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“Na Académica de Santarém trabalha-se com gosto na formação de jogadores e de homens”

Luís Carlos Gonçalves é o treinador que levou a equipa de juniores à conquista do campeonato distrital e à subida ao nacional pela quarta vez

Fez a sua formação como jogador e treinador na União Desportiva de Santarém, mas é na Académica que se tem destacado como treinador. Luís Carlos Gonçalves tem um currículo invejável como treinador. Este ano levou a equipa de juniores da Académica de Santarém ao título de campeão distrital e à subida ao nacional de juniores. É um homem calmo e ponderado e ambiciona fixar a equipa da “Briosa” nos nacionais. Vai continuar à frente da equipa porque acredita no projecto e na direcção.

Edição de 09.05.2012 | Desporto
Quando é que começa a sua carreira como treinador?Comecei a minha carreira de treinador na equipa de seniores da União Desportiva de Santarém, que na altura estava na terceira Divisão Nacional. Comecei como adjunto de Ernesto Costa e mais tarde acabei como treinador principal. Coadjuvei ainda Carlos Neto na União.Jogou futebol a nível oficial por isso a sua carreira de treinador é a continuidade no desporto rei?Sim, em parte. Joguei em vários clubes do distrito: Estrela Ouriquense, Cartaxo, Coruchense, Amiense e União de Santarém, na terceira divisão nacional. A minha formação como treinador vem toda do futebol. A minha formação como atleta foi toda feita na União Desportiva de Santarém. Passou de jogador a treinador na União de Santarém?Não, na altura não estava na União. Tinha deixado de jogar há relativamente pouco tempo quando surgiu o convite para ajudar o Ernesto Costa a treinar a União.Esteve lá quanto tempo?Estive lá dois anos e meio como treinador. Foi já numa situação muito difícil, a União vivia já em grandes dificuldades. Vivia mesmo uma fase conturbada e para a equipa não cair num vazio fiquei alguns meses sozinho no comando técnico.Acabou por ser uma experiência muito forte para um jovem treinador?Foi mesmo muito forte. Eu diria até que foi muito forte e enriquecedora, ao ponto de quando passei para o futebol juvenil, já não querer mais voltar aos seniores. Nesse aspecto foi bastante enriquecedor.Quer dizer que esta passagem pelo futebol sénior foi de algum modo traumatizante?Foi muito difícil. Fiquei vacinado para o futuro. Foram tempos muito conturbados. No União de Santarém não havia nada, éramos nós, treinadores e jogadores, que tínhamos que inventar espaços para treinar. Depois acabei por sair em Janeiro de 2002.Foi então que apareceu a Académica de Santarém?Foi, fui convidado pelo senhor Galvão e pelo mister Cabelo, (chamo-lhe assim porque foi meu treinador nas camadas jovens do União). Entrei pela mão dessas duas pessoas e lá estou até hoje.Qual é a grande diferença em estar à frente do futebol sénior para o futebol de formação?No futebol júnior apanhamos jovens com 17, 18 ou 19 anos, já são homens, e aqui já não podemos dizer que é um futebol jovem, é um misto de formação e competição. É preciso incutir-lhes a mentalidade competitiva, para que vão preparados para aquilo que vão encontrar no futebol sénior, que de facto é um pouco mais complicado. A grande diferença é que conseguimos levar as coisas melhor. Há mais vontade de aprender e uma melhor hipótese de unir o grupo.Também é comum dizer-se que a categoria de júnior é a mais difícil de trabalhar. Grande parte dos jovens portam-se como crianças e querem ser tratados como homens?Não posso adiantar muito sobre isso, porque só treinei os seniores e os juniores. Mas é verdade que há diferenças dos juniores para os seniores. No futebol sénior é preciso haver uma estrutura muito forte por trás do treinador. Se isso não acontecer o fracasso está logo ao virar da esquina. Nos juniores é mais fácil trabalhar com menos gente. Na Académica tenho tido a felicidade de ter sempre uma estrutura muito forte na retaguarda. Se eu já digo que é mais difícil trabalhar no futebol sénior, veja o que foi trabalhar na União sem ter praticamente uma retaguarda de apoio. Foi tudo muito complicado.Quer dizer que o que notou na sua passagem da União para a Académica foi uma questão de estruturas?Sim, sem dúvida. Na Académica vim encontrar um clube perfeitamente estruturado. Quando é necessário algum apoio, a correspondência é quase completa.É claro que o facto das coisas terem corrido muito bem na Académica ao longo destes anos, tem ajudado a manter a chama acesa. Em cinco hipóteses de vitória no campeonato ter vencido quatro, é uma situação que se deve em exclusivo ao treinador?Sim, é um facto que as vitórias têm ajudado. Mas não são um exclusivo do treinador. Sou apenas mais um que gosta de ganhar. Os grandes obreiros dessas vitórias são os jogadores que passaram pelo clube desde que eu lá estou. Outra das grandes virtudes é o facto de grande parte dos jogadores das equipas da Académica jogarem juntos durante muitos anos, vêm desde as escolas até aos juniores. Quando falo nas minhas equipas tenho sempre uma dúzia de jogadores que vêm desde as escolas e isso torna o meu trabalho mais fácil.A formação na Académica é das mais fortes do distrito de Santarém?Sem dúvida que sim. Tenho consciência disso. E posso dizer que isso passa pelo bom trabalho que é feito ao nível das direcções e de toda a estrutura, mesmo daquelas pessoas que nos acompanham no dia a dia das equipas. Já passaram três ou quatro direcções desde que estou no clube e as estruturas têm sido sempre reforçadas.Que análise faz da sua carreira como treinador?Chego à conclusão que sou um privilegiado. Todos os passos estão a ser dados de uma forma muito segura e consistente. As coisas não foram feitas à toa. Passei por variadíssimas situações que foram fundamentais para a minha formação enquanto treinador. Primeiro, as dificuldades de um clube amador cheio de problemas. Depois o conhecer a realidade de um clube como Académica. Aí, tive a oportunidade de contactar com estruturas muito fortes e formas de estar e jogar bem diferentes. Sinto que ainda não atingi os objectivos que pensava atingir. É muito aliciante trabalhar com todas estas pessoas com quem trabalho. O mérito das vitórias deve-se principalmente a eles e aos jogadores. Mas também sinto que tenho algum mérito nisso. Nesta fase sinto-me bem a treinar onde estou. Já tive convites para treinar equipas seniores, não aceitei. Sinto-me bem e treinei sempre nos clubes onde quis treinar.Tudo tem, então, sido um mar de rosas?Não, nem tudo tem sido fácil. Já passei por situações de não conseguir unir o grupo da forma que eu queria. Quer dizer que já falhou alguns objectivos?Não direi falhar. Mas um dos grandes objectivos meus e da Académica é fazer um escalão de juniores forte que consiga fixar-se no nacional, não andar sempre no sobe e desce. Isso ainda não foi conseguido.O regresso ao nacional é um sonho concretizado?Nunca fui muito de sonhos. Sempre disse que quero estar o mais acima possível. Treinar no nacional é sempre diferente de treinar no distrital. Mas o sonho de conseguir manter normalmente a equipa de juniores no nacional é a nossa grande procura. Temos melhorado nesse aspecto, as coisas têm melhorado. Nos últimos anos já não foi o subir e descer, já nos mantivemos pelo menos dois anos. Falta fixar a equipa no nacional.O problema também em equipas como a Académica é o treinador estar a contar com determinado jogador e um clube grande vir buscá-lo?Sim, isso é verdade. Mas eu não fico frustrado por isso. Acho que isso é uma situação normal e só valoriza o trabalho dos treinadores da Académica. A saída de um jogador para um clube grande acaba por ser sempre uma grande alegria. Nunca é uma desilusão.O futuro volta a passar pela Académica Sente que tem possibilidades para formar um plantel que lhe dê garantias de chegar à manutenção?Sim. Uma das premissas para a minha continuidade na Académica será a constituição de um plantel com qualidade suficiente para que o clube no nacional não sofra os sobressaltos que tem sofrido nos últimos anos em que esteve nos campeonatos nacionais. Penso que temos um excelente grupo de jovens. Os juvenis têm feito uma excelente campanha no nacional, e vão ficar sete, oito jogadores desta equipa. Acredito que vou ter uma boa matéria para trabalhar.Já lhe aconteceu deixar de fora um jogador por se ter portado menos bem?Já fiz isso várias vezes e vai continuar a acontecer. Às vezes não aceitam de imediato, ficam chateados de não jogar, mas mais tarde vão perceber. Posso contar uma história muito curta que exemplifica bem essa situação. Um dia, num treino, houve um jogador que se portou mal. Chamei-lhe a atenção e tive que ser muito firme. Chegámos a encostar a cabeça um ao outro. Disse-lhe claramente ‘ou portas-te como eu quero ou sais imediatamente porque a porta por onde entraste está aberta para saíres’. Ele ficou a olhar para mim e disse, “se calhar vou-me embora”, mas logo voltou atrás e disse que ficava. Ficas dentro das minhas normas e não das tuas. Ele ficou, foi um bom jogador da Académica e hoje quando nos encontramos até brincamos com a situação.Como é o Luís Carlos no banco?Sou um treinador emotivo, vivo muito o jogo. No clube até sou conhecido como o treinador com mais títulos (castigos). Tenho vindo a fazer um maior autocontrolo e nos últimos dois anos só fui castigado uma vez em cada um. Tem sido um esforço grande, porque vibro muito com o jogo. A minha ambição é ganhar sempre e às vezes grito para os jogadores darem um pouquinho mais.Como é que vê o futebol no distrito de Santarém?Infelizmente não o vejo nada bem. Principalmente a nível sénior. Há cada vez mais clubes a desistirem. A nível financeiro nada está bem. É com tristeza que quando não haviam condições havia muita gente a jogar à bola e muitos clubes. Agora que as condições são quase excelentes, há campos relvados por todo o lado, não há condições financeiras para colocar as pessoas a jogar futebol. O que é que é preciso fazer para alterar essa situação?Dirigentes, treinadores e jogadores têm que sentar e conversar de forma a encontrar uma solução para as dificuldades. O ir ganhar dinheiro para um clube tem que ser revisto. No meu caso já houve algumas direcções que têm vindo ter comigo para alterar a minha situação para me darem mais alguma coisa para a gasolina. Nunca aceitei, posso dizer que não ganho nada na Académica. O que recebo não chega para pagar as despesas que faço para ir para os treinos e para os jogos. Mas não me estou a queixar porque na verdade faço uma coisa que gosto de fazer e me dá prazer.E a arbitragem?Aquilo que lhe posso dizer é que de há dois anos a esta parte tem havido uma grande evolução nos árbitros. Só falo naquilo que conheço. Hoje já podemos falar com os árbitros e anteriormente a posição dos árbitros era diferente. Eram mais intransigentes, não admitiam qualquer desabafo.“Tem havido uma boa evolução ao nível do ensino”Trabalha essencialmente com jovens que já frequentam uma fase adiantada no ensino. Sente que são mais responsáveis ou estão mais refilões?Penso que também no campo do ensino tem havido uma boa evolução. Hoje em dia sinto que entendem melhor o que lhe pedimos e transmitimos. Não deixam de ser irreverentes, mas é uma irreverência mais controlada.Sente que o ensino tem ajudado os jovens a compreender melhor as situações?Não sou das pessoas mais indicadas para falar sobre o ensino. O que conheço melhor é através das minhas filhas. Em relação aos jogadores, quando há algum mais rebelde, é mais complicado e no ensino será mais difícil de lidar com essas situações do que nós no futebol. Os jovens que jogam na Académica andam ali por gosto e por isso não gostam de ser castigados. Continua a haver pais que se interessam pela formação dos filhos?Sim, penso mesmo que cada vez há mais. Em relação a mim nunca tive problemas com pais nenhuns. Os pais acompanham. Tenho sempre meia dúzia de pais a assistir aos treinos e nos jogos são ainda muito mais.Nunca ouviu um pai a criticar as suas opções por não colocar o filho a jogar?Se ouvi entrou a 100 e saíu a 200. Transmito no balneário aos jogadores que somos nós os treinadores que tomamos as decisões. O que vem de fora só conta se for para apoiar e galvanizar a equipa.A União de Santarém faz falta ao futebol sénior na cidade?Acho que sim. Fiquei muito triste com o que se passou com o clube. Fiz toda a minha formação como jogador na União e nunca posso esquecer isso. Faz falta. Eu era um espectador habitual dos jogos de seniores e tive pena que isso tivesse acabado. “A bola andava sempre debaixo do braço”Falar de Luís Carlos Gonçalves é falar de futebol. Hoje, com 46 anos, o treinador dos juniores da Académica de Santarém apaixonou-se pelo desporto rei quando ainda era uma criança. Desses tempos recorda com um brilho nos olhos, os infindáveis jogos de futebol, feitos no campo da eira ou nas ruas de Aveiras de Baixo, de onde é natural. A “epopeia” começava logo de manhã e só terminava à noite. A única pausa era mesmo para almoçar. “Hoje vejo que se calhar foi aí que tudo começou. Jogava à bola na rua e em tudo o que era sítio. Sempre vi esta actividade com grande paixão e entrega. Tinha o sonho de ser jogador e estar sempre ligado ao desporto e ao futebol”, revela Luís Carlos.Foi no União de Santarém onde faz toda a formação até aos seniores. Jogou em clubes de nível distrital e nacional, sem nunca atingir um grande nível. “Nunca fui o jogador que sonhei ser. Queria ser profissional, mas embora tenha passado pelos melhores clubes do distrito, nunca consegui concretizar o meu sonho”. Foi a União de Santarém que lhe deu a primeira oportunidade para ser treinador, mas foi na Académica que encontrou as condições para poder dizer que é um homem realizado. O técnico é casado com a companheira da sua vida. Tem duas filhas. Gostaria de ter um filho homem. “Gostava de ter um filho para me acompanhar mais e eu o acompanhar na sua formação desportiva. As minhas filhas nunca foram grandes desportistas. Ainda andaram na natação e na dança, mas nunca fizeram nada de especial”.Não é fácil conciliar o trabalho, o futebol e o acompanhamento da família. A esposa às vezes queixa-se. “Mas imponho a mim próprio que todos os tempos livres sejam para dedicar aos filhos e à família. Estamos sempre juntos nos dias em que não há treinos ou jogos”.Frontal e ambicioso mas ao mesmo tempo humilde, o técnico tem consciência das suas capacidades mas recusa embandeirar em arco. Realismo e pragmatismo são características que lhe assentam que nem uma luva. Adora desafios e garante que quando abraça um projecto, seja ele qual for, é de corpo e alma. Se as coisas correrem menos bem, prefere levantar a cabeça e seguir em frente em vez de deitar a toalha ao chão.

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