uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
30 anos do jornal o Mirante
Gestão autárquica tem de ir além do saneamento básico e do alcatrão

Gestão autárquica tem de ir além do saneamento básico e do alcatrão

Ana Casquinha, vereadora do PS em Benavente, critica “visão limitada” dos autarcas do pós-25 de Abril

A vereadora do PS na Câmara Municipal de Benavente, Ana Casquinha, nasceu em Lisboa mas vive desde pequena em Samora Correia, concelho de Benavente. Diz que é precisa uma nova visão no poder autárquico para se construírem as cidades do futuro.

Edição de 13.07.2011 | Entrevista
O PSD venceu as legislativas em Benavente. É um sinal de alarme para o PS?Não. As pessoas precisavam urgentemente de uma mudança. Nas eleições autárquicas vota-se mais na pessoa do que no partido. Em outros concelhos passa-se o mesmo. Também não acredito que nas próximas eleições vença a CDU. O actual presidente de câmara, António Ganhão (CDU), já não poderá recandidatar-se. O PS tem mais hipóteses. Vai voltar a ser candidata?O meu nome está em cima da mesa como qualquer outro. Vai ser um processo longo mas o PS já o iniciou. Queremos fazer um trabalho rigoroso. Aqueles que melhor trabalharem terão mais hipóteses de vencer. Às vezes conseguimos dar a conhecer à população o trabalho que vamos desenvolvendo mas não é fácil. O PS tem trilhado esse caminho. Estamos num concelho estratégico. Somos atravessados por vias de comunicação que ligam o norte ao sul. Falta-nos a visão de futuro. Sinto pena de ter em Samora, por exemplo, um centro cultural de 298 lugares. No cinema estão cinco pessoas mas quando temos uma actuação do grupo de teatro as pessoas empurram-se para entrar. Temos que querer mais. Não nos podemos dar por satisfeitos com o que temos.Mas ao nível da renovação do parque escolar Benavente tem feito muito com a construção dos parques escolares, por exemplo.Não chega. Há obra feita mas ainda há um ano eu insistia que os centros já não teriam capacidade para albergar o número de alunos necessário. Se queremos que a escola acompanhe o horário dos pais, que é algo que já se faz na Europa há 40 anos, não podemos concordar que em Benavente ainda se pratique o horário duplo. O que mais defende para o concelho?Mais do que saneamento básico e alcatrão, uma visão limitada que é própria dos autarcas do pós 25 de Abril. Queremos construir cidades de futuro, localidades com todas as infra-estruturas. Precisamos de mais jardins e mais infra-estruturas culturais e sociais. Isso engrandece o concelho. Podíamos ter aproveitado para fazer obra antes da crise chegar. O dinheiro foi canalizado para a gestão corrente sem visão de futuro. Se há 10 anos se tivesse avançado com uma área industrial de última geração, como fez a Azambuja [gestão socialista], por exemplo, que chamou os investidores, estaríamos bem melhor. Nós ficámos aqui parados.O Censos 2011 indica que o concelho de Benavente foi o que ganhou mais população no distrito de Santarém embora muito à custa do crescimento da freguesia de Samora Correia. É bom sinal?É normal que as famílias escolham o concelho para viver. Benavente continua a ter menos população que Samora Correia mas isso deve-se sobretudo à área da freguesia. Não podemos esquecer que Samora Correia é a terceira maior freguesia do país em termos de área geográfica com 322 quilómetros quadrados. Continuamos a ter espaço para receber mais construção mas honestamente não queria ver tudo ocupado com prédios. Temos moradores suficientes.Samora Correia é uma verdadeira cidade ou tem apenas esse estatuto?Infelizmente tem apenas esse estatuto. Há muita gente da periferia de Samora Correia que quando vai ao centro ainda diz que vai à vila. A população merecia mais. Faltam infra-estruturas adequadas ao número de habitantes. A Unidade de Saúde Familiar não é suficiente, por exemplo, mas para solucionar essa questão é preciso que o problema nacional da falta de médicos seja ultrapassado. Também merecíamos pelo menos uma loja do cidadão que evitasse que os mais idosos e carenciados tivessem que ir de autocarro às finanças e à conservatória. Não houve ainda vontade política suficiente de todos os envolvidos para tornar isso uma realidade. A junta de freguesia poderia ter um papel mais activo na defesa destes interesses?Acho que o presidente da Junta de Freguesia de Samora Correia [Hélio Justino] tem capacidade para fazer mais. Não sei se não o tem feito por questões financeiras ou de estratégia. Vejo a cidade com muitas falhas. Gostava que fosse uma cidade de gente mais activa, com uma associação de comerciantes, por exemplo. Custa-me ver o comércio definhar. As pessoas não se agrupam. Gostava que houvesse transportes urbanos de bairro a bairro porque as distâncias são grandes. Gostava que as crianças tivessem mais actividades nas férias. “Não incutimos valores nas novas gerações”Na freguesia de Samora Correia há registo de muitos problemas sociais e alguns têm sido sentidos nas escolas. Como interpreta este fenómeno?Temos que perceber que existem muitas famílias disfuncionais. Não são só as carenciadas. Há famílias carenciadas que não são disfuncionais já que ao nível emocional as coisas são equilibradas e acompanham os meninos. Depois há famílias disfuncionais. O problema reside na falta de acompanhamento por parte dos pais. Os pais saem de manhã e chegam à noite. Muitos estão ausentes do percurso académico dos filhos. Isto é preocupante. Há pais que até falham as reuniões de notas que são a única oportunidade de falar com os professores. Acabam por só ser chamados à escola quando já há problemas graves. A escola deveria falar de forma mais transparente sobre os problemas?Preocupa-me imenso a política da rolha. Detestaria que um filho meu fosse vítima de uma situação de bullying, por exemplo, e que a escola não me contasse. Acredito que a escola tem gente de bem e acredito nos professores. Quando são detectadas situações graves, esconder é muito pior. Isso incentiva novas situações. Todos os pais, sejam da vítima ou do abusador, têm de ser chamados e toda a comunidade escolar tem de ficar a saber que castigo foi aplicado para que isso sirva de exemplo. De outra forma a autoridade dos professores é ainda mais colocada em causa. Hoje em dia há pouco respeito pela autoridade. Seja dos professores seja dos juízes. Os jovens apresentam-se em tribunal de pastilha elástica, chinelo de enfiar no dedo e telemóvel a tocar. Quando são chamados à atenção ficam muito revoltados.Como se chegou a este ponto?Não incutimos valores nas novas gerações. O respeito pelos mais velhos e a boa educação não existe. É preciso saber dizer “obrigado”, “se faz favor” e “perdão”. Vê poucos jovem a usar estas palavras. Não me digam que a educação é apanágio das classes altas. A educação tem de ser transversal à sociedade.Faz sentido deliberar demolir um muro que está ilegal e depois voltar atrás nessa decisão?Essa situação em concreto que diz respeito a um muro de azulejos em Benavente teve muito que ver com a opinião dos técnicos camarários sobre o assunto. Tenho consideração pelo trabalho dos técnicos mas as falhas de coordenação entre os vários departamentos acontecem. Pode ter sido essa a razão. Veremos se foi um erro deliberar demolir ou se pelo contrário o erro foi deixar de pé a estrutura. É por causa de situações destas que depois se geram processos que levam a Polícia Judiciária à câmara como aconteceu na semana passada?Vejo tudo isto com alguma preocupação. Não conheço este processo que deverá estar em segredo de justiça. O facto de terem ido à câmara para recolher documentação pode não evidenciar ilícito. Por vezes é apenas recolha de prova. O facto de terem ido à residência pessoal do presidente da câmara e do vereador Miguel Cardia é que já me preocupa.Uma advogada aficionada A única vereadora do Partido Socialista no executivo da Câmara Municipal de Benavente, Ana Isabel Oliveira Reis Casquinha, 40 anos, advogada de profissão, nasceu em Lisboa mas sempre viveu em Samora Correia, freguesia do concelho. É casada e tem dois filhos. Mora na mesma rua onde já residiam os pais quando se mudaram para a cidade. Frequentou a escola em Samora Correia e Benavente e só saiu do concelho para entrar na faculdade, em Lisboa. A desonestidade tira-a do sério e lida mal com a mentira. A sua cor favorita é o verde. “Sou sportinguista”, diz com um sorriso. Adora ouvir música, em especial os irlandeses U2. Também gosta de ler e admira a narrativa de José Rodrigues dos Santos. Acabou recentemente “Anjo Branco”. Aprecia igualmente os clássicos portugueses.“Os acidentes com toiros são um trunfo para quem está contra a festa”Ana Casquinha é aficionada e por descuido já apanhou dois ou três sustos com toirosA idosa que foi ferida por um toiro na Festa da Amizade em Benavente acabou por morrer. A forma como é organizado este evento deveria ser repensada?Compreendo que as populações tentem manter as tradições mas também devem contribuir para que a festa corra bem. A passagem do toiro, que é encaminhado por campinos e cabrestos de um sítio para o outro, é uma tradição mas quando há alguém nesse percurso que chama o animal está a desrespeitar o trabalho dos campinos e será responsável pelo que vai acontecer. Há quem procure adrenalina mas não pode colocar em risco a vida dos outros. Se podemos ter pernas para saltar e fugir há quem não tenha. Em Vila Franca de Xira, por exemplo, os toiros são conduzidos dentro das mangas para as largadas...Essa pode ser uma forma de evitar estes problemas. Nas largadas também há ainda algum descuido por parte das pessoas. O ano passado estive em cima de um tractor a ver as largadas. O toiro também fugiu para a zona do Centro de Saúde de Benavente mas tive a preocupação de salvaguardar a minha segurança. Tem de haver alguma cautela por parte de quem vai ver estes espectáculos.Falta mais informação para quem vem de fora ver as largadas?Falta. Quem vem de fora não tem a noção da perigosidade de um toiro. Acho que há uma falha grande das autoridades e não apenas da comissão de festas. Esses são voluntários que gastam muitas horas para manter a festa de pé.A câmara poderia ser mais interventiva nesse processo?A partir de agora teremos que repensar tudo. Estes acontecimentos foram de uma gravidade extrema. Uma senhora faleceu e registaram-se outros feridos. Há também danos nas viaturas. Todos sabemos que a festa brava não é bem vista por muita gente por isso há que ter cautela. Os acidentes podem tornar-se num ponto a favor de quem é contra a festa. Temos de tomar medidas de divulgação e prevenção. A câmara tem feito um esforço para manter a tradição apoiando financeiramente as colectividades mas tem que tentar ajudar de outra maneira indo mais além.
Gestão autárquica tem de ir além do saneamento básico e do alcatrão

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...