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Estudantes, domésticas e operários foram ouvir o “animal político”

Mário Soares esteve na Biblioteca da Póvoa e cativou público de vários estratos

Mário Soares esteve na Biblioteca da Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira, e a casa encheu. Estudantes, domésticas, professores e operários foram ouvir a figura polémica mas incontornável da história contemporânea.

Edição de 30.05.2012 | Sociedade
Ainda faltam alguns minutos para as 16h00, hora marcada para o início do encontro com Mário Soares na Biblioteca Municipal da Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira, mas Pedro Rei, 20 anos, já aguarda à entrada da porta, de casaco escuro e livro para o escritor autografar debaixo do braço. Um estudante do primeiro ano de História residente na Póvoa não poderia ver passar pela sua cidade uma das maiores figuras da história contemporânea sem parar para ouvir. Partilha da ideologia socialista mas mesmo se assim não fosse lá estaria para o ouvir.“Um historiador tem que estar sempre em contacto com a vida política. Independentemente da ideologia, temos sempre algo a aprender com o outro”, diz com sabedoria. Está à espera de ver entrar Mário soares como estaria se fosse Cavaco Silva ou Francisco Sá Carneiro, se ainda fosse vivo. “Falar em história contemporânea sem falar de Mário Soares é um erro crasso”, continua. A figura é incontornável. O estudante admira o político, o revolucionário e olha-o com toda a carga ética e simbólica da liberdade que transmite tendo-se batido contra o regime ditatorial. Pedro Rei e Marcelo Silva, 18 anos, também estudante de História, estão entre os poucos jovens que vieram para ouvir Mário Soares. “Não nos podemos esquecer de que há o Rock in Rio”, sublinha Marcelo Silva para reconhecer pouco depois que não será só por isso. Muitos não souberam e se soubessem até poderiam ter aparecido. “Mesmo que as pessoas não estejam particularmente interessadas em ouvir Mário Soares falar sempre é a oportunidade de ver uma figura política”.Marcelo, também residente na Póvoa, veio um pouco por curiosidade, um pouco arrastado pelo camarada Pedro Rei. Tem admiração pelo animal político. Reconhece-lhe o papel mas não partilha exactamente dos seus ideais. “Ainda não me sedimentei bem ao nível ideológico”, justifica.Mas há quem venha ouvir Mário Soares por pura convicção. Armando Gomes da Silveira tem 71 anos, mora na Póvoa, é socialista e admira Mário Soares desde o 25 de Abril. “Na primeira entrevista a que assisti chamaram-lhe doutor e ele disse «aqui não somos doutores. Aqui somos todos iguais». Foi na cantina da Petrogal, onde trabalhei, a seguir ao 25 de Abril. Acho que é um dos maiores políticos portugueses. É pena que não sigam a linha dele”, diz com os olhos brilhantes, quase comovido. Para casa leva um exemplar do livro “Um político assume-se” mas confessa que não é Soares, o escritor, que mais o fascina. “Livros dele não tenho lido, mas gosto de o ouvir falar”.Da plateia, no final da conversa um anónimo lança uma pergunta. “O seu livro chama-se «Um político assume-se». Mas nos dias de hoje, com os constrangimentos por que passamos como se pode assumir um trabalhador”? Segue-se depois a professora que disserta sobre as vantagens da integração na União Europeia. Soares, o professor, mais do que responder, elogia.Eugénia Tavares, residente no Forte da Casa, doméstica, não veio para fazer perguntas mas para acompanhar o marido, técnico de manutenção de aeronaves reformado, e ouvir. “Acho que é um homem bom e para se ser um bom político tem que se ser um bom homem”. Tendo Maria de Lurdes o bichinho da política, paixão que conduz a sua vida, seria inconcebível deixar passar Mário Soares pelo concelho sem o ouvir. É eleita pelo PS na assembleia de freguesia de Alverca, onde reside. Mesmo que o convidado não fosse socialista estaria na biblioteca para ouvir o político que o seu pai acompanhou na clandestinidade.Maria de Lurdes, 50 anos, funcionária pública na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, já tinha lido o livro e a conversa foi ao encontro daquilo que estava à espera. “É sempre uma maravilha ouvir Mário Soares. De uma conversa como esta nós nunca saímos como entrámos. Vamos sempre mais ricos”.Quando Salazar caiu da cadeira Soares estava a cortar o cabeloQuando Salazar caiu da cadeira Mário Soares estava a cortar o cabelo numa barbearia de São Tomé e Príncipe para onde foi deportado. Ouviu a notícia na rádio, esqueceu os 12 polícias que tinham por missão controlá-lo e gritou “O Salazar vai morrer!” saindo a correr pela rua. Na emissora nacional tinham acabado de anunciar que o presidente do conselho, Oliveira Salazar, tinha sido submetido a uma intervenção cerebral que correu bem e estava em franca melhoria. O governador civil de São Tomé, que estava proibido de falar a Mário Soares, chamou-o depois de lhe ter chegado aos ouvidos que Mário Soares tinha dito que Salazar ia morrer. “Ele tem 80 anos e um problema cerebral é uma coisa complicadíssima”, explicou então Mário Soares ao Governador Civil que lhe perguntou seguidamente o que aconteceria. “Depois vai ser substituído”, respondeu. “Por quem?”, voltou a perguntar o governador. “Por Marcelo Caetano que é a pessoa que lhe está mais próxima”, disse Mário Soares recordando o diálogo premonitório com o governador e arrancando alguns sorrisos à audiência que na tarde de sábado, 26 de Maio, encheu a Biblioteca da Póvoa de Santa Iria, Vila Franca de Xira.

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