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“A honestidade é a nossa maior riqueza”

“A honestidade é a nossa maior riqueza”

José Moreira, 72 anos, presidente do Orfeão, Almeirim

José Moreira foi motorista da Câmara Municipal de Almeirim durante 33 anos mas não se cansou de conduzir. Agora ajuda o CRIAL. Transporta os utentes da instituição e quando é preciso também é canalizador e carpinteiro. O presidente do Orfeão de Almeirim, 72 anos, é incapaz de estar parado porque toda a sua vida andou em movimento. Começou a trabalhar aos nove anos com o pai, latoeiro de profissão. Um mestre que lhe ensinou que a honestidade é a maior riqueza que o homem pode alcançar.

Edição de 02.05.2012 | Três Dimensões
Fiz a primeira e a segunda classe no mesmo ano. Não era normal mas o professor dizia que eu tinha facilidade em aprender. Decorei muito cedo a tabuada. Se pudesse ter estudado gostava de ter seguido letras. Dos livros que li gostei muito d’ “Os Maias” de Eça de Queirós mas a vida não me permitiu muito tempo para leituras. Agora leio sobretudo jornais. Comecei a trabalhar aos nove anos na oficina de latoaria do meu pai. Fazíamos tachos, panelas, quartas e reparávamos pulverizadores. Enquanto as outras crianças brincavam eu estava fechado na oficina. Fazia os trabalhos de casa à noite. O meu pai era um homem severo mas foi um pai excepcional que fez de mim um homem com uma sensibilidade diferente para a vida. Desisti da escola aos 12 anos porque me aborreci de ir para Santarém de bicicleta depois de um dia de trabalho. Chovesse ou fizesse vento subíamos a encosta à noite. Na Calçada da Atamarma levávamos a bicicleta pela mão porque já não tínhamos força. Dentro de Santarém voltávamos a pedalar. Comecei a ver que era inviável. Não descansava e tinha que fazer os trabalhos nos intervalos. Perdia a matéria em relação aos colegas. Hoje estou arrependido. Tinha sido mais um sacrifício. Tenho o equivalente ao nono ano de escolaridade. Durante 33 anos fui motorista de autocarros na Câmara Municipal de Almeirim. A condução é a minha vocação. Corri parte da Europa a conduzir. Acompanhava ranchos folclóricos, grupos desportivos e da terceira idade. Passei seis anos seguidos a Páscoa no estrangeiro. Levanto-me às 5h45 para fazer o transporte dos meninos do CRIAL (Centro de Recuperação Infantil de Almeirim). Reformei-me há oito anos e quando dei por mim estava a perder a agilidade mental. Há quatro anos apareci no centro e ofereci-me como voluntário para ajudar. Além de conduzir faço outros serviços porque tenho habilidade de mãos: carpintaria, serralharia, canalização. Vou colaborando. Senti que o cérebro voltou a funcionar. Não consigo estar muito tempo parado. Saio de casa para ir à biblioteca ler o jornal, dar uma volta a pé ou visitar os trabalhadores no edifício da câmara. Quando estava de férias chegava a levar a família à praia e dois dias depois tinha que ir a casa. A esposa aproveitava para pôr coisas em ordem. Habituei-me ao movimento. Faz-me confusão estar parado.Nunca causei nenhum acidente. Uma vez um motard bateu-me na traseira do autocarro mas foi ele o culpado. Fui sempre bafejado pela sorte. As estradas são perigosas mas mais de 50 por cento dos acidentes deve-se a erros humanos. As pessoas estão sujeitas a tanto stress que pensam em tudo menos naquilo que estão a fazer. A minha esposa foi a mulher e o homem da casa devido à minha ausência. Educou os filhos. Quando eu chegava a casa já estavam deitados e quando saía deitados estavam. Foi de um valor inestimável. Depois de reformar-me comecei a ajudar em casa. Hoje ponho a roupa na máquina e faço o que for preciso. Fui uma máquina de ganhar dinheiro e não acompanhei o crescimento dos meus filhos. Hoje tenho a felicidade de acompanhar mais os netos. Sou um avô mais presente. Se pudesse voltar atrás talvez corrigisse algumas coisas mas os tempos eram outros. Tive que fazer sacrifícios para lhes dar uma vida melhor. Acho que perceberam a minha ausência. Tenho dois filhos excepcionais.Um dia fiz um teste de voz e comecei a cantar no orfeão. Sou tenor mas estou a auxiliar os baixos que têm actualmente menos executantes. Gosto de cantar qualquer música. Em inglês é mais complicado. Temos um repertório muito diversificado. Cantamos em checo e em russo. O Orfeão de Almeirim foi criado há vinte anos e só estive afastado durante seis. A nossa maior riqueza é a honestidade. É uma frase que o meu pai repetia muitas vezes. Nunca nos devemos envergonhar de sermos pobres mas sim de não sermos honestos. Não devemos usar as pessoas como meios para atingir determinados fins. É preciso saber respeitar o próximo. Não só os mais velhos como os mais novos. Ana Santiago
“A honestidade é a nossa maior riqueza”

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