceição Salvador acredita que a crise poderia ser menor se a terra voltasse a ser cultivada. “O pessoal novo hoje não quer fazer nada. Querem tudo já feito, café – restaurante. A perda do país foi o Governo mandar parar de semear. Aí é que foi a morte”, sentencia a tapadeira.
No tempo em que se vivia da terra em Samora Correia

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