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Bacalhau com couves e um cobertor para aquecer quem vive na rua

Bacalhau com couves e um cobertor para aquecer quem vive na rua

Companheiros da Noite ofereceram jantar de Natal aos mais desfavorecidos

Os Companheiros da Noite juntaram à mesa, no refeitório da Cercipóvoa, pessoas sem abrigo mas também famílias em dificuldades, algumas com filhos, que têm um tecto mas a despensa vazia. Aconchegaram o estômago com bacalhau e doces da época e levaram um cobertor para suportar as noites mais frias que se aproximam.

Edição de 28.12.2011 | Sociedade
Ana Santiago Manuel Carvalho tem 61 anos, a barba desfeita e o casaco impecavelmente limpo e engomado. Ninguém diria que vive no velho edifício da Fábrica do Arroz, em Vila Franca de Xira, numa divisão do primeiro andar que antes foi um escritório. Mudou-se para lá há três anos. Construiu a sua própria mesa com tábuas. Tem uma cama e cadeiras. O espaço a que chama o seu canto com orgulho é iluminado por uma vela. Tem uma telefonia a pilhas que lhe faz companhia e recebe a água da chuva num bidão de 20 litros que usa para a higiene diária. A água está à temperatura ambiente mas este homem não tem frio no rosto.“Já tive uma linda vida. Fui casado e tive quatro filhos”, diz prontamente sem a dignidade tocada pelo facto de depender dos Companheiros da Noite para receber às vezes uma refeição quente. Já foi emigrante. Espera ter direito à reforma quando a idade chegar. Não recebe prestações sociais. Trabalhou muito na construção civil antes de sofrer um acidente de trabalho. Tem uma prótese na perna. Mesmo assim já se tem candidatado a trabalhos nas obras. “Hoje tenho trabalho mas amanhã já não tenho”, explica sobre o dia a dia.Manuel Carvalho não arrisca alugar uma casa com receio de não ter dinheiro para pagar a renda no final do mês. “Vou meter-me num encargo que depois não posso suportar? Prefiro estar onde estou”. Às mulheres com quem viveu, mães dos seus filhos, deixou sempre as respectivas casas. Prefere viver na rua a ter que vergar-se a pedir-lhes ajuda. Os filhos não sabem que Manuel Carvalho não tem casa. É a irmã, viúva, que vive em Vila Franca e a quem não conseguiu esconder durante muito tempo onde vivia que lhe trata da roupa. Aos domingos vai almoçar em família mas não gosta de incomodar. Partilhar a casa com a irmã, que já é pequena, não lhe passa pela cabeça. António Martins, 50 anos, divorciado, quatro filhos e três netos, também recusa a ideia de viver com os descendentes que pouco espaço têm na casa para quem já lá está. Pernoita igualmente num prédio devoluto sem água e electricidade. Tem uma cama onde, tal como Manuel Carvalho, irá colocar o cobertor oferecido pela Universidade Sénior no jantar de Natal organizado pelos Companheiros da Noite num sábado à noite. O banho é tomado no balneário de Povos. Quando pode almoça no refeitório social. Nos dias de maior carência procura o apoio da associação. Já cortou lenha, foi trabalhador da recolha do lixo mas enfrenta agora o desemprego. O trabalho não é certo. No Verão trabalhou nas plantações de melão e ganhou 30 euros por dia. “Quando tenho alguma coisa também gosto de ajudar os filhos”.No fim do jantar António Martins leva para aconchegar o estômago uma caixa com os doces da época tal como os restantes utentes da associação. O jantar de Natal, oferecido pelos Companheiros da Noite, com o apoio de alguns amigos, é já uma tradição. À mesa, além do tradicional bacalhau com couves e batatas, serviu-se arroz doce, pudim, farófias, bolo rei, coscorões, filhoses, sonhos e bolo de chocolate. “As condições socio-económicas vão agravar-se e é natural que estes casos aumentem. Também nós vamos ter que nos reinventar, criar novos apoios e tentar sobreviver”, garante um dos elementos da direcção dos Companheiros da Noite, Helena Timóteo.Companheiros da Noite precisam de nova sedeOs Companheiros da Noite precisam de um novo espaço que funcione como sede. A associação de apoio aos sem abrigo tem usado nos últimos anos as instalações dos Bombeiros Voluntários da Póvoa de Santa Iria, no concelho de Vila Franca de Xira, mas a corporação já avisou a associação que vai remodelar o espaço para rentabilizá-lo face às dificuldades que também atravessa. Os Companheiros da Noite decidiram também por isso canalizar os 2500 euros que recebem da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira para os Bombeiros Voluntários da Póvoa de Santa Iria como forma de compensação pelo uso das instalações. “Não temos capacidade de competir com um particular em termos de pagamento de renda. Provavelmente teremos que procurar sede onde possamos desenvolver o trabalho”, revela Helena Timóteo. A dificuldade, admite, poderá pôr em causa o trabalho da associação que já envolve uma logística complexa. Os companheiros contam com 52 voluntários e fazem duas voltas semanais que requerem preparação. A volta de quarta-feira é patrocinada pela câmara municipal mas ao sábado é preciso preparar a sopa, os sacos com alimentos e a roupa. “Necessitamos de um espaço com algumas condições. Não pode ser uma loja. Precisamos de uma cozinha com fogão profissional que tenha capacidade para os dois panelões de sopa que num fogão normal demoram horas intermináveis a cozer. É necessário um sítio para a roupa e outro para a comida, uma sala para secretaria e outra de trabalho”.A associação já abordou a Junta de Freguesia da Póvoa de Santa Iria e irá pedir ajuda à câmara. Os Companheiros da Noite beneficiaram este ano de seis campanhas dinamizadas por várias instituições e empresas, incluindo a Central de Cervejas que entregou 2.284 euros. Outras entidades também contribuíram como uma academia de dança, a divisão da juventude e o departamento de acção social da câmara. O Casba, de Alverca, ofereceu o bacalhau para o jantar de Natal, a associação de reformados da Castanheira do Ribatejo entregou chapéus e cachecóis aos sem abrigo e o Grupo Atlético Povoense transportou-os de autocarro até à Cercipóvoa que por sua vez cedeu o espaço.Quem vive na rua não pode lavar roupaQuem vive na rua ou numa casa sem as mínimas condições não tem possibilidade de lavar roupa. Os Companheiros da Noite, que apoiam sem abrigo, têm isso em conta e em todas as voltas que fazem para apoiar os mais carenciados no concelho distribuem alimentos mas também vestuário. Este ano, depois do jantar de natal, entregaram roupa interior nova que recolheram com a ajuda dos voluntários além dos cobertores.“Sem balneários públicos ou lavandarias públicas onde possam fazer a higiene das suas coisas quem vive na rua não tem condições de lavar roupa, tomar banho e ter outro aspecto. Logo as coisas deterioram-se. Não havendo possibilidade de fazer a manutenção têm que as deitar fora”, reconhece Helena Timóteo. Durante o ano os sem abrigo recebem roupa interior já usada que vestem e deitam fora. Este ano, no Natal, uma voluntária que tem um cabeleireiro na Póvoa de Santa Iria conseguiu a colaboração de alguns clientes que ofereceram cuecas e meias novas. “Há muita dificuldade em que as pessoas dêem roupa interior “, confirma a voluntária Ana Oliveira. Já há famílias com tecto a comer da sopa dos sem abrigoUm menino de dois anos percorre os corredores da Cercipóvoa depois da ceia de Natal oferecida pelos Companheiros da Noite numa noite de sábado. A mãe e o pai, de 20 e 26 anos, vão-se dividindo a vigiar a criança.Alexandra está empregada num hipermercado mas o contrato está quase a terminar. Henrique trabalha na construção civil. Nem todas as semanas é chamado. Vivem numa casa alugada em Vila Franca de Xira. Pagam 350 euros de renda e pouco fica para o resto, incluindo o infantário. Vale o apoio dos amigos Companheiros da Noite que os ajudam com papas, fraldas e leite para o filho. Alexandra frequentava o 11º ano quando engravidou. Alugaram uma casa mas a vida a dois está a revelar-se difícil. A família mora perto mas não pode ajudar muito mais. Henrique, que já trabalhou na logística, dedica-se agora às obras. Nas horas livres angaria ferro velho de onde tira cobre para vender. Já tiveram a renda em atraso mas no Verão fizeram a campanha do tomate na Italagro e entregaram de uma só vez mil euros ao senhorio. Querem trabalhar. “Nem que seja a varrer as ruas”, garante o pai de família. Na associação conhecem bem a família que apoiam desde o nascimento do bebé. Já não são só os sem abrigo que pedem ajuda aos Companheiros da Noite. Há uma realidade recente confirma um dos elementos da direcção, Helena Timóteo. “Até há pouco tempo atendíamos maioritariamente homens, isolados, que viviam sem grandes condições de habitação, desempregados e sem rendimentos. Neste momento estão a aparecer famílias e casais desempregados. O rendimento é canalizado para a renda da casa não sobrando depois para a alimentação”, explica.Actualmente a associação apoia 70 pessoas mas por noite aparecem normalmente apenas entre 40 a 45. Existem pontos de encontro previamente combinados onde se distribuem alimentos e agasalhos. A palavra vai passando entre quem precisa. “As assistentes sociais comunicam que há pessoas em carência. Outras vezes são pessoas da comunidade que já conhecem o nosso trabalho e que nos telefonam a dizer que alguém precisa”, explica Helena Timóteo. O antigo refeitório social foi disponibilizado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira para distribuir a sopa. Fazem as voltas à quarta e sábado com o apoio dos voluntários. Ininterruptamente.
Bacalhau com couves e um cobertor para aquecer quem vive na rua

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