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No século XIX o concelho de Azambuja foi extinto durante uma semana

No século XIX o concelho de Azambuja foi extinto durante uma semana

Historiador e museólogo José Machado Pereira é um grande estudioso do concelho

José Machado Pereira passou de desenhador da construção civil a historiador. Esteve vinte anos sem estudar até que decidiu debruçar-se sobre a História. O concelho de Azambuja, desvenda, em 1867, esteve extinto durante uma semana e formalmente durante seis meses. Valeu a movimentação da comunidade local que argumentou com o peso económico e social do concelho. Um exemplo de como a História pode ser preciosa em tempo de reformas administrativas. A autarquia local é uma inteligência colectiva, sublinha.

Edição de 28.03.2012 | Entrevista
Em 1867, em pleno século XIX, o concelho de Azambuja esteve extinto durante uma semana e legalmente durante meio ano. Já em 1834, alguns anos antes, a ameaça de extinção tinha pairado por terras de Azambuja fruto de reformas de gabinete a partir do Terreiro do Paço. As freguesias a sul integrariam Alenquer e a norte seriam incorporadas no Cartaxo. A primeira medida a tomar a seguir à extinção era mandar a polícia sacar o arquivo municipal para o novo concelho. “O que não chegou a acontecer porque o Governo mudou e a coisa ficou parada. Esteve formalmente extinto de Dezembro a Junho, quando foi revogada a reforma”, ilustra o historiador e museólogo José Machado Pereira, que lembra que é preciso conhecer o passado para perceber o presente e construir o futuro numa altura em que tanto se fala da reforma administrativa. A comunidade local de todo o concelho movimentou-se com representação ao rei e o argumento foi o peso económico e social que tinha em relação aos outros. “Foi o factor histórico o grande argumento da comunidade local. Já estava o concelho como hoje o conhecemos. Na altura venceu-se. A história ensina-nos como devemos fazer”.Mais do que gerar economias de escola os objectivos de então eram outros. Faltavam recursos humanos. “Era preciso muita gente a saber ler e escrever para garantir a administração do concelho. Todas as sedes de concelho tinham que ter o ensino das primeiras letras. Não havia capital humano para garantir isso. Muitos concelhos são extintos por causa disso”, continua o estudioso. Todas as reformas do século XIX tinham em vista também jogadas políticas. É por isso que ainda hoje existem concelhos espartilhados por vários territórios descontínuos, fruto de arranjos eleitorais. “O concelho de Azambuja pertencia ao círculo oriental de Lisboa que começava a meio da rua Augusta. Como o voto urbano era republicano e o voto rural era monárquico para diluir o voto republicano urbano estendia-se o círculo”. No livro sobre Alcoentre revela que foi naquele lugar que nasceu o primeiro concelho em território de Azambuja. Em 1836 existia o concelho de Azambuja, Aveiras de Baixo e Aveiras de Cima e o concelho de Alcoentre que integrava além de Manique do Intendente, freguesias que são hoje do Cadaval.Se caminhamos para um concelho com menos freguesias José Machado Pereira considera que faz sentido, em termos históricos, que Vila Nova da Rainha se junte a Azambuja e que Vale do Paraíso se una a Aveiras de Baixo e a Aveiras de Cima como no passado, época em que eram terras da comendadeira de santos da ordem de Santiago. No alto concelho teria que analisar-se se persistiria apenas a freguesia de Alcoentre ou ainda outra. “Alcoentre, Maçussa e Vila Nova de São Pedro integravam em tempos a mesma paróquia de São Pedro de Arrifana”, ilustra.“A história e a tradição às vezes têm a resposta. Regemo-nos em função de lógicas do presente sem respeito pelas lógicas do passado e das comunidades que nos antecederam. Além da escala territorial há que ter em conta a escala social, económica e patrimonial”.José Machado Pereira considera que desta forma se conseguiriam equilíbrios territoriais, demográficos, patrimoniais e históricos. Admite que no entanto alguns fiquem em desvantagem. “Ninguém gosta de perder nem a feijões. Uma autarquia local é uma inteligência colectiva. Sempre alguém vai perder”. Se não é possível deixar tudo como está o historiador defende que deve haver bom senso e reflexão para apresentar uma proposta consensual de forma a garantir o futuro concelhio. “Gostava de saber o que vamos ganhar quando o país chegar ao fim destas reformas. Isso gera poupança? Responde às necessidades locais? Se a poupança é económica a economia é também uma ciência do homem. É a mais quantitativa das ciências do homem. As pessoas habituaram-se a vê-la como números”. Quanto mais global é o mundo mais as pessoas se agarram à história localApesar do mundo estar cada vez mais global as comunidades continuam agarradas à sua história local. “Agarram-se aos seus pequenos nichos de identidade”, diz o historiador e museólogo que mais escreveu e mais livros tem publicados sobre a história do concelho de Azambuja, José Machado Pereira. As monografias são sobretudo destinadas à população que valoriza a história local. O que o motiva nesta investigação é o que oferece à comunidade. A população sente-se satisfeita. “Em Alcoentre uma senhora que não conhecia disse-me que ainda não tinha acabado o livro sobre a nossa história. A comunidade apropria-se automaticamente de um património que é deles. As comunidades é que são os donos da história”.“Tenho um privilégio: sou o primeiro a saber o que aconteceu e como aconteceu”, diz a brincar. José Machado Pereira revela que não se deixa contaminar pelo que está produzido. Aprofunda. Começa da estaca zero e investiga. “Falamos às vezes de 800 anos de história”. Tem o cuidado de contar a história de forma inteligível para o comum dos leitores.Com o primeiro livro que editou, Santa Maria de Azambuja, cuja venda reverteu a favor das obras de restauro da talha dourada, lançou uma pedra no charco, trazendo conhecimento novo na história local. Entregou a investigação de todos os livros a custo zero. “A formação é o que posso de melhor oferecer à comunidade”. Datou a construção da igreja matriz, as obras de arte principais, nomeadamente as duas pinturas retabulares, e percebeu sobretudo que a Igreja Matriz de Azambuja está ligada à primeira universidade portuguesa.“Quem vem fazer a Igreja Matriz por causa do terramoto de 1531 é a universidade que tinha o padroado da própria igreja. Há mecenato e solidariedade para fazer a nova Matriz de Azambuja. Da própria universidade, do próprio senhor da vila e do próprio povo. Foi uma conjugação a que chamei uma solução solidária”. Em termos artísticos, Azambuja tem das igrejas matrizes mais importantes do país. “Durante 500 anos a população de Azambuja contribuiu para formar a intelectualidade do país.Na “Bíblia do Vale do Paraíso”, como lhe chama, teve o seu maior engano. Achou que ia retratar a passagem de D. João II e Colombo mas quando deu conta tinha mais de 500 páginas de texto.Descobriu, por exemplo, que Alcoentre, com foral de 1174, é em termos regionais dos concelhos mais antigos e a unidade autárquica mais antiga no concelho de Azambuja. Foi primeiramente de condes e marqueses o que pareceria, dito assim, ser uma vila tão pobre que ninguém a queria. “Sabia pela história geral que a lógica não era essa. Afinal esteve sempre na mesma família mas entrou em dotes femininos”, exemplifica.“É um engano pensar que o museu moderno é aquele que vive das tecnologias”O secador de arroz, que pertencia à antiga quinta do valverde, onde foi construído o Museu Sebastião Mateus Arenque, em Azambuja, inaugurado a 16 Outubro de 2004, é um dos objectos mais emblemáticos do espaço de cultura. Quem o garante é o historiador e museólogo José Machado Pereira, técnico da Câmara Municipal de Azambuja. O público feminino deixa-se fascinar por uma antiga máquina de fazer permanentes a quente, doada por uma antiga cabeleireira, e que esteve prestes a ir para o lixo. “É um objecto que foi parar ao museu por casualidade. Foi para a exposição mais por questões de estética do que pelo objecto em si”, explica José Machado Pereira.Os visitantes estrangeiros ficam fascinados com o acervo tauromáquico confirmando a intuição de que em Portugal e Espanha a tauromaquia é um valor cultural. A população de Azambuja aprecia ainda a colecção das memórias do trabalho.O museu foi criado com base nas memórias do trabalho oriundas de Sebastião Mateus Arenque, o primeiro homem de Azambuja com sensibilidade para perpetuar a cultura do povo que corria o risco de se apagar. O poeta popular presidiu a uma comissão nos anos 80 do século passado para o arranque do museu a que se juntaram outros espólios como o de António Martins Pontes. A câmara comprou ainda o espólio tauromáquico de Cabral Valente. O museu tem cerca de 26 mil documentos e um espólio com cerca de cinco mil objectos. O museu tem até agora apenas um objecto comprado. Trata-se de uma sela cujo contrato foi feito por Sebastião Mateus Arenque.“É um engano pensarmos que o museu moderno é aquele que está cheio de novas tecnologias e de artifícios, cor e iluminação”, acrescenta. É preciso adaptar o espólio à comunidade mas o conceito de museu moderno passa pelo que diz às pessoas. “É aquilo que mexe com os sentidos e com os sentimentos. É o reflexo da vida das pessoas e da comunidade”, continua.José Machado Pereira defende que a museologia não deve ter muitos artifícios. “Quando trabalhamos com objectos do uso quotidiano, como acontece neste museu, temos de não entronizar demasiado os objectos. Corremos o risco de criar distância. Se criamos um trono estamos a pôr ali um rei e isso não pode acontecer”, argumenta. As novas tecnologias fazem falta, admite, mas apenas em termos de informação. “Defendo que o visitante deve ser livre de apreender por si. As coisas têm que falar-lhe aos seus sentidos e sentimentos”.O museu municipal de Azambuja interessa aos jovens na medida em que trabalha a memória e a identidade histórica local. “Permite recordar, conhecer e aprender”. Esta vertente acaba por cobrir todas as faixas etárias dos visitantes.A comunidade educativa de Azambuja tem acesso físico privilegiado ao museu e nota-se o interesse dos estudantes. “Quando uma turma cai pela primeira vez no museu é quase recorrente que durante os fins de semana seguintes haja sempre o reflexo desse primeiro contacto. A criança leva os pais, os avós e os primos ao museu”. De desenhador da construção civil a historiador Os pais não puderam pagar-lhe um curso em Coimbra e José Machado Pereira tornou-se desenhador da construção civil. Vinte anos depois o menino de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, decidiu voltar a estudar. Era já funcionário da Câmara Municipal de Azambuja. “Pensei que se integrasse a universidade na altura iria conseguir concluir o curso sem se cruzar lá com os filhos”, diz com humor. Hoje é historiador e museólogo. Tem licenciatura, mestrado, doutoramento e pós doutoramento. Vive há trinta anos em Azambuja e é um estudioso do concelho.Aos 11 anos passou a gerir a sua vida de estudante em casas particulares na Guarda, onde a maioria da população residente vivia de alugar quartos, depois de dispensar ser acolhido no ambiente de repressão do bispado. Ia a casa de três em três meses. Tornou-se adulto antes de tempo. Fez o curso profissional de desenhador da construção civil e depois de se lançar por conta própria aproximou-se de Azambuja onde tinha familiares. De desenhador projectista da construção civil passou a técnico superior de museologia.Ser trabalhador estudante custou-lhe muitas horas de sono e de comboio entre Azambuja e Lisboa. Era o aluno que vivia mais longe e mais tempo gastava em deslocação. Uma hora de viagem era uma hora de leitura e estudo para pôr a matéria em dia. Não ingressou na faculdade de letras, onde entrou, mas na Universidade Autónoma onde lhe ofereciam um horário pós-laboral. Regressava a casa nunca antes da meia noite e por vezes no comboio que chegava às duas da manhã. Fez o curso em quatro anos. Abdicou de férias durante esses anos que ia gastando a estudar à medida das necessidades. Conseguiu ser um dos melhores alunos da universidade. A situação na autarquia não faz jus aos conhecimentos que tem mas José Machado Pereira garante que nunca foi isso que o moveu. Depois de concluir o curso ainda pensou ser arquivista mas acabou por apaixonar-se pela museologia.
No século XIX o concelho de Azambuja foi extinto durante uma semana

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