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“Estamos pior que no meu tempo”

António Cruz, 103 anos, acompanhou a história do século XX e mantém-se actualizado

António da Cruz nasceu em Alqueidão (Ourém) no ano em que mataram o rei D. Carlos. Em 1917 esteve na Cova da Iria e assistiu ao chamado milagre do sol. Testemunhou a matança da pneumónica após a primeira grande guerra, presenciou as grandes convulsões sociais, políticas e económicas em Portugal e no mundo e continua atento à espuma dos dias. “Estamos pior do que no meu tempo. Hoje ninguém arranja que comer, acaba-se o dinheiro e ninguém sabe cavar”.

Edição de 20.07.2011 | Sociedade
“A partir de hoje começo a contar para os 104. Ainda não parei”. É assim que António da Cruz, “Cigarrão” para os amigos e vizinhos, fala dos seus 103 anos. Nasceu em 1908, ano da morte do rei D. Carlos, e vive ainda hoje na sua terra natal, Alqueidão, na freguesia de Nossa Senhora da Piedade, Ourém. A audição já não ajuda e nem sempre consegue perceber exactamente o que lhe dizem. Mas a memória surpreende, com factos e detalhes da sua história e da História do mundo que marcaram o último século. Como sabe tanto alguém que grande parte da vida viveu numa aldeia do concelho de Ourém e não foi além da 3ª classe? “Foi lendo, foi ouvindo, foi estudando com os netos”, refere. No dia do seu aniversário, celebrado a 8 de Julho, só desejava mesmo que lhe continuassem a dar os parabéns por muitos anos.De onde vem a alcunha “Cigarrão”?, perguntamos-lhe. “Vem do meu pai, que era muito amigo da paródia e andava sempre de festa em festa. Um dia foi ali à Gondemaria e passou por um grupo de pessoas que cortava mato. Como tinha os olhos muito grandes houve alguém que o chamou de “cigarrão”. O nome ficou”, explica.O pai, António da Cruz Claudino, nasceu em 1883. Com 25 anos conheceu a mãe de “Cigarrão”, Maria da Piedade, quando esta foi morar para o Alqueidão. “A minha mãe já tinha 24 anos, veio morar na frente do meu pai. Ele era muito dado aos prazeres da carne, ela era muito bonita, quando eu nasci eram os dois solteiros”, comenta rindo. Naquele tempo, “cada um tinha que arranjar para si para comer”, recorda. Ainda muito pequeno, começou por trabalhar na apanha da azeitona. Em 1920 empregou-se numa serração na Caridade, freguesia de Nossa Senhora da Piedade, “por conta do Mangas”, onde a maioria das crianças ia pedir emprego. “De manhã à noite, de sol a sol, só vinha a casa dormir”.Foi serralheiro toda a vida. Em Lisboa durante vários anos, depois da tropa, e de novo pelo concelho de Ourém quando regressou, em 1942, para casar. Casou com uma prima direita e com ela teve três filhas. Hoje já vai nos sete netos e dois bisnetos. Uma vida cheia de histórias“Nasci no reinado de D. Manuel II, porque nesse ano mataram o rei D. Carlos. O meu pai, quando eu nasci, ficou todo contente por ter um rapaz para o ir ajudar para o pinhal. Passei muita fome e muito frio. Também passei tempo bom, mas foi pouco. Quando foi da primeira grande guerra, os ricos passaram fome, porque não havia as coisas. Quando foi a segunda guerra, a do Hitler, quem tinha dinheiro comia pela candonga”. Atento, recorda com datas e nomes os acontecimentos mais marcantes do século XX. Em 1917, esteve na Cova da Iria e assistiu ao milagre do sol. “O meu pai foi lá em Julho e ficou «preso», converteu-se e nunca mais deixou de lá ir. Nunca soubemos o que se passou, ele nunca contou, mas converteu-se. Em Outubro, os meninos estavam ajoelhados e a Lúcia disse: «Vem ali a Nossa Senhora». Eu não via nada, mas ouvia o que as crianças diziam. Quando foi o milagre do sol toda a gente fugia, tudo gritava que se acabava o mundo. As coisas mudaram de cor. O sol dançava, mas a maioria das pessoas nem conseguia olhar para o sol”.Lembra-se das grandes filas para o milho, junto aos Paços do Concelho, na altura da primeira guerra mundial. Lembra-se da gripe pneumónica ter matado muitos dos vizinhos depois da guerra. Recorda os nomes de Sidónio Pais e Salazar, Vasco Gonçalves e Mário Soares. “O Salazar comprou barras de ouro para o Banco de Portugal, o Soares foi vendê-lo aos americanos”, diz. Passou por três moedas, reis, escudos e euros e adaptou-se a todas. Reflecte que o novo Governo é muito jovem e é preciso alguém com cabeça firme para levar o país para a frente. Comenta que os chineses estão a tomar conta da economia. “Estamos pior que no meu tempo, hoje ninguém arranja que comer, acaba-se o dinheiro e ninguém sabe cavar”.O telemóvel toca várias vezes durante a conversa, amigos batem à porta para desejar os parabéns ao “Cigarrão”. António da Cruz faz um pequeno resumo da sua vida: “Quando nasci era tudo diferente. Não havia registo civil, não havia farmácia. Mas havia muitas outras coisas…”.

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