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De Santarém a Fátima na rota dos peregrinos

O MIRANTE caminhou durante 13 horas para descobrir uma parte dos Caminhos do Tejo e saber o que sofrem os peregrinos. A experiência vale pelo encontro com a natureza, apesar da dureza do percurso por montes e vales do norte ribatejano.

Edição de 16.05.2012 | Sociedade
Às sete da manhã de sexta-feira, 11 de Maio, é hora de ponta em Azóia de Baixo, a meia dúzia de quilómetros de Santarém. Dezenas de peregrinos da paróquia de São Maximiliano de Kolbe, em Lisboa, estão a iniciar mais uma etapa dos Caminhos do Tejo rumo a Fátima. Tânia Rodeia e Ana Maria Rosa estão na cabeça do pelotão. Vêm há três dias em viagem. Dormiram a última noite em Santarém, levantaram-se cerca das três da madrugada, lavaram-se, comeram, rezaram e fizeram-se à estrada. Nesse dia vão até Monsanto.Curiosamente foi o grande aglomerado de peregrinos que nessa data encontrámos nos mais de 50 km que fizemos pelos Caminhos do Tejo entre Santarém e Fátima. Com excepção óbvia do quartel dos bombeiros de Minde, que nesses dias se transforma numa unidade hoteleira a preços simbólicos. De 11 para 12 de Maio estão marcadas 500 dormidas e 300 jantares. Voluntários e gente da casa afadiga-se no apoio, seja na cozinha ou no bar, seja na distribuição de colchões e encaminhamento de pessoas.Às cinco da tarde já muitas dezenas de peregrinos estão nas instalações, uns deitados, outros no bar, outros à espera do duche. Maria de Lurdes Figueiredo, de Vila Franca de Xira, não está a fazer nada disso quando a encontramos, junto à central de comando. Ficou para trás e procura o seu grupo. Lídia Cadete, uma das senhoras que presta apoio aos peregrinos, é chamada pelo comandante Sérgio Henriques e encaminha a peregrina para o primeiro piso do quartel, onde se estendem longas filas de colchões, muitos já ocupados. A garagem das viaturas, no rés-do-chão, é também uma gigantesca camarata.A operação logística é grande. Os Voluntários de Minde recebem peregrinos durante todo o ano, mas nada que se compare à grande peregrinação de Maio. Nesse dia há colchões espalhados por todo o lado, até em vãos de escada. No fim ficam todos a ganhar: os bombeiros arrecadam mais uns cobres e os peregrinos garantem um bom acolhimento.Uma serra para atravessarMas até chegar a Minde há um longo caminho percorrido e uma serra para atravessar. Desde Azóia de Baixo poucos caminhantes se vêem. Ou partiram mais tarde ou já estão muito à frente. Além disso, a maior parte prefere a estrada nacional 3 por Pernes. No incipiente itinerário que levamos vamos riscando os pontos ultrapassados e a hora. Isto quando conseguimos saber onde estamos. Porque no concelho de Santarém há uma estranha aversão às placas toponímicas com o nome da localidade. Excepção honrosa à freguesia de Arneiro das Milhariças. No concelho de Alcanena as coisas mudam de figura.Mudam de figura e mudam de cenário. Após um refrescante banho de pés junto à nascente do Alviela e de uma bifana e de uma cerveja no restaurante bar dos Olhos d’Água - praticamente às moscas, sofrendo com o encerramento para obras do Centro de Ciência Viva do Alviela - atacamos a serra. São 12h45. Mal sabíamos o que nos esperava. Os cerca de 3 km até Monsanto ainda são feitos em trilhos de terra batida. A sinalização do caminho continua eficaz. A partir de Monsanto tudo muda. O alcatrão não nos vai largar até Fátima e os efeitos abrasivos nos pés começam a fazer mossa. As bolhas dão sinal. E olhar cá de baixo para a serra que vamos ter de escalar para chegar do vale de Covão do Feto a Minde, não dá grande moral. Vem aí o prémio de montanha de primeira categoria, uns bons 8 quilómetros feitos com a pedalada possível. Vale a deslumbrante paisagem, com o Ribatejo a nossos pés, as ovelhas e as vacas nos pastos, o canto dos grilos e dos pássaros. Quando às 15h45 chegamos ao topo e vemos Minde lá no fundo fica-se com uma sensação de alívio. Uma placa da junta de freguesia diz: “Sorria, você está na freguesia de Minde!”. E não é caso para menos. Mas ainda faltam descer uns 2 km por uma encosta íngreme. Em Minde está a derradeira “área de serviço” antes da última etapa. O grosso de peregrinos, que vem em grupo e com percurso definido, opta por lá pernoitar e atacar os 16 km que faltam no dia seguinte. Estranho: nas vésperas de um 13 de Maio, entre Minde e Fátima apenas encontramos quatro peregrinos, logo à saída da vila. Aproveita-se o último café de Covão do Coelho para reabastecer de água. Esse é um pormenor a ter em conta pois ao longo do caminho não abundam as fontes nem os cafés. Vale que o sol não brilha e o ar está ameno. Depois é uma longa peregrinação através da estrada nacional, com infindáveis rectas que não motivam ninguém. Finalmente, às 19h45, Fátima à vista. Treze horas depois, com uns quilos a menos e os pés em brasa, chegamos à terra prometida.Caminhos do Tejo ligam Lisboa a FátimaOs Caminhos do Tejo ligam Lisboa a Fátima ao longo de 141,5 quilómetros, em grande parte feitos fora das estradas nacionais e dos itinerários mais comuns entre as duas cidades. Passa por localidades como Alverca, Vila Franca de Xira, Vila Nova da Rainha, Azambuja, Valada, Porto de Muge, Santarém, Santos, Arneiro das Milhariças, Malhou, Monsanto, Serra de Santo António, Minde, Covão do Coelho e Giesteira. O percurso encontra-se devidamente sinalizado.

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