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Os vadios de Moita Flores andam por aí

Francisco Moita Flores lançou recentemente “A Opereta dos Vadios” um livro de trezentas páginas a descascar nos políticos. O presidente da Câmara de Santarém construiu uma sátira à sociedade portuguesa e aos dirigentes políticos que nos governam e de que ninguém ainda falou, nos jornais ou na televisão, nem sequer para dizer mal.

Edição de 27.07.2011 | Cultura e Lazer
Se houvesse jornalismo cultural em Portugal, como havia há trinta anos, Francisco Moita Flores já tinha sido capa de jornal por estes dias com a recente publicação do romance “A Opereta dos Vadios”. Não faço ideia se a escolha da foto do autor seria a cores ou a preto e branco. Mas de certo que este romance não passaria despercebido e causaria, no mínimo, divisão entre os editores. Entre o público leitor causaria certamente muitas unanimidades tendo em conta a pouca credibilidade dos políticos que nos governam. A notícia bem informada sobre o lançamento deste livro, que nos fala dos tempos que vivemos, embora de forma metafórica, é uma informação que deveria obrigar a trabalhar todas as redacções. Infelizmente o meio jornalístico é ainda mais pobre que o político e cada um vai sobrevivendo como pode.Moita Flores acaba de publicar um romance que em termos romanescos é muito inferior aos seus melhores livros. Mas esse é o risco de quem escreve sobre política e, ainda por cima, sobre a política que nos remete para os anos que estamos a viver ou, para ser mais concreto, nos põe verdadeiramente em dia com a situação social e económica-financeira do nosso país.Ao contrário do que o autor escreve nas badanas do livro eu não me ri nem uma vez ao longo da leitura das trezentas páginas de “A Opereta dos Vadios”. Nem sequer sorri. E não acho que o defeito seja meu; sinceramente não acho piada nenhuma à caricatura que Moita Flores faz do país em que vivemos e dos políticos que nos governam ou governaram. Pode haver quem ache. Há certamente muita gente que vai adorar a escrita de Moita Flores e a caricatura impiedosa que ele faz da classe política portuguesa que assinou a Troika há poucos meses e que andou a negociar com os técnicos da Comissão Europeia à socapa para não prejudicarem a campanha eleitoral, que estava a decorrer, e onde se prometia ao povo tudo o que entretanto já se sabia que era um embuste.Não vejo razões para sorrir durante a leitura das trezentas páginas de prosa satírica que Moita Flores acaba de publicar retratando “um país na bancarrota cheio de gente faminta vociferando ódios contra devaneios épicos, agora reduzidos a uma formidável lixeira de sonhos e dívidas (:) Até o insignificante Nepal e o Uganda, um dos países mais esfomeados de África, haviam caído no nosso conto do vigário”.Não é difícil imaginar que a leitura deste livro faça rir muita gente. Gargalhar já é um exagero. Quem está familiarizado com o coro das bruxas que todos os dias fala nas televisões e escreve nos jornais só poderá rir amarelo ao ler este romance de Moita Flores no convívio com o primeiro-ministro Felismino, com o extraordinário Zé Francisco e com o impagável Gregório, três das muitas personagens de “A Opereta dos Vadios” à Moita Flores.Quando convoco para este texto os “profetas da desgraça” que diariamente escrevem nos jornais, ou são críticos encartados nas tv’s à hora da nossa refeição nocturna, não estou a querer dizer que Moita Flores é tão reles como eles na visão de Portugal e dos políticos portugueses. Moita Flores vai muito mais longe, como aliás seria de esperar de um livro de ficção, e anuncia para Portugal logo no início do livro “Oitocentos anos de sacrifícios e glórias no contentor do lixo da História, pelo que a solução mais coerente seria a eutanásia. Ajudar o país a morrer sem sofrimento. Preparar-lhe a mortalha condigna e organizar uma liturgia fúnebre de projecção internacional”.Volto à carga: é claro que ninguém usa os jornais e as televisões para escrever como Moita Flores. Ele que também faz parte do “coro das velhas” ao escrever todas as semanas uma coluna de opinião no Correio da Manhã e ao comentar com regularidade casos de polícia, e não só, na maioria das televisões portuguesas. Imaginem como Moita Flores caracteriza a linguagem do Telhal, dirigente do Partido dos Trabalhadores Livres, que cada vez que há eleições “aproveita os tempos de antena para falar da revolução, dos operários e dos camponeses”(:) “Os seus discursos eram conhecidos por serem circulares. Começava numa ponta do céu para chegar ao centro da terra e retornar à órbita do Sol”. (:) Onde é que está a novidade e a ficção? Noventa e nove por cento dos políticos portugueses no activo falam assim nas suas intervenções diárias. E ainda há aqueles que repetem a mesma piada centenas de vezes beneficiando do facto de falarem sempre para públicos diferentes deixando, no entanto, à beira do vómito os camaradas que os acompanham.Nem quando Moita Flores é mais pessimista que Medina Carreira, ou mais alarmista que José Gomes Ferreira, o melhor jornalista de economia das tv’s, (ao pôr na boca de um seu personagem que já “vendemos os caminhos de ferro aos chineses e os transportes fluviais à Arábia Saudita); nem assim Moita Flores nos faz rir. Há muito de coisa séria nos personagens pedúnculos deste livro, para usar um termo do escritor.“Se o Antelmo se perde por saias, tu desorientas-te com os copos”. Todos os cenários sobre Portugal na visão dos protagonistas do romance não fogem muito à nossa realidade diária por mais que a comparação possa ser exagerada e Moita Flores esclareça na badana do livro que os foi buscar a Paris e aos confins do exílio político “depois de tantos sonhos desfeitos em cinzas”. “Para vocês, a pátria é um par de boas pernas e de boas mamas e notas de quinhentos euros venham de que mãos vierem”, diz o Fernando, dirigente do PUN, para o Gregório, secretário de Estado demitido e a contas com organizações de bacanais para todo o pessoal do Governo.Moita Flores não retrata verdadeiramente Portugal neste romance. O que ele faz, e bem, é retratar os políticos (“a corja”) que nestes últimos anos têm levado o país à falência. Dá-lhes nomes fictícios para ficar mais à vontade nos retratos caricaturados que faz deles, com a sua habitual mestria a escrever, mas volto à vaca fria: a mim nunca me fez rir ou sorrir durante a leitura do romance. No país de “A Opereta dos Vadios” a maioria dos personagens “andam a pular de cama em cama e a papar hóstias”, “roncam de irritação”; “são uma espécie de serpentes que se insinuam em todos os buracos da intriga conseguindo transformar em grandes notícias as mais ínfimas misérias pessoais”. Mas aonde é que eu já ouvi isto, perguntará o leitor a cada página que vai lendo, de certo com vontade de interrogar o autor do livro, e do texto das badanas, que nos quer a rir às gargalhadas de uma ficção que, em muitos casos, parece que ainda fica aquém da realidade.“Gregório sentiu-se o réptil mais belo à face da terra”. “A notícia era um verdadeiro coice”. “O país prefere a selecção nacional como governo e jamais aceitaria que o governo fosse a selecção nacional”. “A política tornou-se o lar da terceira idade do lugar-comum”. “O povo acabou. Agora chama-se audiências”. De todas estas citações do livro só uma não pertence à página 197 de “A Opereta dos Vadios”. No dia em que a escreveu, Moita Flores deve ter tomado muitos apontamentos para uma das suas habituais intervenções televisivas, ou para os seus artigos de opinião onde é habitual comentar o dia a dia da política em Portugal (para não falarmos da possibilidade, quase improvável, de ter sido na preparação de alguma sessão da Assembleia Municipal de Santarém onde já se ouviram frases muito parecidas com algumas deste livro).Francisco Moita Flores tem uma multidão de fiéis leitores que não vão desdenhar deste livro que sai um pouco fora do seu género, que é o dramático, onde eu acho que o autor de “Polícias sem História” e “A Fúria das Vinhas” é realmente muito bom a contar. Apesar de algumas caricaturas exageradas sobre o país e os políticos portugueses Moita Flores cai muitas vezes, ao longo da sua escrita, na armadilha que ele próprio montou e dá-nos retratos a cores dos personagens que ele acha que nos vão fazer rir.“Deixa que a câmara te veja os olhos. Nunca baixes a cabeça. Faz que interrompes mas não interrompas que as audiências não gostam. Mas gostam de palavras simples. Tão simples que os teus adversários odeiam usá-las. Não utilizes mais do que cem palavras. Todas as tuas ideias têm de caber em cem palavras. O máximo cento e cinquenta. (:) Vai pelo básico. Ganhas qualquer debate se fores pelo básico”.Este é o melhor exemplo do livro para explicar como Moita Flores nos engana falando verdade ao longo da escrita de “A Opereta dos Vadios”. Moita Flores sabe-a toda ao nível da comunicação.Outro exemplo ainda para ilustrar que Moita Flores sabe bem sobre o que escreve fruto da sua actividade diária como político e homem da comunicação: “Só os tipos que se acham muito importantes, empanturrados de si próprios, é que pegam num microfone e ninguém os cala. É desses coscorões açucarados, palavrosos, que o povo está farto. Dá-lhe sardinhas e não lhes lixes os ouvidos, e põem-te num pedestal. Passa de feminista a santa enquanto desaparece um copo de tintol”.Há muitos exemplos deliciosos na escrita de “A Opereta dos Vadios” que valeria a pena transcrever aqui para incitar à leitura do livro. O espaço não é o de uma revista literária e é preciso poupar no papel.Li este livro em três dias de férias na Zambujeira do Mar, instalado num resort chamado ZMAR, onde não há políticos nem gente famosa. No dia em que o livro levou o maior safanão fiz todo o percurso, de bicicleta do ZMAR até ao cabo Sardão e depois pelo litoral fora, sempre ao lado das falésias, até quase à Zambujeira do Mar. Levava como companhia um tipo com menos 36 anos que eu. Mesmo assim ganhei-lhe em entusiasmo pela paisagem, pelo prazer dos desvios a meio do caminho, com o fulgor dos gritos e dos peidos que fomos ensaindo até chegarmos, de rastos, ao final da tarde pedalando contra o vento que, entretanto, parecia querer levar a bicicleta e o ciclista. Estou a falar de mim pois claro. O meu companheiro de jornada parecia filho do vento e, tanto ele como a bicicleta, tinham asas invisíveis. Enquanto ao final do dia eu lia “A Opereta”, e descansava a cabeça com os “Vadios”, o meu companheiro ia correr para o campo para cuidar do físico como se a viagem de bicicleta fosse o seu aquecimento muscular.Termino esta crónica de leitura com uma nota pessoal que nada adianta à leitura crítica do livro. A única ligação é a história de amor que me liga à pessoa que me acompanhou nestes três dias de férias e a história de amor que está por trás deste livro, que decorre durante o tempo de campanha eleitoral e acaba no dia da contagem dos votos. Política à parte “o amor venceu estas eleições”.Nota “vadia”: Francisco Moita Flores caricatura Santana Lopes na figura de um dos principais personagens deste livro. Mas isto já sou eu a imaginar. Podia citar outros políticos no activo mas não tenho dúvida que Santana Lopes é a personagem que mais inspirou Moita Flores na escrita destas trezentas páginas de sátira à volta de um grupo de vadios que resolvem criar um partido político. Pode ser de fácil dedução. Admito. Mas este texto não ficaria completo se não deixasse aqui esta nota de leitura.JAE

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