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Algumas reflexões sobre os resultados dos exames de Língua Portuguesa do nono ano

Edição de 20.07.2011 | O Mirante dos Leitores
A média dos exames nacionais do 9º ano a Língua Portuguesa voltou a descer este ano. O que fazer? Exigir mais dos professores? Reavaliar o trabalho que se faz nas escolas? Consciencializar os alunos da necessidade de trabalhar mais? Valeria, a propósito, lermos com atenção a prova da primeira chamada e os respectivos critérios de correcção, onde se verificam situações, no mínimo, estranhas que poderão estar na origem destes resultados. Convidávamos o GAVE, entidade responsável pela realização dos exames, a reflectir connosco.A situação mais grave surge na questão em que se pedia aos alunos que escrevessem um texto expositivo a partir de uma estrofe d’Os Lusíadas, respeitando uma série de indicações fornecidas na prova. Esta questão valia 10 pontos, sendo que 6 eram destinados ao conteúdo e 4 à competência de escrita. Neste conjunto de tópicos, um deles foi considerado absolutamente fundamental. Passamos a citar: “se os alunos não responderem explicitamente ao item sobre o narrador do episódio, cuja solução era Vasco da Gama, terão de ser atribuídos 0 (zero) pontos a toda a questão, independentemente de o aluno ter conseguido responder aos restantes tópicos solicitados, ou não”. Isto significa que, mesmo que o aluno tenha produzido um bom texto, terá 0 (zero) pontos se tiver respondido de forma errada ao item sobre o narrador do episódio. O facto de haver um pormenor capaz de eliminar toda a produção dos alunos parece-nos absolutamente injusto, ainda mais porque na prova em lado algum referia que os alunos teriam obrigatoriamente de acertar este item para que a sua resposta fosse minimamente cotadaVale a pena fazer uma pausa neste ponto e reler o que nos diz o programa e o curriculum: Exprimir-se oralmente e por escrito de uma forma confiante, autónoma e criativa (Competência específica de Língua Portuguesa). Usar correctamente a língua portuguesa para comunicar de forma adequada e para estruturar pensamento próprio (Currículo Nacional do Ensino Básico, p.15). Ou seja, pretende-se que trabalhemos conteúdos, mas que desenvolvamos também competências, nomeadamente nos domínios da leitura e da escrita. Se o objectivo deste exame era apenas aferir conhecimento de conteúdos declarativos (identificar o narrador do episódio “As Despedidas em Belém”), talvez não fosse necessário pedir aos alunos que escrevessem um texto. Nesta linha de critérios eliminatórios, referimos ainda uma outra questão, onde os alunos teriam de identificar explicitamente a obra “Os Lusíadas” (grupo I, parte B, pergunta 5). Uma questão que valia 5 pontos, sendo 3 para o conteúdo e 2 para aspectos de organização e correcção da expressão escrita. Se dessem apenas a entender, pelas suas palavras, que conheciam a obra a que se referia a personagem do texto dramático, a questão era cotada com 0 (zero) pontos. Sem haver hipótese, mais uma vez, para se avaliar a competência escrita dos alunos. E o modo como a questão está formulada também não nos parece muito explícito. Pede apenas para os alunos “indicarem a que se refere” a personagem do texto. Não é evidente que a resposta tenha de ser explicitamente o título da obra, como o critério de correcção assim o exige.Na última questão, pede-se aos alunos que “partam da sua experiência” para redigir um texto onde expressem a sua opinião sobre a importância de ler. E o que é partir da experiência senão recontar alguns episódios narrativos para chegar a uma opinião? Arriscamos dizer que grande parte dos alunos de 9º ano terá começado o texto por uma sequência narrativa. Na reunião de classificadores, foi-nos entregue um texto escrito desta maneira e as ordens que nós, professores classificadores, recebemos foi para cotar o parâmetro que dizia respeito ao tema e tipologia textual com 1 ponto (na escala de zero a cinco) e argumenta-se que os alunos fogem à tipologia textual. Parece-nos que, nestes casos, os alunos se limitaram a cumprir a instrução que foi dada. Lamentamos que a questão não estivesse correctamente formulada.E para concluir. Todos nós fomos ensinados a formular questões pela afirmativa, considerando-se que as questões formuladas pela negativa facilmente induzem o aluno em erro. Por isso, ao longo da escolaridade, não preparamos os alunos para este tipo de perguntas. Pois bem, no exame apareceram duas questões deste tipo!Face ao que foi exposto anteriormente, não nos parece correto continuar a responsabilizar apenas os professores e os alunos pelos maus resultados nos exames. Acreditamos na importância da reflexão sobre o nosso trabalho. Acreditamos que este será, também, o entendimento do GAVE. Esta reflexão levar-nos-á a concluir que os maus resultados derivam, não só de falhas no trabalho dos professores e alunos, mas também de erros cometidos, particularmente, na definição dos critérios de avaliação. Esta assunção de que nem tudo correu bem na elaboração destes exames nacionais contribuirá para termos um olhar mais confiante no trabalho que, diariamente, é realizado nas nossas escolas.Pl’o Grupo de Professores de Português do Agrupamento de Escolas de Vialonga - Joana Filipe Martins

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