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Uma mulher de garra que deixa obra feita na sua terra natal

Uma mulher de garra que deixa obra feita na sua terra natal

Carmina Tereso deixa a direcção da ACITI de Caxarias, da qual foi fundadora, ao fim de 25 anos.

Edição de 23.01.2013 | Sociedade
O dia 15 de Dezembro de 2012 foi forte em emoções e vai ficar na memória de Carmina Tereso, 67 anos. Vinte e cinco anos depois de ter criado a Associação de Caxarias para a Infância e Terceira Idade (ACITI) chegou o momento da despedida e não faltaram lágrimas na hora do adeus. A mentora e directora da ACITI diz que chegou a altura de dar a vez a outros. A festa de Natal serviu para passar a pasta à nova direcção e homenagear Carmina Tereso. Também a Assembleia Municipal de Ourém homenageou recentemente a antiga directora da ACITI pelo seu contributo para o desenvolvimento da maior instituição da freguesia de Caxarias.A professora do primeiro ciclo reformada sempre se considerou uma mulher insatisfeita por natureza. Para si havia sempre qualquer coisa nova que podia ser feita e um centro de dia e uma creche sempre foram objectivos seus para ajudar a desenvolver a sua freguesia. Há 25 anos começaram a juntar os idosos no edifício da junta de freguesia quinzenalmente. “Era um entusiasmo para todos. Cada um trazia qualquer coisa e convivíamos. Chegámos a ter 60 idosos nessas tardes. Eles ficavam ansiosos por esses momentos”, recorda a O MIRANTE.A adesão foi tão grande que Carmina Tereso meteu mãos à obra e, com a ajuda da Câmara de Ourém, avançaram com a construção do edifício onde funciona a ACITI em Caxarias. Começaram com quatro funcionários e 17 utentes e foram sempre crescendo. Entretanto, surgiu o serviço de apoio domiciliário. Actualmente têm 23 utentes que usufruem do centro de dia mas já chegaram a ter 40. Carmina Tereso lamenta que nos últimos tempos os idosos escolham o centro de dia só em último recurso. “Muitos decidem vir quando já precisam do apoio de um lar. A falta de dinheiro está a fazer com que os idosos optem por ficar o dia todo em casa, muitas vezes sozinhos”, afirma.A sua relação com os utentes sempre foi de amizade e ainda hoje, quando visita o espaço, há uma palavra de carinho para todos. No dia em que O MIRANTE entrevistou a antiga directora da ACITI, Carmina Tereso fez questão de passar pela sala de convívio. Não faltou uma palavra de conforto para todos e gestos de carinho para aqueles que conhece há mais tempo. E não faltou uma visita à cozinha onde, entre os preparativos para o almoço, pediu às funcionárias para tirarem uma foto consigo. Para mais tarde recordar.Dava de comer a crianças necessitadasAlém do centro de dia, Carmina Tereso também criou um Atelier de Tempos Livres (ATL) para as crianças da freguesia. Um projecto que surgiu na altura em que dava aulas. Na altura, apercebia-se que havia crianças que passavam fome e trazia-as no seu carro para a ACITI e dava-lhes comida. Sempre sem cobrar nada. Entretanto, constatou que cada vez havia mais crianças na mesma situação de carência e mandava uma carrinha da associação buscar as crianças. Foi aí que resolveu avançar com o ATL. Apesar de toda a obra feita, a antiga directora lamenta não ter tido possibilidade de fazer uma creche. Ainda tem esperança que um dia se faça mas não para breve tendo em conta a situação financeira que o país atravessa.A professora que também queria ter sido enfermeiraCarmina Tereso nasceu a 10 de Março de 1945 em Caxarias. Em criança sonhava ser professora ou enfermeira. Naquela altura a profissão de enfermeira não era muito bem vista na sociedade por isso os seus pais aconselharam-na a seguir a carreira de professora. Não se arrepende da escolha mas não esconde a admiração que continua a sentir pela profissão de enfermeira.Deu aulas durante 32 anos, cinco dos quais na Bélgica. Emigrou com o marido em 1970 quando este regressou de Angola. Deu aulas a crianças portuguesas e belgas. Gostou da experiência mas diz que não há nada melhor do que regressar ao “nosso país”. Depois de tempos tumultuosos após a Revolução do 25 de Abril resolveram voltar a Portugal. Sempre adorou a sua profissão embora confesse que nos últimos anos em que deu aulas as coisas estivessem mais complicadas. “Nunca tive problemas nem com os pais nem com os alunos mas era mais difícil controlar as crianças. Reformei-me na altura certa”, explica.Mãe de três filhos, aproveita agora os tempos livres para fazer as arrumações em casa que nunca conseguiu fazer por falta de tempo. “Não me falta o que fazer em casa”, diz com um sorriso tímido”. Foi presidente da Assembleia de Freguesia de Caxarias durante quatro mandatos e criou o Grupo de Jovens de Caxarias. Na sua terra, diz, faz falta um lar e uma creche. Lamenta que hoje em dia as pessoas estejam mais desligadas do associativismo. Já com saudades do ter deixado o projecto que criou de raiz, Carmina Tereso diz-se orgulhosa da obra feita.
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