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Liszt de Melo

Liszt de Melo

Solicitador, 78 anos, Santarém

Liszt de Melo é solicitador em Santarém, onde também reside. Nasceu em Arouca e com 11 anos veio trabalhar para o escritório do tio, em Santarém. Para conseguir ter uma vida melhor, trabalhou sempre sem olhar para a hora de saída. O gosto pela profissão de solicitador é tanto que os 78 anos não o impedem de continuar a exercer a actividade. Passa os fins-de-semana em Cascais e gosta de ir à praia e ao casino. Sempre que pode viaja até ao Brasil. Todos os anos vai a Arouca para visitar o primo e comer vitela assada.

Edição de 27.07.2011 | Três Dimensões
O meu nome veio do compositor Franz Liszt. O meu pai era um apaixonado pelo compositor Liszt e sempre disse que queria baptizar um filho com o mesmo nome. Como era ilegal colocar como primeiro nome Liszt, fiquei António Liszt, mas todos me trataram sempre por Liszt. A minha mãe ia para a única padaria de Arouca à meia-noite e saía de lá às sete da manhã sem ter conseguido arranjar pão. O meu pai trabalhava na construção civil e chegava a estar muitos meses sem trabalho devido aos Invernos rigorosos. Ia a outras freguesias tentar comprar farinha para fazer pão, mas era muito difícil e a minha mãe chegava a casa a chorar quando não conseguia arranjar pão na única padaria da terra. Saí de casa aos 11 anos. Vivi até aos 11 anos em Arouca com os meus pais e as minhas duas irmãs. Era uma terra muito pobre e as perspectivas de vida não eram animadoras. Vim para casa do meu tio, em Santarém, que era solicitador e empregou-me como moço de recados no escritório. Tive de responder a uma série de perguntas para ver as minhas capacidades e safei-me. O meu tio tinha uma vida muito preenchida e não podia dar-me atenção. Passei maus momentos porque sentia falta dos meus pais. Foi a dactilografar sentenças no Tribunal de Santarém que nasceu a vontade de ser solicitador. Por volta dos 20 anos fui estagiar durante dois anos para o Tribunal de Santarém sem ganhar nada. Na altura era um bom dactilógrafo, escrevia sem olhar para as teclas da máquina, e o juiz presidente pediu-me para eu ir à noite para o gabinete passar sentenças. Ele ia explicando as razões porque condenava ou absolvia. O gosto pela matéria forense começou a crescer e a minha vontade de ser solicitador era cada vez maior. Lisboa foi a minha grande faculdade. Estive a trabalhar numa empresa de óleos em Lisboa durante quatro anos. Na altura para quem vinha da província, Lisboa era assustadora. Conheci pessoas de várias classes e condições, o que me deu uma bagagem muito grande quando regressei a Santarém. Trabalhava das 10h00 às 02h00. Tinha quase 30 anos quando regressei ao escritório do meu tio em Santarém. Tinha vontade de trabalhar e de ganhar dinheiro e consegui provocar uma reviravolta no escritório. Saltava muitas vezes refeições, o que me conduziu agora a alguns problemas de saúde. O corpo suporta tudo quando somos novos, mas depois pagamos a factura mais tarde. Encontro pessoas da minha idade que estão sentadas no café a conversar sobre doenças. Pela minha parte prefiro continuar a ter uma vida preenchida. Tenho 78 anos, mas continuo a trabalhar normalmente como administrador de insolvências. Gosto muito da minha profissão e preocupo-me em deixar algo para o meu filho e netos. No trabalho também é preciso alguma sorte e eu felizmente nunca tive doenças que me levassem à cama. Ao fim-de-semana gosto de ir ao casino e apostar pequenas quantias para ver se ganho para a viagem ou o combustível. Tenho uns familiares em Cascais e gosto muito de passar lá os fins-de-semana. Vou à praia e à noite passo pelo casino para beber um copo com os amigos e apostar sempre uma pequena quantia. Nunca consegui tirar longos períodos de férias porque tenho sempre prazos para cumprir no trabalho. Tento ir de vez em quando ao Brasil, o país que mais gosto pelo clima, ou até ao Algarve. Vou propositadamente a Arouca comer vitela assada. O único familiar vivo que tenho em Arouca já tem 84 anos. É um amigo dos quatro costados e gosto muito de o ir visitar. É quase um crime dizer isto, mas adoro ir também à minha terra para comer uma vitela assada que nunca mais encontrei igual em mais nenhum sítio. Nunca se deve gastar mais de noite do que se ganha durante o dia. Tem sido o mal das novas gerações. Se alguém ganha 1000 euros, deve tentar colocar 500 de parte, especialmente nestes tempos de crise. Trabalhar muito, estudar e colocar sempre em tudo aquilo que se faz honestidade são os princípios basilares que orientaram a minha vida. Eduarda Sousa
Liszt de Melo

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