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Moradores de Boleiros fartos de viver no “inferno”

Moradores de Boleiros fartos de viver no “inferno”

Cidadãos foram à última sessão da Assembleia Municipal de Ourém protestar contra laboração de pedreiras na freguesia de Fátima.

Edição de 02.05.2012 | Sociedade
Odete Martins nunca pensou que um dia viria a arrepender-se de regressar à sua terra natal, Boleiros, na freguesia de Fátima (concelho de Ourém), para viver a sua reforma. Mas foi o que aconteceu. O pó que circula no ar, o barulho das pedreiras a laborarem e os camiões a circularem na localidade tornam a vida impossível para quem ali mora. “Tirem-nos deste inferno”, apela sem conseguir conter as lágrimas.Odete Martins foi uma das seis habitantes de Boleiros que foram à última sessão da Assembleia Municipal de Ourém protestar contra a laboração das várias pedreiras junto aquela localidade da freguesia de Fátima. Os moradores garantem que estão a falar por toda a população que só não esteve presente em peso devido à hora a que se realizou a assembleia (17h00).Augusto Santos mora a cem metros de uma pedreira. A esposa, que cuida de crianças, não pode ir para o quintal brincar com os meninos por causa do pó. “Estou a engolir pó todos os dias. Eu sei que as pedreiras dão lucro mas eu é que estou a pagar o preço desse lucro e não ganho nada com isso”, disse em tom crítico. Os habitantes de Boleiros quiseram denunciar o problema perante o órgão mais importante do concelho e alertar para uma situação que dizem ser insustentável.Clara Martins, filha de Odete Martins, que viveu vários anos em Moçambique e na Austrália, diz que é um perigo viver em Boleiros. A pintora alertou ainda para o facto de, ao contrário do que a autarquia informou, os camiões continuarem a circular dentro da localidade. “Como é que explicamos a uma criança que não pode ir para a rua porque é perigoso por causa dos camiões. Fiz um empréstimo e comprei uma casa que seria o meu local de trabalho mas fui obrigada a voltar a trabalhar na cave da minha mãe porque não se pode estar na casa que comprei. É só pó e lama quando chove, além de que está toda rachada, como estão todas as casas em Boleiros. Que qualidade de vida é esta?”, interroga, acrescentando que tem vergonha que os seus clientes visitem o seu atelier e a localidade que escolheu para viver.Odete Martins recorda que Boleiros era a melhor localidade da freguesia de Fátima para viver. Agora só quer regressar à Austrália. “A lagoa de Boleiros era um paraíso, o nosso passeio aos domingos. Agora não está lá nada, roubaram-nos tudo. Depois admiram-se que as pessoas fujam das suas terras. Não nos dão condições para lá vivermos”, acusa, emocionada.Qualidade de vida é prioritáriaO tema das pedreiras foi bastante debatido durante a última sessão da assembleia municipal. Os deputados municipais quiseram saber mais informações sobre a fábrica de cal que vai instalar-se na freguesia de Fátima. A Secretaria de Estado do Ambiente autorizou a instalação de uma fábrica de cal na pedreira da Cova da Feitosa, em Moimento, freguesia de Fátima, concelho de Ourém. A Declaração de Impacte Ambiental (DIA) obteve “parecer condicionado”, o que permite à empresa avançar com a instalação da fábrica. Esta decisão não teve em conta as “condicionantes” que a Câmara de Ourém aprovou no início de Novembro de 2011 para a instalação da mesma e que enviaram para a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT). Uma decisão que não agrada a moradores nem ao executivo municipal.O presidente da Câmara de Ourém, Paulo Fonseca (PS), explicou que a autarquia não tem competência para licenciar pedreiras excepto as pedreiras de calçada. No concelho de Ourém existe apenas uma pedreira de calçada, em Moita Negra. Paulo Fonseca admite que tem havido muitos abusos nos últimos anos por parte das pedreiras e que têm feito o “que podem”.“Existe sempre o dilema entre a mais valia económica e a consequência ambiental mas a qualidade de vida dos cidadãos tem que estar sempre à frente das vantagens económicas”, afirmou. Em relação à instalação a fábrica de cal na freguesia de Fátima, Paulo Fonseca refere que o Ministério do Ambiente fez “ouvidos moucos” das condicionantes apresentadas pela autarquia e que enviaram um pedido de esclarecimentos à CCDRLVT para saber porque razão a Declaração de Impacte Ambiental não teve em conta essas mesmas condicionantes.
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