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Trabalhadores da falida Metaltento em Alverca recebem dívidas ao fim 17 anos

Trabalhadores da falida Metaltento em Alverca recebem dívidas ao fim 17 anos

Enquanto o processo andou a passo de caracol na justiça seis trabalhadores acabaram por morrer

Foram precisos dezassete anos para que o tribunal de Vila Franca de Xira notificasse os trabalhadores da metalúrgica Metaltento, de Alverca, para receber os créditos a que tinham direito pela falência da empresa onde trabalhavam. Enquanto o processo se arrastou em tribunal houve gente a passar fome e a viver na rua.

Edição de 02.05.2012 | Sociedade
Dezassete anos e seis meses depois da empresa metalúrgica Metaltento de Alverca ter entrado em processo de insolvência os 42 trabalhadores que ficaram sem trabalho em 1995 estão agora a ser notificados pelo tribunal de Vila Franca de Xira para receber os créditos a que têm direito, de indemnizações e ordenados em atraso. Para seis desses trabalhadores a decisão judicial chega tarde demais porque morreram entretanto e serão os herdeiros a receber o dinheiro. A morosidade da justiça e a consequente desvalorização do dinheiro custou aos 42 trabalhadores momentos dramáticos e deixou marcas de tal forma profundas que mesmo 17 anos depois nenhum trabalhador quer falar do assunto. Houve gente a passar fome e homens que foram obrigados a abandonar as suas famílias para irem trabalhar para o estrangeiro. Mais dramático ainda é o caso de dois trabalhadores que acabaram a viver na rua por não terem recebido o dinheiro nem encontrado trabalho.Ao todo são 413988 mil euros que vão agora pagar a totalidade das indemnizações por despedimento, subsídios de férias e salários em atraso a que os trabalhadores tinham direito. Em 1995, quando a empresa abriu falência, Rosa Saúde era a coordenadora da delegação sindical de Vila Franca de Xira e dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos. Acompanhou o processo, ajudou os trabalhadores a denunciar a situação, fazer o levantamento das dívidas e colocar o processo em tribunal. Mas estava longe de imaginar que o caso iria demorar 17 anos a concluir.“Fizemos concentrações junto ao Tribunal de Vila Franca, vigílias, pedidos de reunião com o tribunal e com o Conselho Superior de Magistratura, que sempre nos atendeu. Não resolveu grande coisa mas sempre que solicitámos uma reunião atendeu-nos. Ao contrário do Ministério da Justiça que sempre nos ignorou”, acusa. Uma das vezes a delegação sindical organizou uma concentração em frente ao tribunal, com o objectivo de pressionar aquela entidade a acelerar o processo. “Fomos recebidos pelo secretário do tribunal que nos disse que as coisas iam ser resolvidas. Mas não foram no imediato, quando os trabalhadores mais precisavam”, lamenta.Rosa Saúde recorda-se da quantidade de trabalhadores que, pouco tempo depois da falência da Metaltento, visitavam a delegação do sindicato em Vila Franca sem dinheiro e com fome. Como em todos os processos de falência, houve trabalhadores que conseguiram arranjar outros empregos. Mas muitos, com idades acima dos 50 anos, ainda novos para se reformarem, ficaram sem saídas profissionais. “Nós vivíamos com os trabalhadores e as suas dificuldades. Desde não terem dinheiro para comer a irem a qualquer lado sem terem condições. Quando estavam no fundo do buraco vinham falar connosco e dentro daquilo que era possível tentávamos animá-los e dizer que não desistissem porque um dia as coisas iriam dar resultado”, recorda.A justiça funciona mal, diz a antiga responsável sindical de Vila Franca. “Quando há uma falência os bens são vendidos e o dinheiro é depositado no banco. Infelizmente não há tempo previsto por lei para que o administrador judicial termine um processo de insolvência. E o dinheiro continua no banco a ganhar juros, com os trabalhadores sem receber”, condena.640 trabalhadores estão há 10 anos sem receberA delegação sindical de Vila Franca de Xira da CGTP aguarda o desfecho de 33 processos de insolvência que se arrastam em tribunal há mais de 10 anos e sem fim à vista. Ao todo estão 640 trabalhadores à espera de receber os créditos a que têm direito - salários em atraso e indemnizações - num valor global de 12 milhões e 700 mil euros. Duas dessas empresas são a Mevil, uma metalomecânica sedeada em Santa Sofia que faliu em 1994 com 82 trabalhadores e a Argibay, manutenção e reparação naval, que ainda deve dinheiro a 20 dos 159 trabalhadores que tinha em 1994, altura em que abriu falência.
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