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Jean Campiche

Jean Campiche

Escultor, 64 anos, Aveiras de Baixo (Azambuja)

O escultor Jean Campiche é director da Escola Superior de Educação de Santarém e reside em Aveiras de Baixo, no concelho de Azambuja. Nasceu em Genebra há 64 anos mas sente-se mais africano que suíço. Vive em Portugal há mais de duas décadas. Gosta de cozinhar e de reconstruir casas. Ajudou a pintar a escola onde trabalha e decorou o seu gabinete onde a organização impressiona. Usa a auto-estrada para ir trabalhar. Chegou a circular pela nacional, no início, mas desistiu da ideia por causa dos tractores e burros com que se cruzava.  

Edição de 06.07.2011 | Três Dimensões
Adoro reconstruir casas. Já o fiz com uma quinta do século XVII na Suíça e estou a fazer o mesmo em Aveiras de Baixo. Também modifiquei a escola. Pintei a entrada e cada edifício passou a ter uma cor diferente para ser reconhecível. O meu atelier tem vista para o Vale do Paraíso, uma terra com o nome perfeito. Construí-o no lugar de uma antiga vacaria, na Quinta de Santo Espírito, em Aveiras de Baixo [concelho de Azambuja], onde vivo. Encontrei a quinta por um acaso. Foi a minha esposa na altura [Ana Benavente] que viu um anúncio no jornal diferente de todos os outros. Já tínhamos decidido deixar a Suíça. A quinta era tão bonita que ficámos logo com ela. Cheguei a ir para o trabalho pela estrada nacional mas desisti porque encontrava muitos tractores e burros. Isso há vinte anos. Agora vou sempre pela auto-estrada. Demoro vinte minutos até Santarém. As portagens são caras. Na Suíça paga-se 30 euros por ano de utilização da auto-estrada. Aqui pago cinco euros por dia. Mesmo assim vale a pena pelo descanso que me permite. É mais rápido e não preciso de pensar na estrada.Sinto-me mais africano que suíço. Viajei muito pelo mundo. Atravessei a África de jipe. Trabalhei com os movimentos de libertação das colónias portuguesas. Já na Suíça tinha grandes amigos ruandeses. Sempre tive uma ligação muito forte desde pequeno com África. É verdade que também me sinto um pouco português. Já aqui passei mais de um terço da minha vida. Sou muito arrumado. Não consigo trabalhar de outra maneira. Já não uso agenda em papel. Sou adepto das novas tecnologias. Só trabalho com i-Pad. Uma das minhas tarefas, como director da Escola Superior de Educação de Santarém, é fazer desaparecer o papel.Não consigo ficar parado a olhar para a televisão. Fico irritadíssimo comigo se não faço nada em casa. Há quarenta anos que preparo as refeições. Adoro cozinhar. Vou às compras quase todos os dias. Mesmo quando é só para mim. Quando estava em Timor a minha filha ligava-me para me perguntar como se fazia determinado prato. Quando completei 50 anos convidei 15 pessoas e demorei três dias a fazer o jantar. Preparei cinco entradas, com ingredientes como camarão e caviar, três pratos e uma sobremesa. Até fiz as trufas de chocolate para o café. Só tive a ajuda de uma empregada que me ajudou no momento no fogão. Preparei uma escultura pequena para cada um que coloquei em cada lugar, alusiva a cada pessoa, para que cada um se reconhecesse. Quando era jovem chegava a ver cinco filmes no mesmo dia. Deslocava-me de mota para andar de sala de cinema em sala de cinema com maior rapidez. A figura da mulher é a base da minha inspiração. É o melhor exercício para a mão e para a cabeça. Sempre achei os modelos masculinos muito mais fáceis de desenhar. É tudo muito mais recto. Com a mulher isso não acontece. Acho que é porque sinto mais o corpo da mulher. O corpo do homem não me interessa muito e logo é mais fácil de desenhar. No Verão passado fui para as Caraíbas mas este ano vou ficar cá para construir a piscina. Tenho uma escultura para fazer, encomenda da EDP, que tenho que honrar. O meu filho disse que vinha ajudar-me. Vou aproveitar. O meu pai era pastor protestante. Sentia-se muito o peso da religião, da ética, da moral. Só uma vez é que o meu pai tentou bater-me. Não conseguiu porque eu fugi. Tinha respondido mal à minha mãe. Isso era uma coisa intolerável mas aconteceu só um vez. Para poder reivindicar temos que ser os melhores. Sou da geração de Maio de 1968. Sempre trabalhei para poder exigir depois. Caso contrário não há base de sustentação. A crise é um pouco por causa disso. Queixamo-nos mas não fizemos o suficiente. Durante os primeiros quarenta anos da minha vida tive imensa sorte. Agora tenho momentos mais pesados como toda a gente. Mesmo assim acho que continuo a ter sorte. “Bien fair et laisser braire”, provérbio francês, é o meu lema de vida. Já era a divisa da minha família. No fundo quer dizer que devemos fazer acima de tudo o bem. Ana Santiago
Jean Campiche

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