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“Existem ainda pessoas que em vez de irem ao médico preferem consultar o farmacêutico”

“Existem ainda pessoas que em vez de irem ao médico preferem consultar o farmacêutico”

Maria Isaura Galveia, 68 anos, Farmacêutica, Porto Alto

Não consegue estar parada. Tem 68 anos e uma energia contagiante. Maria Isaura Galveia é a proprietária da Farmácia Mendes, no Porto Alto, Samora Correia, concelho de Benavente. Depois de ver que não conseguia assistir a uma operação, optou por escolher a profissão de farmacêutica. Não se arrepende. Se achar que tem razão, não desiste da sua teimosia que a acompanha desde pequena. Tem três vezes por semana aulas de natação que a ajudam a descomprimir.

Edição de 21.12.2011 | Três Dimensões
Vendi muita gasolina para ajudar os meus pais. Os meus pais tinham uma bomba de gasolina aqui no Porto Alto e eu tinha de os ajudar. Não sou traumatizada por ser filha única mas nestas alturas é que sentia a falta de um irmão. A minha mãe que era doméstica também vinha sempre dar uma ajuda na bomba. Lembro-me de andar descalça a brincar na terra. Nasci em Valada do Ribatejo, mas vim cedo para Marinhais onde vivi até aos 13 anos, antes de vir para o Porto Alto. Tive uma infância normal. Vivia no campo, os meus pais tinham um terreno e era lá que andava descalça a jogar à bola. Lembro-me de ir de bicicleta para a escola e de o meu pai me ir buscar também de bicicleta. Naquele tempo vivia-se dentro das posses que se tinha e agora vive-se acima. Por isso é que chegamos a este ponto. Estudei sempre graças ao sacrifício dos meus pais. Tive um chefe que dizia que eu era brava. Quando trabalhei num laboratório em Lisboa, o meu patrão que gostava muito de toiros e do Ribatejo dizia que eu era brava. Desde pequena que sou muito teimosa e tenho de levar sempre a minha avante. O meu marido e os meus filhos também são extremamente teimosos e de vez em quando tenho de acabar com a teima. Se tiver a certeza que é uma caneta, não me venham dizer que é um lápis.Deixei de querer tirar medicina quando vi que não era capaz de assistir a uma operação. Não podia ver sangue. Pensei em algo parecido e acabei por ir para a farmácia. Hoje vejo muita gente a optar por cursos sem terem verdadeira paixão. Eu sempre gostei muito de química. Era uma aluna média e naquele tempo as notas não eram tão exageradas para entrar na universidade. Também cheguei a chumbar. Fiquei na casa de umas pessoas amigas em Odivelas quando andava a tirar o curso de farmácia em Lisboa. Nunca senti muito a falta de casa porque vinha sempre ao fim-de-semana e o ambiente era muito familiar. Existem ainda pessoas que em vez de irem ao médico vêm à farmácia. Há pessoas que confiam muito no farmacêutico. Temos outros casos muito complicados. O atendimento ao público não é nada fácil. Há muitas pessoas que nos pedem para dispensar medicamentos que estão sujeitos a receita e quando nos recusamos geram-se por vezes situações complicadas. É muito mais aliciante preparar um comprimido do que vende-lo. Trabalhei durante 14 anos num laboratório em Lisboa. Sempre gostei muito da parte da indústria, de estar a mexer nas coisas. Mas os meus pais queriam que eu viesse para o Porto Alto e abrisse uma farmácia. Demorei ainda oito anos para que me deixassem abrir aqui uma farmácia. Já passei por três espaços. Fui assaltada algumas vezes. A pior foi quando cheguei a ter uma faca apontada à barriga. Não sou capaz de estar parada e até no único dia de descanso semanal tenho de vir para a farmácia. Faço muitos serões aqui. Já tenho idade para estar reformada, mas não consigo. Moro por cima da farmácia que tem disponibilidade durante a noite. Ou seja, se alguém cá vier com uma receita sou obrigada a atender. É violento ter de acordar a meio da noite. Mas as pessoas conhecem-me e muitas sabem que em Samora Correia existe sempre uma farmácia de serviço durante a noite e optam por lá ir. Há pessoas com 30 ou 40 anos que não me chegam sequer aos calcanhares. Trabalho a um ritmo muito elevado. Não tomo nenhum elixir. Três vezes por semana tenho aulas de natação que não dispenso. É o tempo que consigo tirar para mim. Gosto também muito de ler, especialmente quando estou de férias. Devoro todos os livros do José Rodrigues dos Santos. Opto geralmente por leituras mais leves para conseguir descansar um pouco. Sou eu que preparo as refeições em casa, mas escolho sempre pratos simples porque o tempo não é muito. Não sou esquisita, mas devoro sopa, qualquer uma. Tenho uma empregada doméstica que me vem limpar a farmácia e a casa.Eduarda Sousa
“Existem ainda pessoas que em vez de irem ao médico preferem consultar o farmacêutico”

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