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“Tem havido pouco interesse pela arquitectura local”

“Tem havido pouco interesse pela arquitectura local”

Maria Zelinda Pego, licenciada em História, foi a fundadora da associação Rio da Fonte

Se o Cartaxo quer ser a capital do vinho por que não mantém as fachadas das casas dos grandes vinhateiros? E por que não se uniformizam no concelho as cores das casas preservando o que é tradicional? Não é só o estado dos monumentos históricos que preocupa Maria Zelinda Pego, fundadora da Associação Rio da Fonte, em Pontével, a quem interessa salvaguardar o património de uma forma geral.

Edição de 30.01.2013 | Sociedade
Nem só o estado de conservação dos monumentos preocupa a fundadora da associação Rio da Fonte em Pontével, Cartaxo, que se dedica à defesa do património histórico-ambiental. Maria Zelinda Pego, licenciada em História, é bastante crítica relativamente à intervenção urbanística que descaracteriza o concelho. “Custa-me que o Cartaxo queira ser a capital do vinho e que ao mesmo tempo as casas dos grandes vinhateiros estejam a ir abaixo. As fachadas antigas deviam manter-se. Tem havido pouco interesse pela arquitectura local”, lamenta Maria Zelinda Pego.A preocupação relativamente ao património estende-se à vila onde nasceu, Pontével. Se por um lado o largo onde está localizada a igreja está salvaguardado, porque o monumento é património classificado, há zonas mais desprotegidas onde há casas que são recuperadas sem respeitar as traças originais. “Devia haver uma postura municipal que obrigasse a manter o branco com barras azuis ou amarelas que é a tradição ribatejana”, exemplifica.Maria Zelinda Pego lamenta que os proprietários pintem as casas de várias cores, desde o rosa ao verde, sem que haja qualquer tipo de uniformização. “Há largos calcetados onde foi colocado esgoto mas que agora têm o piso aos retalhos”, critica.Maria Zelinda Pego, que ajudou a fundamentar em termos históricos a elevação de Pontével a vila, fundou em 2005, com a ajuda de outros conterrâneos, a associação Rio da Fonte. A luta contra a poluição no rio causada pelas pecuárias foi uma das batalhas da associação que tem promovido ao longo dos anos conferências e exposições. Espera que os restos da estrada romana que existem na freguesia sejam preservados e tem igualmente esperança de que a intervenção no Rio da Fonte não tape o arco da ponte histórica da freguesia.Pontével pode também agradecer a Maria Zelinda Pego que a igreja matriz tenha hoje uma exposição de pintura do século XVI, do mestre da romeira, que integrava o altar mor da capela do Senhor do Desterro. Os painéis estavam num armazém entre velharias quando especialistas do Instituto Politécnico de Tomar se mostraram interessados nas obras. “O então presidente da junta, Fernando Amorim, mandou despejar o armazém e foi assim que conseguimos encontrar as relíquias que eu já tinha visto numa adega. Os quadros estavam no armazém a servir de suporte a pastas de arquivo no chão”, conta. Mais tarde técnicos do Instituto acabariam por recuperar as pinturas.Maria Zelinda Pego, que continua civicamente activa, vive dividida entre Pontével, que procura no tempo mais ameno, e Amadora, onde passa sobretudo o Inverno. Lamenta que a sua terra natal não tenha a vitalidade comercial de outros tempos e que muitas lojas tenham fechado portas. “À hora do almoço, se quiser comprar uma caixa de fósforos não tenho onde. Os poucos que existem só abrem quando lhes apetece. O comércio está a decair e não há união entre os comerciantes que poderiam abrir à vez aos fins de semana”, constata.Pontével tem forno de cal que serviu para a reconstrução de Lisboa depois do terramotoPontével conserva ainda um dos 23 fornos de cal que foram colocados a funcionar na freguesia para ajudar na reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755. Está localizado no Alto de S. Gens, na estrada que liga a vila à freguesia vizinha de Vale da Pinta. O forno está em propriedade privada, tão pouco está classificado como monumento de interesse concelhio, mas o dono autorizou que a junta de freguesia pintasse a estrutura e que as silvas ao redor da estrutura fossem removidas para que se pudesse visitar o espaço. Por detrás da estrutura branca, que se vê ao longe, descobre-se a entrada onde era colocada a lenha. “Quando saía fumo branco pelos orifícios era sinal de que a pedra estava transformada em cal”, explica Maria Zelinda Pego da Associação Rio da Fonte, em Pontével, Cartaxo. “Há um ministro que escreve ao rei D. José pedindo que se levantasse a proibição da limpeza das matas, que proliferavam por causa das caçadas, para que os fornos fossem postos a cozer porque era preciso cal para a reconstrução de Lisboa”, atesta.A menina que aprendeu renda de bilros formou-se em HistóriaMaria Zelinda Pego não sente o peso da idade por dentro. Quem a ouve está também longe de imaginar que já conta 71 anos, tal é a vitalidade e rapidez de raciocínio. Nasceu nos Casais da Alcaria, em Pontével, Cartaxo. Frequentou os primeiros quatro anos de escola em Santarém para onde os pais foram trabalhar. Depois a família tentou a sorte com negócio próprio no Cartaxo e mais tarde na Amadora.Maria Zelinda Pego, filha única, interrompeu os estudos ainda menina para aprender bordados e renda de bilros mas acabou por voltar à escola inscrevendo-se no externato Marcelino Mesquita. Empregou-se como funcionária da federação de caixas de previdência. O seu primeiro emprego foi no antigo posto 23 da Amadora. Trabalhou na Administração Regional de Saúde, na Avenida Estados Unidos da América, mas antes foi abrir os centros de saúde da Brandoa, Queluz e Monte Abraão. Tinha que fazer 35 horas entre as 08h00 e as 21h00 nos dias úteis da semana, o que lhe dava margem de manobra e lhe permitiu concluir a licenciatura em História nos cincos anos como trabalhadora estudante. Na Faculdade de Letras teve como mestres António José Saraiva e Veríssimo Serrão.Quando deixou Pontével para se mudar para a Amadora sentiu saudades de ir à fruta, do cheiro dos cavalos, das galinhas, dos lagares de vinho em Outubro. “Parece que estava dentro de uma redoma”, recorda.Por outro lado a proximidade de Lisboa possibilitou-lhe idas frequentes ao teatro, à ópera e ao cinema. Não chegou a casar mas teve um filho do homem que foi o grande amor da sua vida.Experimentou o ensino, em regime de substituição, sem nunca largar o emprego, e chegou à conclusão que a vida de professor não era tão gratificante quanto imaginava, até porque o sucesso não depende só de um lado. O trabalho na Administração Regional de Saúde garantia-lhe quase os mesmos rendimentos e dava-lhe mais liberdade de horários. Nunca se desligou da História e a tese de licenciatura, datada de 1979, teve como tema a igreja de Pontével. “Se gosto de história ia interessar-me por outra terra que não a minha?”. O avó, que participou na revolta dos trauliteiros, incutiu-lhe o gosto pela disciplina.Reformou-se em 2000, depois de 37 anos de trabalho, e em 2005 ajudou a fundar a Associação para a Defesa do Património Histórico-Ambiental de Pontével, Rio da Fonte. Escreveu o capítulo da vida privada de Marcelino Mesquita, em 2006, numa publicação local, mas os seus escritos ficaram por aí. Anda agora ocupada a reunir árvores genealógicas.
“Tem havido pouco interesse pela arquitectura local”

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