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“O celibato dos padres é mais contestado por quem não pertence à Igreja”

“O celibato dos padres é mais contestado por quem não pertence à Igreja”

Luis Miguel Domínguez é o padre espanhol que adoptou Alverca como a sua terra

Sempre quis fugir de Madrid. Há seis anos a morar em Alverca, concelho de Vila Franca de Xira, o padre da Igreja dos Pastorinhos, Luis Miguel Domínguez, sente-se em casa. Teve uma adolescência e juventude típicas da idade. Passava os Verões a trabalhar em cafés e restaurantes onde aprendeu a cozinhar. Vem de uma família onde ainda hoje ninguém vai com regularidade à missa. Só depois de entrar na universidade é que começou a sentir o chamamento de Deus. Mora com mais três padres e canaliza toda a energia afectiva para a comunidade. O sacerdote de 36 anos domina quatro línguas e está empenhado em tentar controlar as despesas da igreja onde foi colocado e pagar os três milhões de dívida resultantes da construção do templo.

Edição de 20.07.2011 | Entrevista
Porque é que sendo espanhol decide trabalhar como padre em Alverca?Nasci em Madrid mas sempre quis fugir de lá [risos]. É uma cidade grande, opressiva, onde se perde muito tempo nos transportes públicos, além de estar longe do mar. Quando decidi tirar o curso de Literatura em Língua Inglesa pela Universidad Complutense de Madrid sempre imaginei que no futuro sairia de Espanha. Sinto-me muito melhor em Alverca porque é relativamente pequena, saudável, com o Rio Tejo aqui tão perto. Depois de estudar em Roma enviaram-me para cá. Fiquei contente com a escolha. Sempre me senti em casa em Alverca. Alverca é também um meio muito urbano e não tem uma ligação directa ao Rio Tejo. O que o atrai tanto na cidade?Encontro muitas pessoas que nasceram no concelho de Vila Franca de Xira. Mas a grande maioria veio de fora, tal como eu, e gera-se um sentimento de comunidade muito forte que ultrapassa tudo o resto, a falta de espaços verdes, a presença da indústria ou a possibilidade de ter o rio à minha porta. É a comunidade que leva uma pessoa a sentir-se bem. Posso estar num espaço belíssimo, mas se não tiver família ou amigos não me serve de nada. Depois, todo o meu tempo é praticamente passado dentro da Igreja dos Pastorinhos. Não faço muito uma vida de rua. Estudou em Madrid, fez o programa Erasmus na Holanda e foi depois para Roma. Um padre habituado a viajar não deve dar-se muito bem agora fechado na igreja… Os anos passam e o entusiasmo da descoberta, próprio da juventude, também se vai desvanecendo. Já não tenho essa vontade de descobrir novos sítios. Também vou com os paroquianos para fora do país, mas já não sinto as viagens como uma necessidade. O ritmo de vida actualmente é tão acelerado que sempre que tenho algum tempo livre quero é estar sossegado a relaxar em casa. Não vai regularmente a Espanha? Tiro sempre dez dias de férias para ir a casa dos meus pais. Este Verão vou a Madrid para a Jornada Mundial da Juventude, mas já avisei os meus pais que não os vou poder ver. Quando decidi ser padre já sabia que esta opção implicaria sempre distância da família. Mas como hoje é mais fácil viajar de vez em quando os meus pais também vêm visitar-me a Alverca. Vive com mais três colegas. Quatro homens juntos numa casa devem ter alguma dificuldade em mantê-la arrumada…Há uma pessoa que nos ajuda nessa situação. Neste momento até está de férias e somos nós que nos organizamos. Eu adoro ir para a cozinha preparar uma paella ou uma tortilha espanhola. Mas durante o resto do ano é mais difícil porque o tempo que teríamos de dedicar a estas tarefas seria retirado às pessoas que precisam de nós. Alguns para terem o padre disponível são capazes de oferecer um prato de sopa. Pelo menos metade das minhas refeições são feitas fora de casa. Temos outra paroquiana que está sempre com a linha e a agulha na mão pronta a tratar dos assuntos de costura. Nestas alturas tem pena de não ter constituído uma família?O facto de viver com mais padres faz com que sejamos uma família. Nunca conseguiria viver sozinho. Fui propositadamente para a Fraternidade Sacerdotal dos Missionários de São Carlos Borromeu porque vivem sempre juntas pelo menos três pessoas. Quando chegamos a casa sentamo-nos à mesa e vamos conversando sobre o dia, tal como uma família. Temos a sorte de sermos quase todos da mesma idade. Nunca se apaixonou?Meu Deus… Já estamos a entrar no domínio da vida privada [silêncio]. Digamos que tive uma adolescência e juventude típicas da altura, mas que não corresponde na generalidade às relações que os jovens estabelecem actualmente. Mas chegou a namorar?Nas circunstâncias em que faziam as pessoas da minha idade, na altura. Há quem defenda que o celibato não deveria ser uma imposição mas uma escolha.As pessoas que partilham dessa opinião não me deixariam opinar sobre a vida em família. Cada um deve respeitar a realidade em que vive. Coincido totalmente com a posição da Igreja porque eu próprio me sinto muito mais feliz assim. Seria negativo para mim constituir família porque absorveria o meu tempo e a minha energia afectiva que neste momento estão canalizadas para a comunidade. Quando vê uma mulher bonita na rua acha que é uma obra de Deus ou desvia o olhar?Todos somos obras de Deus e nesse sentido somos todos bonitos. Assim saio bem desta pergunta [risos].“Na minha família ainda ninguém vai com regularidade à missa”Como é que alguém que prestes a entrar no mercado de trabalho de repente decide que quer ser padre?O desejo já me tinha passado pela cabeça algumas vezes mas acabava por desaparecer. Quando entrei para a universidade comecei a andar com um novo grupo de amigos que frequentava a Igreja. Depois de terminar o curso, senti que tinha de me decidir e estive durante um ano a amadurecer a ideia. Neste período desafiava Deus, pedia-lhe para me mostrar o caminho. Não me apareceu Nossa Senhora ou tive qualquer inspiração mas encontrei pequenas coisas que me diziam que talvez fosse este o meu caminho. Ia mais vezes à Igreja, rezava mais e sentia-me cada vez mais contente. Foi esse o meu principal sinal. Teve alguma influência familiar? Uma educação religiosa?Fui baptizado e fiz a primeira comunhão, o que é normalmente o que todos fazem, mas nada mais que isso. Na minha família ainda ninguém vai com regularidade à missa. Já pensou o que poderia estar a fazer se não tivesse escolhido o sacerdócio?Na universidade imaginava-me a seguir uma carreira académica. Mas depois de entrar para o seminário nunca mais tive dúvidas sobre a decisão tomada. Também acabo por ter um papel educativo, tal como um professor.Carrilhão com programação até DezembroO carrilhonista residente da Igreja dos Pastorinhos, Abel Chaves, vai dar concertos entre as 10h00 e as 11h00, aos domingos, até Dezembro. Em Julho pode assistir nos dias 24 e 31. Para Setembro, os domingos reservados são os do dia 11 e 25. Em Outubro estão marcados os dias 9 e 23. Seguem-se os dias 6 e 20 de Novembro e 4 e 18 de Dezembro. Recorde-se que quando a Igreja abriu o carrilhão tocava todos os dias, o que desagradou na altura alguns moradores da zona. Durante algum tempo deixaram de ouvir-se os acordes dos 72 sinos que ornamentam a torre de quase 50 metros. Hoje em dia já não existem queixas. O carrilhão custou meio milhão de euros e é uma das principais atracções da Igreja dos Pastorinhos.Temas polémicos não podem servir de desculpa para dizer “não” à IgrejaEstamos a passar por uma grave crise económica. Os pedidos de ajuda à Igreja têm aumentado?Não tenho dados estatísticos para comprovar um maior número de pedidos de ajuda, mas a minha percepção é que são cada vez mais as famílias que estão em apuros. Nestes períodos também constato que existem mais pessoas a ajudar. Na minha comunidade existe sempre alguém que tem um familiar a passar por um mau momento e é ajudado. As interrupções voluntárias da gravidez estão a aumentar em Portugal. Já foi procurado por paroquianas para lhe pedir aconselhamento?Na maior parte das vezes o que as pessoas mais procuram é sentir que têm uma companhia no drama que estão a viver. Uma coisa são os princípios do catecismo que salvaguardamos sempre e outra é o que devemos aplicar a uma situação concreta. Não se pode generalizar nunca o drama que cada um vive nem ignorar as circunstâncias em que cada um se encontra. Existem alguns padres que aceitam o uso do preservativo como um mal menor para ajudar a prevenir a transmissão de algumas doenças. O que está na raiz do problema é uma visão do amor. Se uma pessoa vive na Igreja encontrará um equilíbrio saudável na vida sentimental e emocional. O amor é vivido com outros parâmetros que não passam por uma sexualidade desenfreada e sem critérios. Há quem aponte à Igreja a falta de controlo fiscal sobre as esmolas recebidas.Essa informação não é exacta porque as nossas contas estão sujeitas ao controlo do patriarcado. Não sou especialista no assunto, confesso, mas existe uma concordata entre a Santa Sé e a República Portuguesa. Estamos a falar de uma realidade diferente que não é lucrativa e tem como finalidade beneficiar toda a comunidade e o próprio Estado Português no seu conjunto. As orientações da Igreja em relação a temas polémicos, mantendo uma posição muito conservadora, não afastam as pessoas da igreja?Esse argumento costuma ser utilizado como uma desculpa muito superficial para justificar o ateísmo ou o desprendimento em relação à Igreja. Nenhum destes temas mais polémicos constitui um motivo para justificar a relação que se cria com a Igreja ou com Deus porque Deus é muito maior do que a sexualidade ou um problema específico que se possa estar a viver em determinada etapa da vida. É uma desculpa para dizer “não” à Igreja. Eu respeito essa decisão. O celibato dos padres, por exemplo, é estatisticamente mais contestado por quem não pertence à Igreja. O padre poliglotaLuis Miguel Domínguez nasceu no dia 29 de Março de 1975 em Madrid, Espanha. O pai, maquinista de obras públicas, e a mãe, doméstica, cedo quiseram mostrar ao filho do meio o valor do trabalho. A partir dos 16 anos Luis Miguel Domínguez passava as férias do Verão a trabalhar em cafés e restaurantes de Madrid, onde aprendeu a cozinhar. Depois de terminar aos 24 anos o curso de Literatura em Língua Inglesa pela Universidad Complutense de Madrid, partiu para Roma, em Itália, para estudar Filosofia e Teologia na Pontificia Università Lateranense no seminário da Fraternidade Sacerdotal dos Missionários de São Carlos Borromeu. Tinha 29 anos quando rumou a Alverca como coadjutor do Padre José Maria Cortes, substituindo-o como pároco de Alverca, Sobralinho e Calhandriz, em Maio de 2010. Os pais e o irmão nunca se opuseram frontalmente à decisão do jovem padre, mas demoraram algum tempo a perceber a escolha. Já da irmã com quem mantém uma relação especial recebeu sempre todo o apoio. No Verão guarda sempre 10 dias para visitar a família em Madrid, onde já tem três sobrinhos. Domina bem o espanhol, o inglês, português, italiano e ainda estudou francês, alemão e holandês. “Penso que Deus deu-me esta capacidade de gostar de aprender diversas línguas”, revela. Nos tempos livres gosta de ler e é com entusiasmo que aponta António Lobo Antunes como o seu escritor português preferido. Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, José Régio ou Eça de Queiroz são outros escritores que aprecia. Na mesa-de-cabeceira tem neste momento algumas peças de teatro de Tennessee Williams. “Quem acredita em Jesus tem a vida eterna” é a frase que elege como lema de vida e que mandou colocar no Santinho de ordenação. Cortar nos funcionários e na energia para controlar as dívidasO padre Luis Miguel Domínguez continua empenhado em pagar a dívida de três milhões resultantes da construção da Igreja dos Pastorinhos, em Alverca. Depois de dispensar dois dos oito funcionários da Igreja no final do ano passado, o padre decidiu acabar com o ar condicionado no Verão e cortar o aquecimento no Inverno. “Não tivemos de tomar mais nenhuma medida drástica até agora”, revelou. A Igreja contraiu empréstimos junto de várias instituições bancárias e privados e tem um conselho económico constituído por algumas pessoas ligadas à Igreja que vão sugerindo estratégias de gestão. Recorde-se que a Igreja dos Pastorinhos custou cinco milhões de euros e no dia da inauguração, 1 de Maio de 2005, só vinte por cento do valor estava pago. Em Maio de 2010, o padre José Maria Cortes deixou as Paróquias de Alverca, Sobralinho e Calhandriz para abraçar um projecto missionário em Washington, nos Estados Unidos. Está previsto saldar a dívida dentro de 20 a 25 anos.
“O celibato dos padres é mais contestado por quem não pertence à Igreja”

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