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“A guerra colonial acabou quando acabaram os cigarros e a cerveja”

“A guerra colonial acabou quando acabaram os cigarros e a cerveja”

Joaquim Duarte Costa, médico, Vila Franca de Xira
Edição de 02.01.2013 | Três Dimensões
Frequentei a escola da Rua das Pedras Negras onde tinha sido professor o Buiça que foi quem matou o rei D. Carlos. Nasci em Lisboa, em pleno coração da Mouraria mas as minhas origens estão em Arganil, de onde são os meus pais, que se tornaram pequenos comerciantes em Lisboa. Nunca quis ser médico. Queria era estudar História. Ainda hoje é o que eu passo a vida a ler. No bairro onde cresci havia uma série de médicos e estudando pelas sebentas deles aos 22 anos era médico. Fui director do Hospital de Vila Franca mas demiti-me por fax. Recusei-me a exercer clínica privada num local público. Não pode haver formas diferentes de tratar os doentes num local. Depois disso continuei a trabalhar no hospital, para onde fui em 1979, até ter o enfarte e me reformar. Encarei essa experiência de director, que durou cinco anos, como uma comissão de serviço por imposição, como na tropa. Continuo a exercer medicina mas só no privado. Não concordo com a dedicação exclusiva.A guerra colonial acabou quando acabaram os cigarros e a cerveja. Os abastecimentos não chegavam onde nós estávamos e um ano antes do 25 de Abril comemorámos o fim do conflito. A guerra faz-se à pedrada e à fisgada mas não sem cigarros e cerveja. Estive em Angola de 1972 a 1974. Estou a escrever as minhas memórias. Como rasguei os aerogramas tenho que puxar pela cabeça para me lembrar das datas. Uma vez puseram-me em cima de uma égua mas ela baixou-se e fui parar ao chão. Foi quando passei os últimos 11 meses da guerra na cavalaria, em Silva Porto. Nunca mais montei. Tenho amigos desse tempo que ainda conservo. As filas dos centros de emprego lembram-me os judeus no tempo do nazismo e a América na altura da grande depressão e da fome. Qual é a solução que temos para o desemprego? Não sou muito optimista... A história tem ciclos. Depois da democracia vem a ditadura. Uma vez num discurso disse que Bruxelas era a capital do Império Romano do Norte.Quando comecei a trabalhar em 1969 havia uma classe de doentes nos hospitais civis que eram os indigentes. Eram credenciados pela Misericórdia e bem tratados nos hospitais civis porque era onde estávamos a aprender. Distribuíam-se medicamentos num saco de papel. Ainda recordo uma velhinha que ficou feliz por ter direito a levar uma receita para comprar os medicamentos com o pouco dinheiro que teria. Sou médico e sou doente. Às vezes ponho-me no lado de lá. Em determinadas circunstâncias estar doente pode ser perigoso. Se não há meios alguém tem que o assumir. O que não pode acontecer é haver para uns e não para outros. A igualdade de oportunidades é uma coisa básica na medicina. Não concordo com a separação das águas. Quero que a água chegue para todos. A ideia da morte incomoda-me. É inevitável mas incomoda-me. Custa-me ver crianças doentes. Amigos doentes. Lido mal com isso e por isso fujo dos enterros. Gosto muito de ópera mas a última vez em que fui assistir a uma não ouvi os baixos. Perdi a música devido ao meu défice auditivo. Até perguntei à minha mulher se o espectáculo já tinha começado...Quando era médico da polícia tinha um camarote em cima do fosso da orquestra de que gostava muito. Uma vez a minha mulher, que é pediatra, estava de banco e fiquei com os três índios em casa. Pediram-me tortilha à espanhola. Coloquei os ovos e cortei as batatas muito bem cortadinhas. Só que me esqueci de cozinhá-las primeiro e por isso ficaram cruas... (risos)Sou a favor da liberdade total e da responsabilidade total. Não posso com servidões de gleba ou dedicações exclusivas. Não sou religioso mas se as pessoas cumprissem a sério as leis mosaicas [os dez mandamentos] a vida seria bem melhor. Ana Santiago
“A guerra colonial acabou quando acabaram os cigarros e a cerveja”

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