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Memórias da Índia portuguesa 50 anos depois da invasão

Memórias da Índia portuguesa 50 anos depois da invasão

José de Araújo partiu para Goa, na então Índia portuguesa, em 1960. Passou por Damão, percorreu o que restava do império português nessa zona do globo e viu a morte a rondar. Regressou incapacitado a terras lusas após a rendição do contingente português que tanto irritou Salazar.

Edição de 21.12.2011 | Sociedade
Tem a hora e a data ainda gravadas na memória: 05h40 de 18 de Dezembro de 1961. José de Araújo tinha pouco mais de 20 anos e fora destacado para a Índia cerca de um ano antes. Há muito que se ouvia que os indianos iam invadir os últimos territórios portugueses, Goa, Damão e Diu, mas a ameaça já era tão antiga que os militares lusos a levavam na brincadeira. A invasão acabou por dar-se quando menos esperavam. “Eram dez mil soldados indianos, armados com G3, armas 30 vezes superiores às nossas. Nós em Damão éramos 300, com as velhas Mauser”. A aventura de José de Araújo começara a 3 de Janeiro de 1960, quando assentou praça e viu na lista, a vermelho, em frente ao seu nome, “Índia”. Vive actualmente em Riachos, Torres Novas, mas é natural de Lamego. Após três meses de recruta, partiu para Goa. Uma viagem de barco, com muitos balanços e enjoos. “Pedi a morte”, recorda, lembrando que o capitão lhe dizia que ele era forte e iria aguentar a viagem. Após oito meses em Goa foi para Damão. Já na Índia comprou uma máquina fotográfica e ocupou aqueles primeiros meses de tranquilidade e rotina a tirar fotografias às pessoas e aos lugares. Ainda hoje guarda num envelope os registos amarelados que conseguiu trazer da sua passagem pelas ex-colónias do Oriente, onde é possível ver casas ao estilo colonial, pessoas de rostos sombrios, casamentos e retratos de tropa. Comenta que já houve alturas em que as fotografias estiveram para ir para o lixo, mas vão sobrevivendo ao lado de outros álbuns de recordações.Sem problemas e procurando o convívio das populações, que apesar de alguns receios acabavam por se mostrar amigáveis, teria sido um serviço militar sem grande história não fosse a invasão indiana. O alerta já se ouvia há muitos meses, proveniente da rádio da União Indiana, mas os militares não acreditavam que viesse a suceder. “Aquilo era uma pândega, de conversas de rapazes”, recorda, comentando que Damão era pouco maior que Riachos. “Até ao fatídico dia…”. Estava a dormir quando ouviu a sirene e começaram os tiros. Em Damão pouco foi destruído, apenas os quartéis e o mercado. Os militares indianos conheciam bem o terreno, melhor que os portugueses, e apesar de em Damão ainda ter havido resistência durante 36 horas, as tropas portuguesas acabaram por render-se. “Perdi logo dois colegas”, conta, um no aeroporto e outro que se suicidou. José de Araújo ia numa carrinha de caixa aberta quando esta foi abalroada por um veículo indiano. “Fui projectado a 30 metros, a minha salvação foi o capacete. Parti o braço e fiquei com o joelho esmagado”.Foram horas de suplício. “Consegui estar no hospital aquelas 36 horas numa dificuldade terrível, era um sofrimento de morte. Assim que ouvia os aviões começava a tremer. Cheguei a ter sete pessoas debaixo da cama. A minha cama andou no ar”, recorda.Depois foi a história já conhecida. Os militares portugueses estiveram cinco meses prisioneiros na União Indiana, alguns quase foram fuzilados em Goa, mas conseguiram sobreviver. Da pátria distante, o ditador Oliveira Salazar exigia-lhes que lutassem até ao fim. Mas se isso tivesse acontecido “tínhamos morrido lá todos”, refere. Não tinham nem o número de homens nem o arsenal bélico para fazer frente à invasão indiana.José de Araújo é um dos sobreviventes. Estiveram para lhe cortar a perna, mas não deixou. Os médicos acabaram por encontrar uma solução e hoje tem uma incapacidade de 36,6 por cento. Enquanto prisioneiro, reconhece que os portugueses apenas foram mal tratados no que toca à alimentação. “Era uma água tingida com não sei quê, devia ser farinha. Depois uma metade de batata com muito caril, grão-de-bico, mas muito pouco. Quem quisesse comer tinha que comer arroz de caril, que lá se comia à mão”. Ainda experimentou o pitéu indiano, mas a experiência foi tão horrível que nunca mais tentou a proeza.Foi a guerra que o trouxe para RiachosFoi dos primeiros a regressar a Portugal por estar entre os feridos. Durante treze meses andou pelos hospitais, até que lhe permitiram regressar a casa. Poucos dias passados, foi visitado por um militar que o informou que estava apto para o serviço militar. A guerra em Angola começava a subir de tom. Sem ter para onde se virar ou como sobreviver, apesar de se saber incapacitado, escreveu às altas instâncias dando conta da sua situação e que, se estava apto, queria fazer carreira militar. Foi logo dispensado. “Eu fiquei com a rótula esmagada. Ao fim de três dias recebi carta a dar-me como incapacitado”. Comenta que foi a guerra que o trouxe a Riachos. Foi uma senhora que mais tarde viria a ser sua cunhada que lhe falou de um trabalho em Torres Novas, no hospital, e ele como estava inscrito na Liga dos Combatentes teve preferência. Veio para Torres Novas e em Riachos constituiu família. Acabou por estar como telefonista no Hospital de Torres Novas durante 36 anos. “Foi a minha salvação”, reflecte.Olhando para trás, confessa que gostava de regressar à Índia e ver o que mudou. “Já estive para lá ir. Aquilo não tinha nada. Eles só tiravam de lá ferro, mais nada. Damão era pior, tinham aquilo só por vaidade. Diu não cheguei a conhecer. Recordo-me das hienas, havia lá muitas. Tinham um cheiro muito desagradável. Cheguei a apanhar uns sustos. Vi um elefante ao longe. As pessoas eram muito simpáticas. Fossem hindus, cristãs, sicks, eram impecáveis. Tinham-nos muito respeito”.Sentiu alguma vez algum preconceito por ter sido um dos militares que perdeu Goa, Damão e Diu para a Índia? “Não fomos muito bem vistos quando cá chegámos, mas nunca nos trataram mal. Por vezes havia era certas bocas do género: «eles entregaram a Índia». Teríamos morrido lá todos”.
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