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Como o povo de Benavente e Salvaterra de Magos reagiu ao terramoto de 1909

Como o povo de Benavente e Salvaterra de Magos reagiu ao terramoto de 1909

Novo livro de Domingos Lobo retrata um Ribatejo de gente “pobre e analfabeta”

O vencedor do prémio de teatro Bernardo Santareno – Domingos Lobo – colocou em livro uma das suas últimas peças: “Cenas de um terramoto”, um relato histórico sobre o tremor de terra que assolou os concelhos de Benavente e Salvaterra de Magos em 1909. A obra foi apresentada em Vila Franca de Xira.

Edição de 15.12.2010 | Cultura e Lazer
O pânico de uma população pobre e analfabeta, a indiferença da igreja face à miséria que se instalou nas ruas e a despreocupação da monarquia em relação ao acidente são alguns dos temas fortes do livro “Cenas de um Terramoto”, de Domingos Lobo, escritor vencedor do prémio de teatro Bernardo Santareno. O escritor coloca em “Cenas de um Terramoto”, da editora Fonte da Palavra, a peça que levou ao palco do cine-teatro de Benavente em Abril de 2009 e que relata com precisão histórica os momentos de terror de um dos eventos mais destruidores que a região já viveu até hoje – o terramoto de 1909, que atingiu especialmente Samora Correia, Benavente, Santo Estêvão, Barrosa e Salvaterra de Magos. A população de ambos os concelhos reagiu como pôde a um sismo que deixou poucas estruturas intactas. A incompetência das forças de socorro e dos governantes, a fome da população e os milhares de desalojados nos dias seguintes ao terramoto revoltaram o povo (ver caixa).O livro foi apresentado em Vila Franca de Xira na noite de 9 de Dezembro no auditório da Junta de Freguesia da cidade, numa iniciativa da Cooperativa Alves Redol e da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. “Esta é uma história de gente de força que se conseguiu erguer de um evento sem precedentes, de uma violência extrema”, afirmou Pedro Lagareiro, escolhido para ser um dos apresentadores da obra. O escritor Sérgio Sousa preferiu destacar o papel inerte da igreja ao longo de todo o drama. “A história transporta-nos para um país de forte tradição católica onde muitos passavam fome”, defendeu.Pautado pelas falas do povo que viveu na pele o terramoto o livro de Domingos Lobo estrutura-se em dois tempos. O primeiro, mais detalhado, tem início no dia do terramoto e prolonga-se pelo período em que as consequências da catástrofe são mais gravosas. O segundo foca-se na lenta reconstrução. Domingos Lobo, que é também encenador do grupo de teatro “Sobretábuas” de Benavente diz ter escrito a peça para assinalar o centenário do terramoto e deu um papel de destaque a uma mulher. “Algumas mulheres foram pioneiras, da liberdade, igualdade e até da República. A minha principal personagem, feminina, representa os anseios de todas as mulheres daquele tempo”, esclareceu Domingos Lobo na apresentação da obra.O auditório da junta de freguesia encheu-se de populares para ouvir a apresentação do livro mas também para ouvir passagens da obra, pela voz do autor e de alguns elementos do grupo de teatro “Sobretábuas”. No final ainda houve tempo para alguns fados da época, interpretados também por elementos do grupo de teatro.Domingos Lobo, programador cultural na Câmara Municipal de Benavente e encenador, nasceu em 1946 em Nagozela, Santa Comba Dão. Tem mais de uma dezena de títulos publicados. Venceu em 2009 o prémio literário Cidade de Almada com o livro “Para Guardar o Fogo” e a segunda edição do prémio nacional de teatro Bernardo Santareno, com a peça original “Não deixes que a noite se apague”. Fez jornalismo e crítica de teatro e tem publicadas várias peças de teatro, romances e livros de poesia.A tarde em que a terra tremeu no RibatejoDia 23 de Abril de 1909. Passavam cinco minutos das 17h00 horas quando um forte abalo sísmico arrasou com violência uma parte do Ribatejo e se fez sentir por todo o país. Em Benavente “não ficou uma casa de pé”, segundo os arquivos históricos do Museu Municipal de Benavente, que citam o “Estudo Histórico e Descritivo de Benavente”, de Rui de Azevedo. As comunicações telegráficas foram interrompidas e as primeiras notícias do que aconteceu só chegaram a Santarém horas depois, por intermédio de um lavrador. A população, em pânico, começou a juntar-se no largo do Chaveiro. Só pelas 23h00 começaram a chegar carros de Santarém com o Governador Civil, chefe da polícia, guardas e bombeiros. Em Benavente 24 pessoas perderam a vida. Em Samora Correia uma dezena e meia. Segundo os relatos históricos, ao longo da noite, “ouvem-se fortes e prolongados ruídos subterrâneos”. Só no dia seguinte seguiu de Lisboa uma força militar e tendas de campanha. Os feridos começam a ser transportados num barco a vapor para Lisboa. O rei D. Manuel visita os locais atingidos. A 26 de Abril a fome sente-se e os mantimentos são insuficientes. “Embora existam cerca de 1000 sacos de farinha não foram providenciados fornos para cozer o pão”, referem os arquivos do Museu. Um conselho de Estado reúne-se para decretar a abertura de um crédito especial de 100 contos de reis para a catástrofe. A 28 de Abril um jornalista do britânico “Times” visita Benavente e mais tarde escreverá sobre a incapacidade do país em lidar com a tragédia, sobretudo no que diz respeito à falta de mantimentos e madeira para a construção de abrigos.
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