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Há casos de miséria avassaladora nos bairros de Povos e Bom Retiro

Há casos de miséria avassaladora nos bairros de Povos e Bom Retiro

Cajixira apoia famílias que nalguns casos vivem com menos de 130 euros

Paula, Juracema, Aquelino e Suzete são quatro pessoas marcadas por uma vida difícil e socialmente dramática. Todos recebem ajuda alimentar e não vivem… sobrevivem. Vale-lhes o tecto das casas de habitação social da câmara ao lado de vivendas com piscina e jardim.

Edição de 30.01.2013 | Sociedade
Nos bairros do Bom Retiro e Povos em Vila Franca de Xira há quem viva o pesadelo de não ter dinheiro para comer ao lado do sonho de alguns que vivem em vivendas com jardim e piscina. Há pessoas que têm menos de 130 euros por mês para comer e alimentar os filhos. Estas situações são bem conhecidas de Jorge Pereira, presidente do Cajixira, associação que combate a pobreza e a exclusão social no bairro, ao ponto de dizer que há “casos de miséria avassaladora”. O MIRANTE visitou três famílias do bairro onde os sacrifícios se vivem dia-a-dia e onde a sobrevivência é contada ao cêntimo todos os meses. Paula Rosário Figueiras, natural da Castanheira do Ribatejo, 37 anos, vive com os três filhos, está grávida de uma quarta criança e é desempregada. Não tem direito ao subsídio de desemprego e o dinheiro que entra em casa é o do abono dos filhos, no total de 126 euros. A ajuda alimentar, constituída entre outros alimentos por massas, azeite e leite é dada pela Cajixira (ver caixa). “Os miúdos estão na escola durante o dia e almoçam por lá. Não consigo fazer todos os dias carne mas quando posso faço uma sopa para o jantar”, desabafa. Os vizinhos, a mãe e as irmãs são o que ainda lhe vai valendo para conseguir alimentar tantas bocas. Trabalhou numa fábrica de confecções que faliu e depois esteve numa churrasqueira antes de cair no desemprego. “Depois de ter a criança vou voltar a procurar trabalho”, nota. Na zona mais pobre do Bom Retiro não há carros topo de gama à porta das habitações sociais. Quem passa nas ruas não imagina os dramas que se vivem entre quatro paredes, como é o caso de Aquelino Reis, 48 anos, desempregado, que vive numa cama improvisada no chão da sala da casa de uma sobrinha. Aquelino era operário de construção civil mas está sem trabalho há vários meses desde que a crise afectou o sector. A mulher deixou-o e os filhos foram entregues a uma instituição porque já não tinha capacidade para cuidar deles. Sem apoio do Estado e sem tecto, foi obrigado a pedir ajuda à sobrinha Juracema Monteiro que tem 33 anos e um trabalho precário numa firma em Alverca. Ganha 485 euros, dinheiro que tem de chegar para alimentar os dois filhos, o namorado que está desempregado e o tio Aquelino. “Tenho cortado na alimentação. Este mês não comemos peixe, tem sido tudo à base de frango e entremeadas. Se chegar a um ponto em que não tenha nada para dar aos meus filhos entro num supermercado com eles e digo-lhes para comerem das prateleiras”, desabafa Juracema. Até agora não têm passado fome porque beneficiam dos cabazes de alimentos entregues pela Cajixira. Juracema não sabe o que é ter um emprego fixo. Já foi empregada de balcão, auxiliar de cozinha, operária fabril e auxiliar de acção educativa. Sempre em trabalhos temporários. No vizinho bairro de Povos o cenário é semelhante. Suzete esconde-se da máquina fotográfica mas mostra o frigorífico vazio. Tem 53 anos, foi apanhada num despedimento colectivo há um ano e meio e desde então não encontra trabalho. “Velha para trabalhar e nova para me reformar. Dão-me 200 euros de reforma”, lamenta. O marido deixou-a quando as dificuldades apareceram. Ficou-lhe com a casa e deixou-lhe um carro, que vendeu há meses para ter dinheiro para comer. Valeu-lhe a casa da câmara municipal. Não recebe subsídio de desemprego porque a empresa devia dinheiro à Segurança Social. “Recebo os cabazes alimentares e os vizinhos e amigos vão-me ajudando. Como sou asmática precisei de receber tratamento no hospital a semana passada e não tinha dinheiro para pagar a taxa, foi o segurança que pagou”, conta envergonhada. Tal como as outras famílias vai-se agarrando à esperança de um futuro melhor.Cajixira dá almoços a mais de 170 pessoasO presidente do Cajixira revela que se sente “um grande aumento do número de pessoas a pedir ajuda e ao mesmo tempo uma grande redução no número de famílias que conseguem pagar as suas prestações mensais”. Segundo Jorge Pereira, 52 anos, a instituição, fundada há 20 anos, presta apoio a 55 crianças entre os 10 e os 18 anos, mediante um acordo celebrado com a Segurança Social. A acção da associação foca-se sobretudo nos jovens do bairro, que frequentam as três escolas das proximidades - Vasco Moniz, Reynaldo dos Santos e Alves Redol. Além do apoio alimentar as crianças beneficiam de ocupações dos tempos livres durante as férias escolares e a instituição também proporciona ateliês de línguas, ciências, carpintaria, informática e acções de formação de prevenção de toxicodependências, sida e formação profissional.Além desse apoio a instituição mata a fome a 48 famílias do bairro, que recebem cabazes que alimentam 176 pessoas. “Só no ano passado entregámos 10 toneladas de alimentos”, explica Jorge Pereira. Os alimentos são obtidos ao abrigo do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados e são levantados na Cruz Vermelha e distribuídos no bairro. “É verdade que muitas crianças que apoiamos só comem aqui uma refeição e um lanche. Não jantam. Infelizmente não podemos concorrer com a qualidade de uma cantina social mas toda a direcção sente-se mal por não poder dar essa ajuda adicional”, confessa. A instituição também está a sofrer com a crise e em três anos perdeu mais de seis mil euros, de quotizações que os pais deixaram de pagar por causa de desemprego ou divórcio. Ao todo a instituição gere um orçamento anual na casa dos 70 mil euros. Fundação EDP apoiou com material escolarNo último ano a direcção do Cajixira estabeleceu uma parceria com a Fundação EDP, que permitiu a entrega na instituição de material escolar, decorações e ainda proporcionou uma visita de estudo à central termoeléctrica do Carregado.Associação precisa de apoios das autarquiasO Cajixira não recebe qualquer apoio financeiro da junta de freguesia e da câmara municipal. “Da junta de freguesia a única coisa que recebemos é apoio para transportar os alimentos. Em todos estes anos nunca recebemos um cêntimo”, lamenta o responsável. “Nunca nos perguntaram se as 48 famílias que aqui estão a receber ajuda precisam de apoio adicional”, lamenta Jorge Pereira.
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