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Faltam líderes e falta amor por Santarém

Faltam líderes e falta amor por Santarém

Rosalina Melro, escalabitana militante desiludida com os políticos e com o caminho que a sua cidade tem levado

Tem uma vida marcada pela tragédia. Aos 16 meses já não tinha pai nem mãe. Duas vezes viúva, Rosalina Melro tem mesmo assim ânimo para continuar a gostar da vida, a melhor obra de arte que diz conhecer. Figura multifacetada, católica e comunista, subiu na vida a pulso. Começou a trabalhar muito jovem, candidatou-se a uma bolsa de estudo para se licenciar e chegou a professora na mesma escola onde era auxiliar. Apaixonada pela sua cidade, diz que faltam líderes que façam ouvir a voz de Santarém e do Ribatejo em Lisboa.

Edição de 02.01.2013 | Entrevista
Que prenda gostava de ter visto Santarém receber neste Natal?Gostava de ouvir falar de uma equipa para governar Santarém. O melhor presente era ter esperança.O panorama é assim tão desanimador?Não, mas é muito complicado. Há pessoas que poderiam fazer um bom trabalho, se soubessem reunir uma boa equipa. E aí penso que há algumas dificuldades, porque todas as equipas hoje acabam por ser dominadas pelos partidos. O que vê quando olha para a cidade?Uma tristeza. Já perdi as lágrimas de tanto chorar. Faz-me muita pena. Ainda hoje fui à cidade tomar café e é uma dor de alma ver o comércio a morrer, ver tudo a cair. É na verdade uma tristeza para quem viu esta cidade ter esperança de ser património mundial (embora eu pense que o caminho não foi bem desenhado) ter o centro histórico no estado em que está...E a crise não explica tudo.Não. Há uma falta de interesse e de amor à terra e à região. Aquela que era a capital do Ribatejo devia ser mais cuidada e mais amada.Falta amor aos escalabitanos pela sua terra?Falta interesse, falta amor. E sobretudo faltam vozes que se façam ouvir nos governos da nação. Repare-se no que está a acontecer com as barreiras de Santarém. Há quantos anos caíram? E continuam a ser um perigo sem que se faça nada.Não há líderes?É isso. Não temos vozes importantes. Fez muita falta o dr. Viegas, porque esse homem tinha uma boa relação ao seu tempo e fazia-se ouvir em Lisboa. Hoje não temos vozes que se façam ouvir junto do Governo central. E actualmente nem temos Governo central, mesmo que tivéssemos as vozes. Sinto-me muito triste.Foi a esperança de ter essa voz forte que a levou a apoiar Moita Flores como candidato à Câmara de Santarém?Não, de maneira nenhuma. Nessa altura não raciocinava assim nem conhecia o dr. Moita Flores suficientemente bem. Nunca acreditei no amor que o dr. Moita Flores apregoava pela cidade.Então porque o apoiou?Porque na altura eu apoiava um grupo de presidentes de juntas de freguesia que estavam muito dependentes do dr. Moita Flores e da sua candidatura.Foi um apoio por interesse, digamos assim...Foi por interesse do grupo que apoiava. Fomos buscar apoio a quem era mais forte, a quem sabíamos que ia ganhar a câmara.Parece existir algum desencanto relativamente a Moita Flores, mas nem tudo terá sido mau. Pôs a cidade no mapa durante algum tempo.Pôs mas a despedida dele é algo que me desgosta, que me desilude. Porque quem apregoava tanto amor por esta gente não trocava agora Santarém por Oeiras.Foi esse sentimento de rejeição que a magoou mais?Isso não se pode simplificar assim. Comecei a afastar-me antes. Houve um esfriar de esperança e de confiança na obra que disse que iria fazer.A Santarém de hoje era a que esperava ter após a gestão de Moita Flores à frente da câmara municipal?Não, de maneira nenhuma. Não podia ter muita esperança numa força mais conservadora.Com a sua idade, depois do que já escreveu, depois do que já pensou, acha que a ideologia ainda conta na estratégia para uma cidade?A ideologia conta para formar grupos de pessoas com finalidades. E depois os partidos formam interesses. Esses interesses têm sempre a ver com eleições. Não tenho esperança que neste momento possa surgir um grupo de pessoas na nossa cidade que possa lutar pela sua afirmação, nos partidos, na sociedade civil e até mesmo na Igreja. Se estamos a falar de líderes, penso que devíamos tentar encontrá-los. E eu olho à volta e não os vejo.Os partidos já não dão resposta a esses anseios.Pelas minhas experiências partidárias tornei-me desconfiada, crítica, relativamente aos grupos que se formam e aos interesses que surgem. Mas a vida política precisa de partidos, pois sem eles não há democracia. Precisamos de melhorar a cultura política, de se fazer alguma coisa dentro dos partidos.É das poucas pessoas em Santarém que opinou escrevendo. Alguma vez sentiu dor ou frustração por repercussões daquilo que escreveu?Os cronistas têm a arte de atirar as palavras como se atiram pedras. De modo que também estamos escudados para receber as facadas, as alfinetadas e até as pedradas sem nunca ficarmos de cabeça partida. Uma vida que dava um filmeA vida de Rosalina Melro, 79 anos feitos a 15 de Dezembro último, dava um livro ou um bom argumento para um filme neo-realista. E não se pense que é exagero. Esta mulher que subiu na vida a pulso, até se reformar como professora, nasceu numa família pobre da Ribeira de Santarém e aos 16 meses já não tinha pai nem mãe. Sem acção social que a apoiasse e aos restantes seis irmãos, foi entregue aos cuidados da polícia, então aquartelada no edifício onde depois esteve sediado o Governo Civil de Santarém. Uma senhora que vivia perto ajudou os polícias a cuidarem dela. Esteve lá 15 dias, até ser adoptada por uma família que tinha uma pensão junto à cerca da Mecheira.Foi criada “com muito amor” e tem boas memórias da infância, mas sempre teve consciência que era filha adoptiva do casal que tinha mais um filho. Quando fez a antiga quarta classe, a professora falou com os pais pedindo-lhes que a deixassem continuar a estudar, mas a resposta foi negativa. Aprendeu costura e bordados como era de bom tom nas meninas da classe média da época e entretanto começou a trabalhar como auxiliar no Liceu de Santarém. A proximidade aos livros e ao meio académico levaram-na a reatar os estudos, queimando etapas sucessivas até completar o ensino secundário “sempre com boas notas”. Chegada aí foi aconselhada a fazer uma carta à Fundação Gulbenkian onde contasse o seu caso e apelasse à concessão de uma bolsa de estudo para o ensino superior. A resposta dessa vez foi positiva e foram-lhe atribuídos 900 escudos mensais para frequentar a universidade. Escolheu o curso de Filologia Românica e alguns anos mais tarde era “doutora”. A auxiliar passou a professora na mesma escola, actividade que desempenhou na maior parte da sua vida.Com o segundo marido, Luís Blaser, de quem enviuvou em 2006, fez do seu apartamento na Avenida 25 de Abril um autêntico centro de explicações. O marido, professor que também tirou o curso superior tardiamente, ensinava inglês e ciências. Rosalina encarregava-se do português e da história.Vida marcada pela tragédiaRosalina Melro habituou-se desde cedo a lidar com a morte, companheira inseparável ao longo do seu trajecto de vida. Orfã de pai e de mãe aos 16 meses, casou nova mas o primeiro marido morreu passados três anos. Era um homem com uma boa situação, pai da filha mais velha, que é médica. O choque foi grande. Aproximou-se mais da igreja, fez um curso de cristandade e tornou-se catequista durante muito tempo na paróquia de São Nicolau. O marxismo viria bem mais tarde. “Cada vida tem muitas facetas, muitos quadros”, diz para explicar militâncias que parecem inconciliáveis.Esteve dez anos viúva até conhecer Luís Blaser, então escriturário da Escola de Regentes Agrícolas de Santarém. Rosalina recorda com carinho a forma como se conheceram. “Ia a pé a caminho do Liceu, onde dava aulas, e o salto de um dos sapatos partiu-se. Ouvi um carro a parar junto a mim e um homem a perguntar-me: ‘a doutora quer boleia?’. Eu aceitei e seis meses depois éramos marido e mulher”. Dessa união teve um casal de filhos. “Foi um casamento de interesses comuns. Ele também não tinha estudado, voltou aos estudos e foi também professor”.Em 2006, o segundo marido faleceu. Dos seis irmãos que teve, apenas resta um, que reside em Cascais e com quem costuma viajar pela Europa. Tantas perdas podiam tê-la deixado revoltada, amargurada com a vida, mas ela continua a agradecer as oportunidades que foi tendo. “A vida é a obra de arte mais interessante que já conheci”, afirma.Ao longo da conversa, enquanto os três gatos que tem no apartamento vão passando pela sala repleta de livros, fotografias dos cinco netos e múltiplas recordações, diz que falta harmonia no mundo dos homens. “O ser humano deve ter essa capacidade de se encontrar e de se aceitar como é, mas em paz. É isso que falta na nossa obra de arte, aceitar o outro que pensa diferente”.Hoje Rosalina vive sozinha com a televisão como principal companheira, mas todos os dias têm uma incumbência: ir dar comida à dezena de gatos que tem no casal de que é proprietária na Ponte de Celeiro, a meia dúzia de quilómetros de Santarém. Uma missão que vem de um pacto feito com o marido, que lhe dizia que era mais prioritário tratar desses animais do que ir pôr flores na campa do que morresse primeiro.“Sou uma espécie de saco de retalhos”É a revolução de 25 de Abril que potencia em Rosalina Melro a sua veia militante e lhe aponta o caminho da intervenção cívica e política. Embalada pelo charme político de Mário Soares, filia-se no Partido Socialista, mas as disputas internas no partido levam-na a abandonar a militância. Procura com o marido outro espaço de intervenção partidária e aposta no Partido Comunista, influenciados por amigos e atraídos pelo discurso da defesa da classe trabalhadora. Esteve no PCP até 2007, quando a sua amiga e camarada Luísa Mesquita, então deputada e vereadora na Câmara de Santarém, foi expulsa do partido. O desencanto já vinha de trás, dos tempos da expulsão de João Amaral, outro militante com ligações a Santarém. “Mas o encanto do comunismo continua a ser o mesmo no que respeita à mensagem de solidariedade”, ressalva.Durante a longa ligação ao PCP foi mandatária de Vicente Batalha e de Luísa Mesquita enquanto candidatos à Câmara de Santarém e fez parte da bancada da CDU na assembleia municipal. Esteve também na direcção da já extinta Região de Turismo do Ribatejo. Em 2009, apoiou Moita Flores integrada num movimento de independentes que cortou com o PCP após a expulsão de Luísa Mesquita. E não esconde algum desencanto com o autarca que deixou a sua amada Santarém para se candidatar em Oeiras. Sobretudo pela sua forma de intervir nas sessões da assembleia municipal. Isso levou-a a desinteressar-se pela vida política. Deixa de comparecer nas reuniões de câmara e da assembleia. Cessa a intervenção na imprensa, com quem colaborou durante mais de quatro décadas. “Deixei de ir às reuniões mas dou-me bem com todos. São pessoas que estimo e vejo-as como o futuro da minha terra”, diz.E acrescenta: “Nunca me desiludi com ninguém mas em todas as situações em que me senti menos feliz soube quebrar e dizer não. Hoje sou independente e acho que tive uma vida de grande riqueza. Sou uma espécie de saco de retalhos, com as suas coisas boas e menos boas”.Uma escalabitana militanteAo longo de hora e meia de conversa, Rosalina Melro emociona-se com frequência, mas nunca como quando é instada a falar da sua cidade. Foi dirigente da Associação de Estudo e Defesa do Património e do Círculo Cultural Scalabitano e mulher empenhada na divulgação dos tesouros patrimoniais e históricos da velha Scalabis. Durante muitos anos fez visitas guiadas ao centro histórico onde aproveitava para deixar algumas críticas aos poderes instituídos pela falta de atenção relativamente a algum património. Hoje prefere deixar essas visitas a cargo de gente mais nova, aos profissionais do turismo. Mas o olhar atento e a voz crítica continuam. “Não entendo como deixaram a Ribeira chegar ao que chegou e ser tão maltratada”, dá como exemplo. Quando a candidatura de Santarém a património mundial marcava a agenda da cidade, há uma dúzia de anos, Rosalina Melro ajudou à polémica com a sua escrita crítica e apaixonada. Jorge Custódio, o coordenador da candidatura, era o alvo mais frequente. “Historicamente, Santarém merece e pode vir a ser o que Guimarães e Braga estão a tentar provar”, diz. Para isso, refere, “falta em Santarém quem possa pôr vivo o amor por esta terra, porque tem monumentalidade suficiente para isso”.
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