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Limpar e cuidar do espaço público sob a indiferença de quem sem suja

Limpar e cuidar do espaço público sob a indiferença de quem sem suja

Edição de 27.07.2011 | Primeiro Plano
Debaixo do abrasador Sol das três da tarde, Lúcia Ramos, 61 anos, vai regando uma parcela do jardim José Álvaro Vidal, em Alverca, concelho de Vila Franca de Xira. É mais um dia de trabalho, igual a tantos outros. Tirando os reformados que descansam nos bancos do jardim, são poucos os que se vêem pelas ruas e os que passam vão com passo apressado. “Há uma semana estava a regar e passou um senhor de fato e gravata. Saltaram uns pingos de água e ele disse-me agressivamente para eu ter cuidado”, explica a trabalhadora, para quem situações semelhantes são o prato do dia. Sente que a maioria das pessoas acha que andar a varrer ruas ou a regar jardins não é um trabalho digno. “Pensam que somos escravos ou baldes do lixo e não conseguem ver que esta é uma profissão como outra qualquer”, explica. Se Lúcia Ramos responde à letra é ameaçada com uma queixa ou dizem-lhe que é mal-educada. Uns minutos de atenção chegam para descobrir logo cães a fazerem as necessidades no jardim que Lúcia Ramos trata todos os dias. Os respectivos donos passam sem reparar na trabalhadora ou na jornalista. “Mesmo com estes anos de trabalho já não deveria ficar sentida, mas é difícil”, confessa. O trabalho duro que executa na freguesia há 20 anos levou-a a realizar cinco operações e a colocar duas próteses. Hoje já só pensa em chegar o mais rapidamente à reforma para poder descansar. Se noutros tempos ainda conseguia encontrar alguns objectos de valor perdidos, agora garante que as pessoas andam com os “bolsos cozidos”. Lúcia Ramos enrola a mangueira para colocar no carrinho, recusando a ajuda porque garante que é trabalho que só dá para uma. Pelo meio deixa escapar que o seu sonho era ser empregada de café. “Se me saísse o Euromilhões comprava um café. Não sei bem explicar, mas sempre gostei do contacto com o público”, refere. O dia de trabalho termina e a trabalhadora prepara-se para regressar a casa. Amanhã será outro dia, com mais pessoas a deitarem lixo para o chão, outras a reclamarem e ainda os que vão passar a correr para o trabalho, sem se aperceberem da presença de quem limpa o que todos sujam.
Limpar e cuidar do espaço público sob a indiferença de quem sem suja

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