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Os músicos que bebiam bagaço para terem sensibilidade nos lábios e os que enchiam o trombone de água

Os músicos que bebiam bagaço para terem sensibilidade nos lábios e os que enchiam o trombone de água

Histórias da Filarmónica de Benavente agora reactivada contadas pelo antigo executante Joaquim David

A Banda da Sociedade Filarmónica Benaventense vai animar este ano as Festas em Honra da Nossa Senhora da Paz depois de um interregno de 10 anos. Um momento importante para a colectividade que está a celebrar 142 anos. O MIRANTE esteve à conversa com um dos músicos mais antigos da banda, Joaquim David, que conta histórias quase inacreditáveis.

Edição de 16.01.2013 | Cultura e Lazer
Existia um músico que costumava encher o trombone com água que deitava fora antes de tocar, porque pensava que assim o instrumento tinha melhor som. Muitos eram os executantes de instrumentos de sopro que bebiam bagaço para os lábios não ficarem dormentes. Outro músico costumava andar com tiras de pele de bacalhau no casaco para passar pelos lábios antes de começar a tocar. Estas são apenas alguns dos episódios de antigamente da Banda Filarmónica Benaventense, que agora foi reactivada ao fim de dez anos de inactividade. Joaquim David, de 84 anos, é um dos músicos que entrou na banda aos oito anos e por lá permaneceu por mais 60 anos. Num dos concertos da banda, os moradores de São Brás meteram-se ao barulho com os de Bilrete, duas povoações do concelho de Benavente. O padre tentou pôr ordem na zaragata e a partir desse dia proibiu os cajados na terra. Este é um momento que Joaquim David não esquece dos tempos em que era um jovem músico. Na altura não existiam mais distracções em Benavente. Simpatizou com o clarinete, instrumento ao qual se manteve fiel até aos 60 anos, quando o trocou por pouco tempo pelo contrabaixo, antes de a falta de força o levar a abandonar a banda. A farda dos mais pequenos tinha tecido escondido para que a farda fosse sendo alargada à medida que os músicos cresciam.“Eram tempos difíceis, mas vivia-se uma alegria e entusiasmo em torno da banda difícil de explicar”, repara. Recorda o maestro Francisco Mendes Soldado, sargento da GNR, como o grande impulsionador da banda. Era pela prática do solfejo e por alguns livros que os jovens músicos se iniciavam. Um terço do livro estudado já dava direito a entrar na banda. Eram tempos em que a população saía à rua para ouvir tocar meia centena de músicos. No 1º de Dezembro começavam a tocar pela madrugada. “Íamos depois para casa, pegávamos no farnel e íamos trabalhar para os campos”, recorda Joaquim David. Marcavam presença em muitas festas da região e animavam as touradas que se iam realizando.Depois de trabalhar no campo e na construção civil, Joaquim emigrou para Inglaterra, onde esteve 16 anos a trabalhar como empregado de mesa. Lá tocou também numa orquestra, mas sempre que vinha passar férias à terra regressava à filarmónica. O antigo músico, que teve também um papel preponderante no ensino de outros músicos da banda, diz que “se os músicos de hoje tivessem o entusiasmo que nós tínhamos na altura, com a evolução actual do ensino, seriam executantes de excelência”. Joaquim David continua a tocar todos os dias, mas desta vez acordeão, para as crianças da creche de Benavente onde vai todos os dias como voluntário.Filarmónica Benaventense regressa às Festas de Benavente 10 anos depoisA Banda da Sociedade Filarmónica Benaventense vai animar este ano as Festas em Honra da Nossa Senhora da Paz depois de um interregno de mais de 10 anos devido ao facto de muitos elementos terem abandonado a colectividade. Há cerca de dois anos que a nova direcção da colectividade tem angariado novos músicos. “Sinto que é um orgulho para a população ver sair novamente a banda à rua e participar na festa”, nota o presidente da colectividade, Nuno Martins.A banda precisava de pelo menos mais dez músicos para ficar completa. “Temos muitos jovens que emigraram nos últimos tempos e muitos dos que entram na universidade não tem possibilidade de vir aos ensaios e começam a desligar-se”, explica Nuno Martins. Quem ingressar na banda tem aulas de música e não paga qualquer mensalidade. Pode integrar também a orquestra de violinos, de guitarras ou o quarteto de saxofones.
Os músicos que bebiam bagaço para terem sensibilidade nos lábios e os que enchiam o trombone de água

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