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“Quem é bom ama as pessoas e usa as coisas e quem é mau ama as coisas e usa as pessoas”

“Quem é bom ama as pessoas e usa as coisas e quem é mau ama as coisas e usa as pessoas”

Sebastião Morgado Ribeiro, advogado, Santarém

Sebastião Morgado Ribeiro, 59 anos, nasceu em Touro, concelho de Vila Nova de Paiva, distrito de Viseu, mas sente-se mais ribatejano que beirão. É advogado mas diz que poderia ser professor ou missionário. Em tempos quis ir para África ajudar o próximo mas desistiu da ideia e optou por formar família em Santarém onde reside. É casado e tem duas filhas. Ouve música clássica, adora caçar e tratar da horta. Oferece couves e hortaliças aos vizinhos e faz tudo aquilo que fazem todos os homens bons: ama as pessoas e usa as coisas.

Edição de 28.03.2012 | Três Dimensões
Chamo-me Sebastião e venho da aldeia de Touro a que Aquilino Ribeiro chamou de “Terras do Demo”. Sou Sebastião porque o padroeiro da terra e o meu padrinho tinham o mesmo nome. Nas aldeias do Norte era tradição cristã e cultural que os padrinhos escolhessem para os afilhados o próprio nome.Sou o mais velho de sete irmãos e pertenço a uma família pobre. Vivíamos com muita dificuldade. O meu pai emigrou para o Brasil e a minha mãe teve que alimentar os filhos sozinha. Explorava umas terras muito pobres de cultura de centeio, milho e batata. Quando eu, ainda miúdo, me sentia imensamente cansado de trabalhar dizia-me: “Filho, continua a trabalhar porque quando fores estudar já descansas”. Quando saía da escola ia pastorear duas cabras que nos davam leite. Era praticamente a base da nossa alimentação com um pouco de broa escura de centeio e batata. Carne só havia na matança do porco tradicional e peixe muito raramente se via. Só no tempo das ceifas aparecia sardinha na aldeia a vender. Nunca soube o que era ser menino porque tive que ajudar a criar os meus irmãos. Ajudava a cultivar o milho e na debulha do centeio e carregava os meus irmãos para as terras. A determinada altura da minha vida quis ser missionário em África e ajudar a salvar o mundo. Senti essa vocação mas acabei por abandoná-la. Ingressar nos Missionários Combonianos foi a minha oportunidade de estudar. No final da escola primária apareceu um missionário e fui logo referenciado pela professora como um dos melhores alunos. Apareciam nessas terras porque havia uma cultura católica profunda. Acabei por seguir Direito.Gosto de ser advogado mas o que mais gostei de fazer até hoje foi ser professor. Em 1979, ano das últimas grandes cheias no Ribatejo, dei aulas de filosofia e história na Escola Ginestal Machado. Não continuei porque no ano seguinte fui colocado muito longe de casa. Gosto de ensinar aquilo que sei e que é pouco. Antigamente talvez tivesse intimamente a vaidade de achar que sabia muito. Hoje admito que sei pouco. No Verão afixo um cartaz na porta do escritório a dizer, encerrado de 1 a 30 de Agosto. Os colegas do edifício riem-se. Antigamente havia a teoria de que vinham os emigrantes com muita pressa de resolver todos os assuntos. Acho que não é verdade. Não dispenso as minhas férias. Se puder passo o mês de Agosto numa vivenda que tenho no Norte sossegado a ouvir os grilos e os passarinhos. É o paraíso. Ofereço hortaliças à vizinhança. Tenho laranjeiras e damasqueiros na minha horta no Jardim de Cima. Comprei umas máquinas e é assim que passo o meu sábado. A caça é o meu ginásio. Adoro o contacto com a natureza. Ao domingo dedico-me à família e à prática religiosa. Decepcionei-me com os meandros da política. Fui presidente de junta na freguesia de Salvador e procurei desempenhar a função o melhor possível. Sinto-me mais ribatejano que beirão e procuro que Santarém seja uma cidade evoluída. Fico condoído quando vejo outras cidades avançar e Santarém parada no tempo. Ponho a loiça na máquina e tempero o coelho bravo e a perdiz. Os grelhados de peixe ou carne também estão por minha conta ao fim de semana. Normalmente almoço em casa com a minha esposa e com uma das minhas duas filhas. A minha vida profissional nunca interferiu com a minha vida familiar.O homem bom é aquele que ama as pessoas e usa as coisas e o homem mau é aquele que ama as coisas e usa as pessoas. Estas frases retirei-as do livro “O Anjo Branco” de José Rodrigues dos Santos e vão marcando o meu dia a dia. Estou a ler o 11º mandamento do Daniel Sá Nogueira e já retirei outras tantas. Uma tem um sentido particular: “Quem não sabe aquilo que procura quando acha não o encontra”. Trabalho enquanto ouço música clássica. Gosto de Mozart e Verdi. Convido os colegas do edifício na festa dos reis para vir ao escritório e ficam espantados com a organização do meu gabinete. Ao fim do dia procuro arrumar tudo de forma a que esteja tudo sempre no lugar. Começo o dia na minha sala e à tarde dirijo-me a outra onde bate o sol e tenho vista para a serra. Digo a brincar que funciono como os imperadores romanos (risos).Ana Santiago
“Quem é bom ama as pessoas e usa as coisas e quem é mau ama as coisas e usa as pessoas”

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