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Histórias de quatro tertúlias que mantêm a tradição em Vila Franca de Xira

Junta de Freguesia homenageou 38 tertúlias no activo com o diploma de mérito identitário

Copos de vinho sobre a mesa e dois dedos de conversa. Os toiros são assunto obrigatório. Trinta e oito tertúlias receberam da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira o diploma de mérito identitário. O MIRANTE deixa aqui a história de quatro.

Edição de 06.07.2011 | Sociedade
Este texto é sobre quatro histórias de Vila Franca de Xira: a de um campino tão pesado que quase matava o cavalo quando o montava, a de um grupo de homens que queria um lugar mais espaçoso para beber vinho e jogar às cartas, de uma família que quis evocar a tradição da campinagem no concelho e de um grupo de amigos apaixonados pela praça Palha Blanco.Quatro vila-franquenses de quatro tertúlias da cidade partilharam com O MIRANTE as histórias no dia em que a Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira distinguiu 38 tertúlias com o diploma de mérito identitário entre outras instituições e personalidades (ver outros textos nas páginas 4 e 27). A cerimónia decorreu na terça-feira, 28 de Junho, Dia da Cidade. As tertúlias são espaços onde grupos de amigos se juntam para comer, beber e conversar sobre vários assuntos, especialmente tauromaquia. Algumas são verdadeiros museus que guardam importantes espólios da festa brava e registos de uma Vila Franca de outros tempos. “O objectivo foi homenagear um homem que deu muito à festa de Vila Franca que era António Manuel Caetano, campino na Companhia das Lezírias. Tivemos a ideia de juntar um grupo de amigos e familiares e abrir a tertúlia em sua homenagem, o que fizemos em 2005”, refere Leonel David, 45 anos, responsável da tertúlia “O Mata-Cavalos”. A alcunha pela qual era conhecido António Caetano deu nome à tertúlia. “Chegavam a dizer para ser ele a carregar o cavalo”, diz com uma gargalhada Eduardo Abreu, presidente de “Os Parras”. A sua tertúlia nasceu num café da cidade. “A malta precisava de um sítio para jogar às cartas e não podia estar sempre nos cafés e nas tabernas. Lembrámo-nos então de criar a tertúlia “Os Parras”. Desde então há espaço para jogar e para beber”, refere.Em 1977 nasceu a tertúlia “O Campino”, para homenagear a campinagem de Vila Franca de Xira. “É gente nobre que merece ver o seu valor distinguido”, refere José Fernando, 53 anos. Quem também quer preservar a identidade de Vila Franca é a tertúlia “Palha Blanco”. Nasceu em 1999 por iniciativa de um grupo de amigos mas só foi registada na câmara municipal em 2010. “A praça é um espaço mítico da cidade que está muito ligado à festa brava e achamos que devemos preservar as suas memórias”, defende Fernando Baptista.Nas tertúlias fala-se de futebol, política e toiros. Especialmente toiros. As festas do Colete Encarnado são o ponto alto do ano para as tertúlias que abrem as portas para mostrar a todos o espólio existente. Desenganem-se os que pensam que as tertúlias são como grupos “maçónicos”: aqui não há obrigatoriedade de ser da família ou amigo de um membro para fazer parte do grupo. Mas, como em tudo, só é bem-vindo quem vier por bem. As quatro tertúlias reúnem-se uma vez por mês. Os almoços chegam a durar horas. Em algumas, caso de “Os Parras”, realizam-se tardes e noites de fados. “A tertúlia está aberta a quem a quiser visitar. Também damos algumas explicações sobre o que lá temos mas basicamente serve para almoços e copos”, diz com um sorriso Leonel David. O bem mais precioso da tertúlia “O Mata-Cavalos” é uma das fardas do campino António Caetano.“Convido com frequência outras tertúlias do país para virem conhecer “Os Parras” porque procuro levar o que é de Vila Franca a outras pessoas”, explica Eduardo Abreu. Dois painéis em azulejo, um da tertúlia e outro do fadista Manuel Fininho, são os artigos mais importantes.Conhecer mais da festa brava e da cidade é o convite lançado por José Fernando da tertúlia “O Campino”. A sua tertúlia “é mais familiar” mas tem um traje de campino e várias cabeças de toiro que “devem ser vistas”. Já por diversas vezes Fernando Batista abriu a sua tertúlia a turistas. A última aconteceu há pouco tempo para um grupo de militares que queria descobrir mais sobre Vila Franca. “Um amigo quis mostrar a aficion a outros camaradas e abri a tertúlia. Ficaram encantados com o ambiente”. Os artigos mais importantes são um quadro da praça pintado à mão e um rabo e orelha oferecidos pelo filho do matador Mário Coelho.Os quatro amigos garantem que querem continuar a preservar a cultura tauromáquica de Vila Franca de Xira e confessam que, mesmo em tempo de crise, nunca faltará o pão e o vinho na mesa. Ou não fossem estes exemplos daquilo que é a verdadeira tertúlia portuguesa, com certeza.

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