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O preso político de Caxias foi “a salto” para França para fugir à guerra

O preso político de Caxias foi “a salto” para França para fugir à guerra

As aventuras de Arnaldo Silva, filho de uma peixeira e de um pescador de Vila Franca

Arnaldo Silva, filho de uma peixeira e de um pescador de Vila Franca de Xira, foi preso político em Caxias. Antes de ser apanhado pela polícia teve tempo de deitar fora a chave de casa onde tinha material de propaganda. As lágrimas caem-lhe quando recorda os seis meses de cárcere e tortura. Orgulha-se de não ter “levado” ninguém consigo. Para fugir à guerra do Ultramar foi “a salto” para França. História de um revolucionário de Vila Franca de Xira que continua atento à terra onde que vive.

Edição de 07.03.2012 | Entrevista
Foi em Dezembro de 1971. Arnaldo Silva, um dos fundadores do MRPP e responsável por uma das células entre Santa Iria da Azóia e Carregado, saiu à porta de sua casa em Santa Sofia, Vila Franca de Xira, para iniciar mais um dia de trabalho quando foi surpreendido pela polícia política. Ripostou com grande aparato para chamar a atenção e ter tempo de mandar a chave de casa para o mato onde tinha grande quantidade de folhetos do partido para divulgação.Seguiram-se seis meses em Caxias para um jovem de apenas 18 anos. As lembranças do cárcere ainda o fazem derramar lágrimas à distância de quarenta anos. Foi libertado em Maio de 1972. Foi condenado a um ano de prisão. Os seis meses seguintes foram substituídos por dinheiro que o patrão pagou e que prometeu descontar do ordenado embora nunca o tenha feito na totalidade. Na prisão foi agredido a pontapé e murro e chegou a estar sem dormir quase uma semana inteira. O factor psicológico pesava. Apresentavam-lhe nomes que nem tinham que ver com a actividade do partido. Uma das últimas vezes acordou numa maca. A tortura fê-lo ser transportado ao Hospital Miguel Bombarda. “Não me deixavam sentar. Batiam nas mesas e davam pontapés nas cadeiras. Dava saltos terríveis. Lembro-me de tentar dormir em pé e de acordar com empurrões e cair. Tive períodos em que estava a dormir em pé”. Ainda assim garante que comparado com outros foi um privilegiado. “Tenho muito orgulho em não ter levado ninguém comigo. Não citei nomes e a prova é que o pessoal que andava comigo continuou livre e ninguém foi molestado”. Como membro da organização recebia a documentação e distribuía-a por várias zonas. Ia recebê-la na Póvoa de Santa Iria, às duas da manhã, antes do último comboio que passava da Póvoa para Vila Franca. Um carro parava. Dizia-se um código que era confirmado com uma contra senha e tudo bateria certo. Os telefones eram codificados. Usava o calendário de futebol e os resultados para anotar a sequência dos números. Os argumentos de algumas torturas foi os papéis que trazia no bolso. Contactos codificados que hoje Arnaldo Silva já não saberia ler. A política começou a fervilhar em Outubro de 1969 nas vésperas das eleições da primavera Marcelista. Já na altura se interrogava sobre a presença da GNR no campo de Alhandra e sobre a autoridade máxima que era o cantoneiro que não deixava os meninos jogar à bola. Quem levantava questões não era bem vindo. Ligou-se à secção cultural do União Desportiva Vilafranquense que lhe abriu as portas da literatura proibida e ao número 34 do Bairro do Casi onde a consciência política corria a rodos.Participou em recolha de assinaturas para libertação de presos políticos e deixou mensagens em paredes contra a guerra colonial e aproveitando dias de baile em que as ruas estavam cheias. Chegou a ajudar a controlar a própria polícia e GNR para saber quantos elementos tinham e por onde andavam fazendo depois o circuito de seguida. Quando o espectro da guerra colonial pairou sobre a sua cabeça decidiu sair do país em 1973. Foi com um grupo de cinco “a salto” para França. Saíram no mesmo dia. Alguns viajaram de comboio até Vilar Formoso. Outros seguiram de carro. Em Espanha encontraram quem os ajudasse a delinear um plano que não levaram de Portugal. Quem os ajudou na passagem da fronteira cobrou à medida daquilo que tinham. Em Espanha foram conduzidos a um café cujas traseiras davam acesso à fronteira de França. Esconderam-se numa zona de corte de madeiras onde um carro os foi buscar. Levaram apenas camisolas e o dinheiro que esconderam num rasgo que abriram no cinto. A ideia não era permanecer em França mas seguir para Holanda, Suécia ou Bélgica. Arnaldo Silva escolheu ficar ali sozinho sem falar francês. Conheceu dois casais que o ajudaram a pedir o estatuto de refugiado político. Durante os primeiros meses viveu num foyer de trabalhadores marroquinos e argelinos. Como não falava a mesma língua comunicava por gestos. “Nessa altura já via os filmes de Charlot e desenrascava-me”, brinca à distância de várias décadas. Tinha direito ao pequeno almoço. Não passou fome porque o estatuto de refugiada dava-lhe acesso a uma senha para refeições. Quando passava no corredor do refeitório havia um queijo que caía acidentalmente e que Arnaldo Silva recolhia na longa gabardina que usava. Ficou até Julho de 1975. Trabalhou como desenhador. Era o que se chamava um emigrante de luxo, tratado como um engenheiro. De regresso a Portugal acabou por passar à reserva territorial. Tinha acabado de estalar o 25 de Novembro.Refugiado político em França, refractário em Portugal Em Portugal chamaram-lhe refractário. Em França, para onde foi “a salto” para fugir à guerra do Ultramar, sobreviveu dois anos com o estatuto de refugiado político. Foi acusado de fugir mas assume-o como assumiu ter sido um dos fundadores do MRPP em Vila Franca de Xira. A frontalidade é uma das suas características. Nasceu em Vila Franca de Xira mas foi registado em Alhandra com um desfasamento de seis meses. A mãe, peixeira, que tinha já uma costela de revolucionária e problemas com a política local por causa dos negócios entendeu que o filho seria registado quando quisesse. Arnaldo Silva, o quinto de oito irmãos, viveu em Alhandra até aos 10 anos. Em menino trabalhou na mercearia do Zé Borges depois de sair da escola. Tinha oito anos. Ocupava os sábados e os finais de tarde a entregar cabazes com mercearias aos clientes. Às cinco da manhã acompanhava a mãe de Alhandra a Vila Franca pela beira rio para comprar peixe aos avieiros que vendia em Lisboa no mercado do Chile. A mãe levava o peixe em cabazes escondidos debaixo do banco do comboio para Lisboa. Nesse dia Arnaldo Silva tinha pequeno almoço no café do diamantino no largo da estação, em Vila Franca de Xira, para onde a família se mudou depois da morte do pai. Começou a trabalhar aos 13 anos numa serralharia em Lisboa e fez o curso industrial em Vila Franca de Xira como trabalhador estudante. Foi aprendiz na empresa Mevil, em Santa Sofia, e bateu-se pelo direito dos estudantes trabalhadores, o que lhe valeu o despedimento por ser “indesejável”.Ainda tem dificuldade em fixar datas e nomes, uma capacidade que treinou durante o tempo de ditadura para proteger quem trabalhava consigo. Foi serralheiro na Mague e delegado industrial de uma empresa espanhola de equipamentos mecânicos. Reformou-se em 2011 para não ser mais penalizado na reforma. Vive na Loja Nova. É casado e tem uma filha. Não ostenta galões de herói. Considera até que os jovens não têm que admirá-lo pelo que passou. “O que quero é que toda a gente esteja melhor do que eu. Não quero que andem de calças rotas como eu andei”.“O Partido Socialista foi uma das minhas maiores desilusões”Integrou o executivo da Junta freguesia de Vila Franca de Xira durante dois mandatos eleito pelo PS. Infelizmente. O Partido Socialista foi uma das minhas maiores desilusões. Sou politicamente incorrecto mas não me importo porque não tenho o rabo preso. O Partido Socialista vai ficar na história como o maior traidor dos ideais sociais do povo português. Porquê?Para já tenho muitas dúvidas de que seja um partido de esquerda. Terá algumas pessoas de esquerda mas o problema está no miolo que é de direita. O PSD não me enganou. O CDS também não. Quem me enganou foi o PS.Por que razão se candidatou pelo PS?Pensei que o PS fosse alternativa de esquerda àquilo que havia no concelho, nomeadamente o Partido Comunista. No primeiro mandato candidatei-me como independente e no segundo acabei por filiar-me. Não me agradou a corrida aos lugares. A traição era muita. Andavam a governar mais do que a governar a autarquia. Não se fazia debate político. Hoje em dia com que partido se identifica mais?Sou uma pessoa que quer o bem estar e a evolução, que não quer retrógrados, que quer direitos e responsabilidades. Se isso é ser de esquerda, sou de esquerda. Se isso é ser comunista, também o sou. O contrário é que não. Está a falar em termos gerais ou no concelho de Vila Franca?Conheço melhor o PS do concelho de Vila Franca. Uma mão dava para enumerar as pessoas boas. Bati com a porta porque fui contra o abanar da cabeça, os yes man’s, a obrigatoriedade de seguir cegamente as coisas. Não sou seguidista. Quando o partido comunista esteve no poder em Vila Franca partilhou pelouros com o PS. Quando o Daniel Branco saiu o PS fez coligação com a Zita Seabra [PSD]. Andámos 20 anos a mamar na teta do Branco e dois dias depois viramos-lhes as costas. Nas últimas eleições autárquicas o PS voltou a fazer coligação com o PSD…O Partido Socialista está mais perto do PSD do que qualquer outra força. Aquilo que o PS criticava no Partido Comunista fez o mesmo ou pior!O PS em Vila Franca governa à direita?O PS é um partido que governa à direita. Maria da Luz Rosinha tem uma vertente social muito activa…É uma senhora inteligente. Vem da área católica. Também conhecemos muita gente da direita com preocupações sociais. Mesmo no tempo do Salazar se matava a fome aos pobres.O PS tem alguma hipótese de ganhar as próximas eleições autárquicas?Espero bem que não. As maiorias em Portugal deram sempre mau resultado. Quando é que Portugal teve evolução? Sempre que houve minorias. Põe a hipótese de voltar à política? Não tenho vontade. Não me agrada nada a democracia fascizante que temos em Portugal. Já vi este filme de maneira diferente. Já vi os presidentes das câmaras serem eleitos pelo colégio interno e faziam um trabalho de amigos. Agora são eleitos pelo povo mas são fascizantes. Eles andam a rodar e são sempre os mesmos.João de Carvalho poderá ser eleito.Não tem qualquer hipótese. Além disso pertence ao partido que está no governo e que é da social democracia liberal. É um partido que já nada tem que ver com Sá Carneiro. Não tenho preferências para as próximas eleições. Só não gostaria que houvesse maiorias. Só ficarei preocupado quando me tirarem o bilhete de identidade. Nessa altura terei que ir à procura de um país que me queira. Para o poder político nada melhor do que a ignorância do seu povoQuando aceitou ser autarca com que Vila Franca de Xira sonhava?Com uma Vila Franca com menos burocracias, com menos papagaios a falar nas sessões públicas que deixam apenas alguns minutos para as pessoas intervirem, o que não promove a participação. A cidade poderia estar mais desenvolvida?O que temos do ponto de vista cultural tirando o Museu do Neo-Realismo e o auditório da freguesia? Pouco e se há alguma coisa bem feita é o museu…Mas são poucas as pessoas que passam da cafetaria e os que entram são sempre os mesmos…No tempo em que começámos a militar do ponto de vista associativo e cultural abriram-se cooperativas livreiras e cine-clubes. Quase que pagávamos para entrar. Era tudo às nossas custas. O que aconteceu a seguir ao 25 de Abril e em especial nos anos 80? Tudo começou a ser feito pelas câmaras e dado de mão beijada. As pessoas deixaram de ir às colectividades que deixaram de realizar coisas e as pessoas deixaram de ser sócias. Para o poder político nada melhor do que a ignorância do seu povo. Portugal sempre foi um país de miséria exactamente para subjugar a inteligência do povo. E em termos urbanísticos?Em Vila Franca temos uma ilha histórica envelhecida sem ninguém lá dentro e depois os caixotes. O parque habitacional envelhecido, consequência da má política de gestão que obrigou as pessoas a sair do centro para os montes deixando Vila Franca deserta. Não há ninguém a viver cá dentro o que potencia a insegurança. Há volta a dar?Poderá ser tarde e ter custos para a zona histórica. Sempre defendi que as casas que são para residências devem ser para residências e não para escritórios de advogados. A não ser que existam ao nível do rés do chão.
O preso político de Caxias foi “a salto” para França para fugir à guerra

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