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O informático que passou meio ano na borda d’água a fotografar os avieiros

Ricardo Peixeiro captou mais de mil imagens da comunidade de Vila Franca de Xira

Ricardo Peixeiro, fotógrafo amador, informático de profissão, passou seis meses na borda d’água, a captar imagens da comunidade avieira. O romance de Alves Redol, prefaciado pelo próprio autor em Caxias, foi o rastilho. O resultado pode ser visto de 19 a 31 de Maio no Centro de Artes do Rio Manuel do Vau, em Vila Franca de Xira.

Edição de 16.05.2012 | Cultura e Lazer
Ricardo Peixeiro, 34 anos, cruzou-se há alguns meses com o romance “Avieiros” na Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira. Em sorte coube-lhe uma edição especial em que Alves Redol conta, em prefácio, a breve história deste romance a partir de Caxias, em Novembro de 1967.A história dos “nómadas do rio”, gente da beira Tejo a quem chamam de avieiros, como se dissessem “outra gente” arrebatou o jovem programador informático a residir em Vila Franca de Xira há quatro anos.Depois de uma carreira de quase 15 anos Ricardo Peixeiro viu-se desempregado e aproveitou o tempo livre dos seus últimos seis meses para mergulhar num projecto que trazia já a amadurecer dentro de si: explorar a sua paixão pela fotografia captando a vida da comunidade avieira que ainda subsiste no Esteiro do Nogueira, na zona ribeirinha de Vila Franca de Xira, para lá do Jardim Constantino Palha e com a ponte Marechal Carmona no horizonte.Deixou de ter como tema as ruelas e personagens de Lisboa, onde trabalhou e se iniciou como amador na fotografia, e lançou-se rio adentro à moda antiga. Com rolos a preto e branco para captar a nostalgia deixando de lado o digital manipulável até à perfeição. Ricardo Peixeiro quis atingir o “preto e branco do neo-realismo”, fiel ao romance de Redol e a uma corrente que aprecia, desde os filmes italianos até às obras marcantes nacionais. Aproximou-se da comunidade lentamente ganhando a confiança que lhe permitiu captar as imagens com espontaneidade. A figura humana é a base da fotografia de quem se considera um “observador da sociedade”. O trabalho iniciou-se em Novembro de 2011 e prolongou-se até à primavera de 2012. Três ou quatro horas passadas à beira rio com os avieiros entre perguntas, fotografias e almoços de açorda de ovas de sável e barbo. “Estar disponível para acolher alguém à mesa da refeição é estar disponível para partilhar algo que é muito importante”, reconhece.Quando percebeu que conseguiria concretizar o projecto propôs a ideia de uma exposição ao Projecto de Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional, Património Avieiro, que o acolheu. Ao longo dos seis meses captou mais de mil imagens. Fechou-se depois durante dois dias em casa para escolher as melhores 31 fotografias para a exposição “Sombras no esteiro”, que pode ser vista de 19 a 31 de Maio no Centro de Artes do Rio Manuel do Vau, em Vila Franca de Xira, e em Junho na Feira Nacional da Agricultura, em Santarém.No Esteiro do Nogueira já não se vislumbram casas palafiticas, a comunidade foi realojada em novos fogos construídos pela câmara, mas na arte da pesca ainda se conservam os ensinamentos dos mais velhos. Ricardo Peixeiro admite que foi feito um esforço de requalificação e enaltece a preocupação que houve em manter os avieiros junto da borda d’água, onde pertencem.Nas fotos de Ricardo Peixeiro revisita-se a pesca da lampreia, a presença da mulher, importante na comunidade, e a recepção do pescado. Numa dessas fotos, de três homens que remendam redes, Ricardo Peixeiro captou muito mais que esse momento. “A verdade dessa foto é muito maior. Essa rede não pertence a qualquer dos pescadores mas a um homem que não pôde estar lá nesse dia. Os outros ajudaram-no”, diz emocionado. José Pirica, Marco Charana e António Carlos dão corpo ao sentido de entre-ajuda, característica que Ricardo Peixeiro captou ainda antes de posicionar a máquina fotográfica. O nó de Joaquim Moreira, a reparar uma rede, é marcante. Mas não mais que a foto de Manuel do Vau a reparar a bateira. O fotógrafo amador, fã de Sebastião Salgado, Eugene Smith e Henri Bresson, não contabilizou custos deste trabalho voluntário feito pela paixão à cultura. Admite que só pôde realizá-lo com profundidade porque teve total disponibilidade e se dedicou à tarefa como um profissional.Os avieiros foram o primeiro trabalho temático do fotógrafo amador, praticante de kenpo, mas Vila Franca de Xira continuará a inspirar Ricardo Peixeiro que não esconde a vontade de captar outros ângulos da alma deste povo.

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