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Compra da TNC falha porque trabalhadores não aceitam redução de ordenado

Compra da TNC falha porque trabalhadores não aceitam redução de ordenado

Presidente da Câmara de Vila Franca alertou os trabalhadores para possíveis manobras de diversão

Os trabalhadores e o sindicato vão agora tentar impugnar o processo de insolvência e lutar pela elaboração de um plano de viabilização da empresa.

Edição de 27.07.2011 | Sociedade
Os trabalhadores da TNC, sediada em Alverca, concelho de Vila Franca de Xira, rejeitaram as condições propostas pela empresa We Go, que mostrou interesse em adquirir a transportadora que está em insolvência e foi encerrada recentemente. A We Go propôs uma redução em cinquenta por cento do ordenado dos 126 trabalhadores e manifestou também total indisponibilidade para pagar os créditos vencidos. Em cima da mesa está agora a possibilidade de impugnar o processo de insolvência e de apresentar um processo de reestruturação da empresa. O Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP) classificou a proposta da We Go de “brincadeira” e levou à reunião que se realizou no dia 26 de Julho, no Ministério da Economia e do Emprego, outra proposta concreta - os trabalhadores abdicavam dos créditos vencidos, mas a empresa teria de salvaguardar todos os direitos e regalias actuais dos trabalhadores. Mas a We Go mostrou total irredutibilidade em alterar as condições que propôs. De acordo com a dirigente sindical do STRUP, Anabela Carvalheira, a ideia passa agora pela viabilização da empresa através de um plano de reestruturação e pela impugnação do processo de insolvência. O salário médio dos 108 motoristas da empresa rondava os 1840 euros líquidos e a We-Go só aceitava pagar cerca 900 euros. Para os restantes trabalhadores, que ocupavam cargos administrativos na empresa e auferiam salários perto dos 1000 euros, a proposta seria a de passarem a ganhar 561 euros. Os trabalhadores acreditam que se trata de um engodo para abdicarem das dívidas actuais que a empresa tem para com eles, e daqui a uns meses serem despedidos pela nova empresa.“Se a We-Go não for uma empresa sustentável corre-se o risco de tudo não passar de uma manobra de diversão para conseguirem salvaguardar o património da empresa e deixar os trabalhadores sem nada”, alertou a presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha (PS) que esteve presente no plenário de trabalhadores do dia 25 de Julho. A presidente chamou ainda a atenção para o facto de as construções da empresa não estarem legalizadas. “Não podem vender a empresa porque não têm licença de utilização. Mesmo que deitassem as instalações abaixo para construir outra coisa ficariam sempre a perder porque hoje em dia existem muitas condicionantes”. We Go é de um filho do fundador da TNCA We Go é uma empresa satélite da TNC2, propriedade de José Augusto Leal, um dos filhos do fundador da empresa, e uma das actuais credoras da TNC. Segundo adiantou o sindicato, a empresa foi fundada em 2007 e na altura só tinha como único trabalhador o filho de José Augusto Leal. Depois do fundador da empresa falecer, a TNC acabou por ser dividida em duas, a TNC de transportes internacionais que ficou com Luzia Leal e a TNC2 dedicada aos transportes nacionais que ficou com José Augusto Leal, ambos filhos do fundador José Mendes Leal. Segundo a comissão de trabalhadores, a TNC2 pediu há um ano e meio a penhora da TNC para tentar recuperar valores alegadamente devidos, obrigando a irmã a requerer o processo de insolvência. O passivo da TNC ronda os 8 milhões de euros, sendo o maior credor a TNC2 que reclama perto de 2,9 milhões de euros, seguindo-se o Banco Santander Totta, o Banco Espírito Santo e a gasolineira Kuwait.Cronologia dos acontecimentos11 de Dezembro de 2009É declarada a insolvência da TNC pelo Tribunal do Comércio de Lisboa. O plano de reestruturação apresentado tranquilizou os trabalhadores que não voltaram a preocupar-se já que os ordenados nunca falharam. 13 de Julho de 2011Trabalhadores são informados por volta das 18h00 que a empresa iria fechar sem qualquer justificação adicional.14 de Julho de 2011Perto de três centenas de trabalhadores juntam-se à porta da empresa para não deixarem mudar as fechaduras ou levar o material. Desde este dia permanecem na empresa, organizando-se por turnos. 19 de Julho de 2011Trabalhadores partem dentro dos camiões da empresa em marcha lenta com destino ao Palácio de São Bento em Lisboa, mas acabaram por ser desmobilizados pela PSP perto do Estádio José de Alvalade. 22 de Julho de 2011Ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, promete ajudar os trabalhadores servindo de mediador e ouvindo as partes envolvidas. 25 de Julho de 2011Na reunião que decorre no Ministério da Economia e do Emprego é revelado que a We Go é a empresa que está interessada em comprar passivo da TNC. Mas as negociações falham porque os trabalhadores não aceitam reduções nos ordenados. Trabalhadores ainda choram a morte do fundador da TNCO presidente da Comissão de Trabalhadores da TNC, José Martins, 59 anos, permanece nas instalações da empresa desde o dia 13 de Julho. A viver em Seia, distrito de Guarda, está na empresa há 24 anos e promete continuar a lutar enquanto tiver forças. “Quero trabalhar, não estou ainda na idade da reforma. Não fecharam a empresa com honestidade e por isso sou capaz de ir até ao Inferno”, garantiu. O cansaço acumulado no rosto é visível. Há mais de dez dias que dorme no camião da empresa e é um dos responsáveis pela organização de toda a contestação dos trabalhadores. Também João Dias, de 43 anos, a viver em Coruche, tem estado nas instalações da TNC. Casado e com um filho, precisa do trabalho para conseguir pagar as contas. “Já não sou um jovem e arranjar um novo emprego nesta altura de crise vai ser muito difícil, para além de ter de começar tudo de novo”, confessa. A conversa entre os trabalhadores vai sempre parar ao fundador da empresa José Mendes Leal, falecido em 2000, depois de 42 anos de liderança da TNC. “Mesmo os que não tiveram oportunidade de trabalhar com o senhor Leal choram a sua morte. Se ele cá estivesse jamais a empresa teria chegado a este ponto”, garante José Martins. O fundador é recordado como um grande líder que geria a empresa com mão de ferro, mas estava sempre pronto a ajudar quem mais precisasse.
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