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Preço do melão triplica entre o produtor e os hipermercados

Preço do melão triplica entre o produtor e os hipermercados

Agricultores dizem que os lucros ficam para os intermediários e para os retalhistas

Devia existir uma linha de distribuição diferente para que não houvesse um desequilíbrio tão grande de preços desde o produtor ao consumidor final, defendem os produtores.

Edição de 13.07.2011 | Sociedade
José Ferreira, 71 anos, conversa com os seus colegas agricultores junto aos tractores carregados de melão no Parque do Carril, em Alpiarça. É o primeiro dia, este ano, que vem vender melão e desconfia que não vai voltar muitas mais vezes. A venda de melão a intermediários é escassa e o preço a que está a ser vendido o melão é um “roubo”. José Ferreira é um dos muitos agricultores descontentes com o actual cenário em que os grandes prejudicados são os pequenos produtores.Actualmente o melão está a ser comprado entre 25 a 30 cêntimos o quilo aos produtores. “É o que nos oferecem e mesmo assim temos dificuldade em escoar o produto”, dizem. Mas se formos às grandes superfícies um quilo de melão está a ser vendido a 90 cêntimos. “Por isso é que as grandes superfícies dão lucro e os seus empresários estão cheios de dinheiro enquanto os pequenos agricultores passam dificuldades”, lamenta Eusébio Branha.Eusébio Branha, 65 anos, produz melão por conta própria há mais de quarenta anos, tendo seguido as pisadas do avô e pai. O agricultor diz que o actual Governo é a “última” alternativa para os pequenos agricultores. “Se este Governo não nos defender , os pequenos produtores de melão deixam de produzir. Deixa de haver condições para trabalhar porque só temos prejuízo. Neste momento não temos uma organização que defenda quem trabalha”, afirma, enquanto os colegas acenam com a cabeça em sinal de concordância com as suas palavras.Agricultura não é rentávelOs produtores com quem O MIRANTE falou em Alpiarça discordam do Presidente da República, Cavaco Silva, que afirma que o “futuro” de Portugal é voltar à agricultura. Todos concordam que “neste momento” a agricultura não é rentável nem dá para viver do que a terra pode dar. Eusébio Branha produziu este ano dois hectares de melão sendo que, diz, o custo de um hectare de melão por campanha nunca custa menos de cinco mil euros. Para terem algum lucro teriam que vender todo o produto a pelo menos 40 cêntimos o quilo de melão.A mesma opinião tem João Augusto Pedro, de Benfica do Ribatejo (Almeirim), que produz melões nos campos da lezíria de Vila Franca de Xira há cerca de duas décadas. O produtor considera que todos têm que ganhar dinheiro mas considera “inadmissível” que as grandes superfícies vendam os melões ao triplo do preço a que são comprados aos produtores. “As pessoas vão ao supermercado e quando vêem o preço do melão nem compram tanto porque acham demasiado caro. Se vendessem mais barato escoavam mais produto”, refere João Pedro.O produtor reconhece que tanto os intermediários como os compradores das grandes superfícies sabem que a agricultura é uma actividade de “alto risco” e que existe um “timing” para vender os produtos. “Devia haver uma maior fiscalização por parte do Governo em relação a este assunto porque há pessoas a ganharem grandes fortunas e são os pobres que estão a financiar as grandes superfícies, o que é muito injusto”, afirma.João Augusto Pedro defende que devia existir um associativismo coeso nesta área “como existe em Espanha”. O problema é que as organizações de produtores em Portugal não funcionam como deviam funcionar. “Não há solidariedade entre os produtores. Devia existir uma linha de distribuição diferente para que não houvesse um desequilíbrio tão grande de preços como existe desde o produtor ao consumidor final. Temos uma capacidade de produção espectacular, não precisávamos de ir buscar melões a Espanha como está a acontecer só porque eles os vendem mais baratos”, reflecte o produtor.Concertação entre distribuidores, produtores e Governo é indispensávelA Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal - Confagri afirma que “é indispensável a concertação entre os grandes distribuidores, os produtores e o governo para evitar a asfixia do sector” agroalimentar em Portugal. Esse “entendimento” é “fundamental para salvar a produção agrícola nacional”, sublinha o presidente da Confagri, Manuel dos Santos Gomes.“Os grande distribuidores” do sector alimentar “importam produtos em relação aos quais Portugal é auto-suficiente ou mesmo excedentário”, para imporem “baixos preços aos produtores” e manterem para si “elevadas margens de lucro”, critica Manuel dos Santos Gomes.Nos primeiros cinco meses de 2011, Portugal importou 30 milhões de litros de leite, embora a produção exceda as necessidades, salienta o dirigente daquela confederação, que reúne, designadamente, as federações nacionais de produtores de leite, vinho, olivicultora e azeite e fruta e hortícolas.Além da “concertação entre produtores, distribuidores e Ministério da Agricultura” a Confagri também considera indispensável a existência de “uma legislação ajustada” e de um regulador para o sector. Mas, adverte Manuel dos Santos Gomes, “precisamos de um regulador que regule de facto e não como aquele que temos tido”.“A complexidade da actual situação do país” e as recentes tomadas de posse do novo governo e da nova direcção da Confagri exigem uma “discussão séria e alargada do sector e das medidas prioritárias” a propor ao executivo, sustenta Manuel dos Santos Gomes.A Confagri está a ouvir as organizações suas associadas para “identificar os seus problemas e propostas” e também para mobilizar os agricultores para a “necessidade do país promover o aumento da produção agroalimentar”, acrescenta o presidente da Confederação.
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