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Dos segredos não revelados

Depoimento
Edição de 06.12.2011 | Opinião
Eduarda Sousa *Um ano depois de vir morar para a área de abrangência do jornal, abro a janela, vejo o Tejo e penso que já não conseguiria viver longe. Desde a vastidão da Lezíria, ao cheiro da terra molhada num dia de chuva, passando pela presença permanente dos cavalos nos campos, o Ribatejo entranha-se na gente e quando damos por nós já pensamos que vivemos aqui desde sempre. Saímos de casa e vamos defender a nossa rua com unhas e dentes porque quando tocam no nosso já sabemos como dói. É este sentir dos ribatejanos, bairristas até ao tutano nas terras mais pequenas, que a pouco e pouco toma conta de nós.Há um ano citava neste mesmo espaço, um jornalista para dizer que também a mim me interessava mais escrever sobre as pessoas terra-a-terra, com quem podemos manter conversa sobre o preço do peixe no mercado ou a solidão que nos aflige nos dias mais tristes. Esta minha vontade cimentou-se ainda mais. Hoje interessam-me ainda menos os políticos, os escritores e todos os restantes doutores e engenheiros que nascem como cogumelos a cada esquina. Os rostos mudam, mas a conversa é sempre a mesma. Um ano depois não preciso de recorrer a citações porque tive a sorte de ir conhecendo pessoas extraordinárias que merecem todas as páginas do jornal. Nunca escreveram um livro, algumas não sabem mesmo ler ou escrever, pensam muitas vezes que não merecem uma entrevista. Desde a senhora que varre todos os dias a nossa rua, aos pescadores que andam à cata da amêijoa para conseguirem sobreviver, passando pelo massagista que depois dos 80 anos continua a cumprir o dia de trabalho religiosamente e terminando no jovem invisual que contorna as adversidades da vida com um estalar de dedos, deixando-nos corados das nossas próprias misérias. Tantos mais poderia citar, que todos os dias vou tendo o prazer de conhecer e ouvir, que me detenho por aqui. Destas histórias, existe sempre muito material que não entra na reportagem. Não é que não seja importante, mas o espaço é sempre limitado e cabe-nos a nós o papel ingrato de seleccionar, com se pudéssemos andar ali às tesouradas a uma história de vida. E depois temos os segredos que nos vão confiando e não podem ser revelados porque são isso mesmo, segredos. Ora, todos sabem, que um jornalista é mais curioso que um gato e tudo o que ouve aqui vai querer escrever acolá. Especialmente quando nos dizem “não ponha lá isso” porque é precisamente o que mais temos vontade de pôr. Mas não somos assim tão maus como nos pintam muitas vezes, nem temos sete vidas como os gatos, e o que está “off de record” assim vai permanecendo. É destas paisagens ribatejanas, das gentes que vamos conhecendo, dos segredos que carregamos em nós, do Tejo ou do Sorraia ali tão perto, que vamos vivendo mais um dia e que só o trabalho num jornal de referência como O MIRANTE nos proporciona. * Jornalista

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