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“O passeio ribeirinho de Alhandra é cultura”

A directora adjunta do Teatro da Trindade, Catarina Romão Gonçalves, cresceu na vila à beira rio

A directora adjunta do Teatro da Trindade, Catarina Romão Gonçalves, 40 anos, cresceu em Alhandra, à beira rio. Fez teatro no grupo “Esteiros” da Sociedade Euterpe Alhandrense, que o pai, Mário Rui Gonçalves, chegou a dirigir. Vive actualmente em Lisboa. É mãe de dois filhos. Mulher de esquerda que gosta de partir à aventura. Formou-se em Direito para compreender as leis que regem os homens e porque achou que as artes eram demasiado frágeis para garantir sustento. Também por isso diz que o concelho de Vila Franca de Xira não pode viver só do pão que é a cultura.

Edição de 09.01.2013 | Entrevista
De cada vez que regressa a Alhandra nota evolução?Alhandra é sempre uma surpresa. Alhandra sempre foi um monstro do associativismo e dos pequenos cafés. A Sociedade Euterpe Alhandrense é um pólo aglutinador de energia positiva de todos os géneros. Confere dinâmica à freguesia e por causa disso vem gente de fora. Ao fim de semana em Alhandra está sempre a acontecer qualquer coisa. Depois tem vindo a ser requalificada. Não se faz mais porque não há meios.Não é uma vila estagnada entre a A1 e o rio?Estagnada não é. Ao nível do comércio local era importante que houvesse mais dinâmica. Mas não é uma decisão política local que vai fazer a diferença quando ao nível central se estão a fazer políticas no sentido da desmobilização cívica. A cultura é o maior motor económico e de diferenciação positiva das economias.Então concordará com a ideia de João de Carvalho, candidato oficial do PSD às próximas eleições autárquicas em Vila Franca de Xira, de fundamentar uma campanha na cultura? Não promete obras promete cultura. É suficiente?Não há motor sem peças. A cultura pode e deve ser o motor mas os motores funcionam ao serviço de uma máquina. A cultura não pode funcionar por si só.O concelho não poderá viver só desse pão?Não pode viver só desse pão até porque é um pão que não dá sustentabilidade.E fala uma mulher da cultura...Absolutamente. O lucro da cultura nem deve ser esse. O lucro da cultura tem que ser por obrigação social e constitucional um lucro muito mais subjectivo que objectivo. Não se vive de lucro subjectivo mas tem que criar-se uma estrutura envolvente, economicamente forte, que possibilite que as pessoas comam e sejam felizes. A mulher da cultura com quem está a falar formou-se em Direito porque sabia que o conservatório não chegava... Não se pode pensar em construir um teatro se não soubermos como vamos ter dinheiro para que ele funcione. É uma irresponsabilidade.Falando na bandeira de João de Carvalho - a cultura - que outras peças faltam na engrenagem?Acho que os políticos sabem responder melhor a estas perguntas. Acredito no esforço que tem vindo a ser desenvolvido pelas pessoas que lá estão. Tenho estado atenta e não tenho visto esbanjamento, o fazer só para mostrar que está feito e depois o abandono. O sítio onde nós estamos hoje, o passeio ribeirinho, é cultura. Há pouco estava no cais 14 a contar ao meu companheiro como é que se transportavam os melões do mouchão. Ainda sou do tempo dos alguidares do peixe a saltar. O que é a cultura? É um enorme património sensorial e emocional que faz parte de todos nós. Há a cultura popular, patrimonial e edificada. Para mim não faz sentido passar e não ver o Museu Sousa Martins, a igreja ou o pelourinho. Esta terra é parte da minha cultura.O Museu do Neo-Realismo foi uma boa obra?Acho que era absolutamente essencial haver um marco da cultura neo-realista. Criou-se um sítio para ter uma memória organizada e uma âncora. Falava-se do Soeiro Pereira Gomes e do Alves Redol e eu sentia, tal como o meu avô que foi amigo pessoal de Redol, que havia uma falha no concelho. Era aqui que pertencia existir.Como assistiu à multiplicação do betão no concelho?Isso não foi um fenómeno só de Vila Franca de Xira. Toda a área metropolitana de Lisboa foi afectada. Foi um bom negócio - não sejamos ingénuos - que muitos não souberam parar a tempo.Mas basta de construção?As coisas não são assim tão lineares. Não se pode deixar de construir. As coisas têm que ser feitas com sustentabilidade e ponderação. Houve construção e crédito desenfreado, é verdade, e por isso estamos todos a pagar esse preço.Que ideia tem da governação de Maria da Luz Rosinha? O novo candidato do PS [Alberto Mesquita] está à altura?Não conheço o candidato mas tenho Maria da Luz Rosinha como uma mulher muito forte e persistente. De outra maneira era impossível ser uma líder consequente. Nunca fui filiada em partidos. Considero-me de esquerda e tenho muito respeito pelos políticos. São absolutamente essenciais. Alguém tem que expor-se...Continua a ter consideração pelos políticos apesar dos cortes que têm sido feitos à cultura?Por quais políticos? Não gosto de generalizações. Tenho muita consideração por alguns.Mas sente-se revoltada com os cortes...Profundamente. Principalmente porque penso que a grande maioria das decisões foram tomadas com cegueira. Cortando sem ver onde e sem consciência das consequências.Por outro lado como é que se explica a famílias que estão a passar fome que é preciso continuar a investir em cultura?[Silêncio demorado] Um povo exausto é um povo que canta. As pessoas não são só estômago. São espírito, pensamento e estados anímicos. Não se pode pedir a um povo triste que seja produtivo. Não se pode pedir a um povo analfabeto que seja elevado. Não se pode pedir a um povo seco que seja criativo. E não se pode pedir a um povo analfabeto, seco e triste que tenha uma economia forte.O ser humano devia nascer com uma mochila às costasAos dois anos e meio Catarina Romão Gonçalves já acompanhava o pai, Mário Rui Gonçalves, que chegou a ser director do grupo de teatro “Esteiros”, nas visitas à Sociedade Euterpe Alhandrense. Tinha 14 anos quando integrou o elenco da peça “Os dados estão lançados”, de Jean-Paul Sartre. Texto existencialista que a fez pensar, muito cedo, sobre o sentido da vida e a sua finitude. Não seria a mesma pessoa se não tivesse passado pela Sociedade Euterpe Alhandrense onde aprendeu solfejo, dança, jazz e teatro. Apesar da paixão pelo teatro e contra as expectativas do pai, que já a imaginava no conservatório, Catarina Romão Gonçalves inscreveu-se no curso de Direito. Primeiro porque queria perceber as leis feitas pelos homens e para os homens. Depois porque sobreviver das artes lhe soava a algo demasiado frágil. Ser uma advogada rica nunca foi no entanto o seu objectivo.Depois de terminar o curso foi trabalhar para o Inatel até ser convidada para directora adjunta do Teatro da Trindade, cargo que actualmente exerce. Durante cinco anos foi ainda directora do Teatro Municipal do Montijo. A par de um cargo que é sobretudo institucional iniciou no ano passado o projecto do grupo de teatro intergeracional do Teatro da Trindade que a ocupa aos sábados de manhã com elementos entre os 8 e os 80 anos.Cresceu à beira rio, em Alhandra, mas vive em Lisboa, numa casa térrea do Bairro da Madredeus, no Beato. Cultiva tomates, alface, ervas aromáticas e tem três árvores de fruto. É uma mulher de esquerda, mãe de dois filhos, de seis e 13 anos. Ama acima de tudo as pessoas. À cabeceira tem “Papalagui”, livro sobre o que de mais puro e genuíno existe no ser humano.É fascinada pela cultura da troca. Ofereceu a sua máquina de fazer pão em troca de um microondas que tinha avariado lá em casa. Dois dias depois de ter lançado o apelo na internet conseguiu o novo electrodoméstico. Foge dos centros comerciais como o diabo foge da cruz. É contra o comprar feito. Remodela a casa reciclando o que já tem. Faz carimbos de rolhas de cortiça para os postais de natal e aproveita as caixas de sapatos para personalizar embrulhos. E cita a este propósito Almeida Garrett: “As coisas contadas tal como elas são ficam de uma sensaboria tal que não resisto ao desejo de as enfeitar com a riqueza da minha imaginação”.A expressão “medo de experimentar” não consta do seu dicionário. É aventureira e acha que o ser humano deveria ter nascido com uma mochila incorporada. “Os cangurus nisso são mais perfeitos que nós. Somos seres viajantes”. Porque as responsabilidades familiares a impedem de sair mais vezes viaja por dentro, lendo, vendo espectáculos e escrevendo apesar de ainda não ter publicado nenhum dos livros que tem na gaveta.Em Março de 2012 escreveu e encenou o espectáculo “Sorte” com actores que passaram pelo grupo de teatro “Esteiros” e que se tornaram profissionais. O espectáculo começou a ser preparado a seguir ao falecimento do pai que tinha sido o mestre de todos. “Quando partirmos não levamos nada connosco. Só levamos o que vivemos. Só deixamos nos outros memórias. Mais nada. As coisas valem muito pouco”.

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