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“O toureio é a única arte do efémero”

“O toureio é a única arte do efémero”

Maria Seixo confessou-se aficionada e falou da relação de Alves Redol com a tauromaquia

Se um escritor pode fazer um rascunho, corrigir ou republicar a um toureiro não é dada uma segunda oportunidade na arena. Trata-se da única arte do efémero. Um momento irrepetível que Alves Redol, como muitos outros escritores, não deixou passar em claro na sua obra.

Edição de 14.12.2011 | Cultura e Lazer
Os franceses chamam-lhe desporto. A ensaísta, crítica literária e professora catedrática, Maria Alzira Seixo, fala na tauromaquia como uma arte presente na obra de muitos escritores. Alves Redol não é excepção. Em “Barranco de Cegos” há referência ao toiro e no texto “Sombra e Sangue” (ver caixa), sobre José Júlio, o escritor neo-realista fala também nessa arte para que nem todos estão talhados. “Há plêiades de escritores intensamente aficionados que não são conhecidos por esse lado”, revelou na Casa Museu Mário Coelho, em Vila Franca de Xira, que encheu na noite de terça-feira, 6 de Dezembro, para ouvir falar da relação de Alves Redol com a tauromaquia, um evento que integrou as comemorações do centenário do nascimento do escritor. E se um escritor pode fazer um rascunho, corrigir ou republicar e até um pintor pode debruçar-se durante vários anos sobre um quadro ao toureiro não é dada uma segunda hipótese na arena. É a única arte do efémero. Um momento irrepetível. “O toureiro nunca sabe que animal vai sair, como irá reagir. É um ser vivo que não ensaia para representar um papel”, compara Maria Alzira Seixo que já chocou intelectuais com a sua paixão pelos toiros. Curiosamente outros autores, que não conhecidos como aficionados também tem uma alusão a estes temas. Vitorino Nemésio em “Mau Tempo no Canal” tem a personagem feminina mais rica da literatura portuguesa, depois de “Menina e Moça”, na opinião de Maria Alzira Seixo. No livro Margarida pega uma vaca de caras.Maria Alzira Seixo revelou-se aficionada e fez a defesa da tauromaquia realçando a crueldade que é inerente ao bailado conotado com o idílio sentimental de contos de fadas. “Aqui há tortura para a transformação do corpo humano, exercícios que fazem sangue em nome da beleza”, analisou.O ferro do dia tem que ser observado em directo. Ver a gravação de uma tourada não é a mesma coisa, diz a espectadora fiel da primeira bancada que não se perdoa quando falha um desses momentos únicos irrepetíveis de um artista da arena. Maria Alzira Seixo, sentada ao lado de Mário Coelho, confessou-se emocionada por ver um artista que sempre admirou mais de perto. Mário Coelho agradeceu e revelou que teve o privilégio de ter uma actividade apaixonante toda a vida. “Se os empresários soubessem o amor que tinha pela minha profissão eu é que tinha que pagar para tourear”, rematou com humor.“Fico cá fora com os pobres que não têm pesetas para ir aos toiros”“José Júlio Venâncio Antunes, sobrinho neto daquele Venâncio, que pegou toiros, e filho do Júlio Antunes, um dez réis de gente em cujo corpo não cabia toda a sua coragem e que foi bandarilheiro. A história do matador não vem agora para aqui. É uma história longa, de treinos e touradas clandestinas, antes da nossa família saber das ganas do rapaz para a arte”.Quem o escreve é Alves Redol em “Sombra e Sangue”. O toureiro José Júlio ficou sem pai aos quatro anos, depois de um acidente de motorizada na passagem de caminho de ferro de Alhandra, presenciado pelo próprio que ficou caído na linha, e foi a família do escritor de Vila Franca de Xira, autor de “Gaibéus”, que acolheu o jovem que queria ser toureiro. A mãe, acometida de doença nos pulmões, foi hospitalizada num sanatório no Caramulo.Alves Redol, o amigo, acompanhou o toureiro a uma corrida a Sevilha, Espanha, mas o coração não o deixou entrar em praça. “Doem-me agora as toiradas por causa desse jovem que já detém o maior galardão dado a qualquer matador português - uma orelha em Madrid (…) Fico cá fora com os pobres que não têm pesetas para ir aos toiros”. Ironia do destino, José Júlio acabou por ser colhido. “Ele foi das primeiras pessoas a abeirar-se da cama. Disse-me que não deveria ter feito aquilo, que devia ter despachado o toiro. Respondi-lhe que os toiros não são para despachar. Temos que toureá-los. Como na vida. Nem sabia o que estava a dizer ao escritor”, contou José Júlio numa entrevista concedida a O MIRANTE em 2009. José Júlio e Alves Redol tornaram-se amigos já homens. António Redol e Inocência Alves Redol apadrinharam o menino que cresceu na Barroca de Cima, por detrás da Igreja da Misericórdia, onde alguns rapazes mostravam apetência para tourear entre amigos e umas mantas.A mãe de Alves Redol não queria que José Júlio tentasse a sorte na tauromaquia. O escritor foi quem o apoiou. “Se José Júlio foi toureiro também o deve a Alves Redol. A minha avó costumava dizer que quem se deitava naquela cama lá de casa tinha o destino marcado”, revelou o filho do escritor António Redol, durante a sessão. Quis o destino que os dois se destacassem, um na literatura outro na tauromaquia.
“O toureio é a única arte do efémero”

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