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O bombeiro que salvou vidas luta agora para sobreviver à doença

O bombeiro que salvou vidas luta agora para sobreviver à doença

Aos 42 anos Francisco Graça escreveu o livro “Voluntariamente feliz”

Antes de descobrir os bombeiros Francisco Graça era um jovem triste e sem rumo que chegou a tentar o suicídio. Os soldados da paz mostraram-lhe o caminho. O bombeiro que salvou vidas luta agora contra um linfoma. Os papéis inverteram-se. Escreveu um livro: “Voluntariamente feliz”. Para avisar o mundo que todos os momentos da vida devem ser intensamente saboreados.

Edição de 21.12.2011 | Entrevista
Francisco Graça compara a vida a uma escadaria. Em tempos, quando lhe pediam que subisse 20 degraus, subia 40 e ficava orgulhoso. Hoje pensa o contrário. Para o bombeiro - que combate pela segunda vez na vida um linfoma - o ideal será subir apenas 10. “Isto permite estar mais tempo em cada degrau e aproveitar as coisas simples da vida a que não damos valor quando andamos a correr, como o som dos pássaros e o cheiro da terra molhada”.Quem fala assim, aos 42 anos, é um Francisco Graça renovado e apaixonado por duas princesas que apareceram na sua vida há oito anos para lhe mostrar que a felicidade existe. Uma chama-se Carla, é enfermeira e sua companheira. A outra é Joana, 12 anos, enteada, que Francisco Graça trata como se fosse filha. A grande família dos Bombeiros Voluntários de Azambuja surgiu ainda há mais tempo na vida de Francisco Graça que antes era um jovem triste e sem rumo que chegou a tentar o suicídio. Encontrou nos soldados da paz uma nova inspiração. Quando percorria cabisbaixo as ruas de Azambuja depois de chegar de Lisboa, onde trabalhava como assistente administrativo no serviço de radioterapia do Hospital de Santa Maria, entrava no Café Tipóia e encontrava grupos de bombeiros em confraternização. Admirava esses heróis felizes. Ouvia histórias de emergência. De combate a incêndios. De bombeiros que tinham que fugir de um sítio para ajudar a apagar o fogo noutro. Houve um dia em que a conversa revelou os conhecimentos que tinha do curso de socorrismo da Cruz Vermelha Portuguesa que frequentou para saber movimentar-se melhor no serviço onde trabalhava. Deixou o fato e gravata, que sempre fazia questão de usar, não por obrigação mas por prazer, e vestiu a farda dos soldados da paz em 1996. Encontrou amigos, como o actual comandante Pedro Cardoso, e vestiu pela primeira vez calças de ganga. Conseguiu fazer o que sempre acreditou não ser possível, como subir escadas com vítimas às costas e enrolar mangueiras.Aprendeu a ser feliz ajudando os outros. “Recebemos mais em troca do que as pessoas imaginam”, garante enquanto vai bebericando água de uma garrafa pequena que tem sempre a seu lado. A radioterapia retirou-lhe capacidade de produzir saliva. Quando em 2004 o linfoma (tumor do sistema linfático) apareceu na sua vida a família e os bombeiros foram o seu pilar. “Não me deixaram cair e quando precisei levaram-me ao colo”. O bombeiro que salvava vidas passou a lutar contra a sua própria doença. Os papéis inverteram-se. Decidiu escrever textos sobre a sua experiência no voluntariado para deixar “alguma coisa”. A ideia não era fazer um livro mas a obra acabou por nascer: “Voluntariamente feliz”. O livro relata os bons e maus momentos da vida de um bombeiro (ver caixa). O parto assistido às quatro da manhã de uma noite de Natal mas também o trauma de muitos acidentes. Como o que aconteceu numa noite fatídica em plena Estrada Nacional 3. A vítima foi projectada e estava em paragem cardio-respiratória. O objectivo era reanimar mas a noite roubava a visibilidade. “Meti as mãos na grelha costal para iniciar compressão torácica e as minhas mãos ficaram lá dentro. Toda a grelha costal estava desfeita”. O trauma supera-se, explica, porque todos os bombeiros aprendem a ser psicólogos deles próprios. “Este é um livro de esperança. Um tributo ao voluntariado, aos profissionais de saúde porque descrevo muitas situações por que passo enquanto doente oncológico e também um tributo a Deus porque é um livro de fé”, diz Francisco Graça que acredita que a obra deixará o cidadão comum mais tranquilo em relação ao trabalho dos bombeiros que não se limitam a carregar doentes.Nasceu em Ponte de Sôr, no distrito de Portalegre, mas rumou a Azambuja aos seis anos com a família. O pai trabalhava na CP e a mãe era doméstica. Está a frequentar o segundo ano da licenciatura em Engenharia da Protecção Civil. Se a quimioterapia não o tem travado já teria concluído o curso.Está actualmente de licença sem vencimento do hospital e colabora com os bombeiros. Espera voltar ao trabalho em Janeiro, fazer exames médicos e continuar a luta pela vida depois de dois anos de quimioterapia. Isto porque a doença regressou em 2009 com mais intensidade. O linfoma, não sendo uma coisa boa, ajudou-o a ser mais feliz. “O conceito de felicidade das pessoas está ligado à perfeição e aos bens materiais. Também já achei isso. Agora discordo totalmente”.A doença fê-lo desprender-se do acessório. Pouco importa se vai viver muitos ou poucos anos. Hoje é hoje. Amanhã logo se vê. “Continuamos a construir grandes impérios e esquecemo-nos de viver. Acordar é uma vitória. Levantamo-nos e vamos para a correria do dia-a-dia em busca dos bens materiais como se vivêssemos eternamente”.Francisco Graça avisa que não se deve desistir dos objectivos mas admite que às vezes é importante parar e redefini-los. “Quem ler o livro consegue perceber que é possível que isto aconteça a qualquer um: ser feliz”. O solavanco da ambulância salvou um doenteUma chamada de emergência chega ao quartel dos Bombeiros de Azambuja. A situação é grave: obstrução de via aérea. “Deparámo-nos com um senhor com muita dificuldade em respirar. Alto, magro e com um bigode enorme. O senhor estava em pânico. A causa... uma banana inteira que foi para a garganta... não me perguntem como é que aconteceu! Tentámos várias manobras de desobstrução da via aérea mas sem sucesso”, relata Francisco Graça no livro “Voluntariamente feliz”, que foi apresentado no domingo à tarde no quartel dos bombeiros, em Azambuja. Foi há dez anos mas o bombeiro não esqueceu o episódio. Francisco Graça pediu ao motorista da ambulância que acelerasse até ao centro de saúde. A velocidade era razoável mas a estrada era péssima. Sem querer o motorista passou com a roda num enorme buraco. “Cá atrás, dentro da ambulância, quase que batemos com a cabeça no tejadilho. Foi assustador! Olhei para o doente e … estava com um enorme sorriso. Já respirava normalmente! Apenas disse: Abençoado buraco! A banana já passou!”.Francisco Graça lembra que nem sempre as técnicas que se aprendem resultam na perfeição. Existem momentos de sorte. “Foi um serviço invulgar com um desfecho bem feliz. O doente agradeceu ao motorista com um abraço. O motorista que não era socorrista acabou por salvar o senhor da morte quase certa”. Um livro que é uma lição de vida“Voluntariamente feliz” é um livro de lições, de sentimentos e afectos. Foi desta forma que o presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Joaquim Ramos, descreveu o livro de Francisco Graça, que apresentou na qualidade de cidadão. “Raramente uma pessoa consegue transpor para o papel o conjunto de sentimentos em relação aos outros e a si próprios com esta intensidade”, garante Joaquim Ramos que considera que quando se começa a primeira página deste livro dificilmente se consegue parar. E citou o autor que escreve no final da obra: “Nem todos os livros podem terminar com a célebre frase...«e foram felizes para sempre» mas eu posso dizer que sou Voluntariamente feliz!”.O livro tem a chancela das Edições Vieira da Silva (www.edicoesvieiradasilva.pt) que leva ao prelo obras de escritores desconhecidos. Para o comandante dos Bombeiros Voluntários de Azambuja, Pedro Cardoso, Francisco Graça, que já ocupou o cargo de segundo comandante mas regressou à base, é uma referência do voluntariado e um exemplo de humildade de alguém que não se move por protagonismos, características que só “os homens grandes possuem”.
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