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Jovens viram-se para a pesca no Tejo como alternativa ao desemprego

Jovens viram-se para a pesca no Tejo como alternativa ao desemprego

Jovens viram-se para a pesca no Tejo como alternativa ao desemprego

Está a aumentar o número de jovens que optam pela pesca no rio Tejo como forma de fugirem ao desemprego na região. Dizem que não têm vergonha de fazer pela vida e os mais velhos agradecem à crise. No Porto da Palha em Azambuja não falta trabalho.

Edição de 28.03.2012 | Sociedade
O desemprego está a fazer com que cada vez mais jovens da região se virem para a pesca no rio Tejo. Uma forma de se conseguir obter alguns rendimentos numa época de crise. Jovens com o nono ano de escolaridade andam lado a lado com licenciados que navegam sem medo do trabalho e da vida dura da faina. A vida está difícil e o rio ainda vai providenciando algum sustento.O barco “Campeão” aproxima-se do cais do Porto da Palha em Azambuja com suavidade, praticamente empurrado pela corrente do rio Tejo. A manobrá-lo vem Tiago Cristino, 26 anos, jovem desempregado que encontrou na pesca uma escapatória. Tiago é um dos muitos jovens que começam a procurar a aldeia em busca de trabalho. “O meu irmão emigrou porque não havia trabalho. Eu estava no ramo da distribuição, ao volante de um camião, mas o negócio complicou-se e só precisavam de mim para fazer carreiras internacionais e isso obrigava a estar longe da família”, recorda. Por não querer abandonar o país Tiago, natural de Santarém e a residir em Azambuja, ficou desempregado. Durante um ano e meio não encontrou trabalho até que o pai, também pescador, o aliciou a virar-se para a pesca. “Tive de agarrar alguma coisa enquanto muita gente se deixa ficar sem fazer nada. O meu pai e os outros pescadores ensinaram-me a arte. O rio dá o dinheiro suficiente para termos alguma coisa e podermos viver”, conta. Num mês bom um pescador pode ganhar 700 euros. Os meses mais fortes são de Fevereiro a Junho, com a pesca da Lampreia e do Sável. A Fataça tem pouca procura. “Quando chegar o Verão vou agarrar-me à apanha do tomate e vou conseguindo ter sempre trabalho”, conta o jovem pescador.Rodrigo Silva, de Azambuja, diz que tem na pesca o seu único ganha-pão. Tem 29 anos, é licenciado em direito e tem uma filha para sustentar. Desde que se separou e ficou desempregado a vida tornou-se amarga. “Os meus pais dão uma ajuda mas não podia continuar a fazer biscates, precisava de dinheiro e tive de vir para o Tejo, uns amigos do meu pai emprestaram um barco e assim tenho feito pela vida”, conta a O MIRANTE. Natural de Vila Franca de Xira, Fernando Bento também se viu obrigado a virar-se para a pesca no rio. “Entre ficar em casa ou nos cafés a queixar-me prefiro vir fazer algo de útil”, conta. O trabalho não tem horário e é duro. Nos dias mais frios chegam a começar a lançar as redes ao Tejo às 06h00. Estes novos pescadores, por necessidade, estão a dar uma nova vida às comunidades piscatórias. Os velhos pescadores sentem-se contentes por a crise proporcionar um rejuvenescimento da actividade. “A crise acaba por ser benéfica. Vemos que muitos jovens começam a agarrar-se a isto e dessa maneira vão também contribuir para que as tradições se mantenham”, refere Luís Menezes, presidente da Associação para a Promoção e Defesa da Cultura Avieira.“Comunidades avieiras continuam a ser marginalizadas pelo poder local”Para o presidente da Associação para a Promoção e Defesa da Cultura Avieira, Luís Menezes, os pescadores do Tejo e as suas aldeias continuam a ser discriminadas pelos poderes locais. “A aldeia de onde sou natural (Caneiras, Santarém) continua sem saneamento básico. A nível de infra-estruturas a comunidade continua a ser desprezada. Sempre estivemos abertos à sociedade e gostamos de receber toda a gente mas ontem como hoje as dificuldades continuam, sobretudo a marginalização por parte de quem detém o poder local”, critica. Luís Menezes considera “inadmissível” que ao fim de tantos anos de existência a maioria destas aldeias continue ilegal. “Continuam à espera do reconhecimento e da requalificação que toda a gente promete mas que nunca vi concretizar-se”, acusa. O aumento do preço dos combustíveis e da poluição no rio são outros factores que preocupam as comunidades piscatórias do Tejo.Turistas trazem lixo O turismo faz falta mas os pescadores alertam para os perigos do lixo que é atirado das embarcações de lazer. “Ao fim-de-semana os senhores de Lisboa vêm passear para aqui e atiram o lixo para o rio. Encontramos de tudo: sacos de plástico, garrafas, fraldas. As pessoas não têm o mínimo respeito pelo rio”, alerta João Lobo, pescador. O colega, Augusto Ribeiro, lamenta que “ninguém faça nada pelo Tejo” no que toca à fiscalização. Apesar do lixo que aparece a qualidade da água do rio está a melhorar, admitem, fruto da entrada em funcionamento de várias estações de tratamento de águas e esgotos. “Já sentimos um aumento de espécies no rio que estiveram ausentes durante anos, como o robalo e o sável”, conta Luís Menezes da Associação para a Promoção e Defesa da Cultura Avieira.Lampreia e sável em abundância em AzambujaAo contrário de outras aldeias no Tejo que se debatem com problemas na apanha de lampreia e sável, devido à seca e à poluição, como O MIRANTE noticiou recentemente, em Azambuja a pesca não se tem ressentido. Cada lampreia custa entre os 30 e os 40 euros e o preço do Sável está nos 15 euros. A procura mantém-se estável. “Aqui não temos sentido problemas na quantidade e até tem sido um ano bom”, revela João Lobo, pescador de 53 anos. É filho de avieiros, foi servente de pedreiro e agricultor mas foi na pesca que encontrou sustento. João usa uma rede de duas cores: branca e verde. É uma experiência que, garante, está a resultar. “As redes brancas vêem-se dentro de água. A ideia é fazer com que os peixes fujam das redes brancas e acabem por cair nas redes verdes que são mais difíceis de ver dentro de água”, explica. Um conjunto de redes chega a custar mil euros. Os pescadores usam um “código de conduta” em que quando um pescador tem as redes armadas no rio os restantes esperam pela sua vez. As redes são colocadas de margem a margem e depois são recolhidas. Outro pescador, José Vicente, 50 anos, vive em Azambuja mas tem um pequeno barco no Porto da Palha que usa para pescar com frequência. O peixe que apanha “vai dando para a despesa”, conta.
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